Mozart in the jungle


A quebra de estereótipos

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domingo, 12 de agosto de 2018

A quebra de estereótipos em Mozart in the Jungle

Produzida em 2014 pelo serviço de conteúdo on demand estadunidense Amazon Prime Video, a série Mozart in the Jungle é inspirada no livro Mozart in the Junge: Sexo, Drogas e Música Clássica de Blair Tindall. A trama, criada por Roman Coppola (filho de Francis Ford Coppola), Jason Schwartzman e Alex Timbers, conta a história da oboísta Hailey Rutlege (Lola Kirke). A personagem tem o sonho de tocar na orquestra sinfônica de Nova York, que agora começa a ser regida pelo maestro, nada convencional, Rodrigo de Souza (Gael Garcia Bernal). Com o novo maestro Hailey (Lola Kirke) ganha a oportunidade de finalmente integrar a orquestra, mas não da maneira que ela imaginava. A série ganhou dois Globos de Ouro, incluindo a de melhor série de comédia, e é uns dos highlines da plataforma on demand da Amazon.


Conforme pontuado por Martin (2014) e Jost (2018) desde o início dos anos 2000 com a estréia das séries The Sopranos, (HBO, 1999-2007), Mad Men (AMC, 2007–2015), Breaking Bad (AMC, 2008-2013), House, M.D. (Fox, 2004-2012) e Dexter (Showtime, 2006-2013) os anti heróis têm ganhado espaço nas narrativas ficcionais seriadas estadunidenses. Segundo Jost (2018), de modo geral, esse tipo de personagem, apesar de serem norteados por comportamentos complexos, geram empatia nos telespectadores. Isto é, eles tiram a aura de “superman” que os protagonistas tradicionais de séries costumam ter. Essa “licença poética ao erro” contribui não só com a densidade das histórias, que podem explorar arcos narrativos mais amplos, mas também humaniza dos personagens.

Esses aspectos mundanos dos personagens contemporâneos podem ser observados em Mozart in the Jungle. A série tem como um de seus pilares narrativos a humanidade dos personagens, suas manias e imperfeições. É a partir desses recursos que os roteiristas exploram a comédia e, consequentemente, desmitificam o glamour da música clássica.


Essa questão fica ainda mais nítida se refletirmos, mesmo que de maneira breve, sobre os personagens que integram o universo ficcional de Mozart in the Jungle. Nos primeiros episódios esse aspecto fica claro quando a própria protagonista Hailey (Lola Kirke) apresenta imperfeições na única coisa que ela sabe fazer (que é toca oboé). Esse ponto é enfatizado logo no terceiro episódio (Sinfonia silenciosa) pelo Maestro Rodrigo (Gael Garcia Bernal). O personagem fala que ela não toca bem, mas toca com o sangue, querendo dizer que ela não é a melhor, porém se esforça para ser. Ao invés de insistir na imagem perfeita e sem erros, Hailey (Lola Kirke) completa dizendo que por treinar Oboé 7 horas por dia nos sete dias na semana acabou perdendo momentos importantes da sua vida. Como, por exemplo, aprender a andar de bicicleta quando criança.

O constante contraponto entre a vida pessoal e os sacrifícios da profissão não se restringe ao arco narrativo explorado em Mozart in the Jungle. Segundo Barbeitas (2017), o artista acaba abrindo mão de uma educação convencional para focar na sua vocação artística. Mas e se toda a dedicação for em vão? Esse ponto é discutido em Mozart in the Jungle através de Hailey (Lola Kirke), que enfrenta problemas financeiros em decorrência de suas constantes tentativas de entrar na orquestra como oboísta. Porém, ao acompanhar os bastidores da orquestra do Maestro Rodrigo (Gael Garcia Bernal) a personagem vê que as dificuldades (financeiras, emocionais e físicas) atingem todos os músicos.


Esse tema é explorado por vários personagens como, por exemplo, Cynthia Taylor (Saffron Burrows) uma violoncelista que desenvolveu um problema nos punhos e se vê em um dilema de fazer uma cirurgia e que pode encerra a sua carreira ou continuar tocando e comprometer sua saúde.

Além do núcleo dos músicos, temos o da administração. Os plots, em sua grande maioria são centrados, na personagem Gloria Windsor (Bernadette Peters) que lida com o sindicato dos músicos e as doações que a elite da cidade faz para a orquestra. Entretanto, muitas vezes a personagem tem que se humilhar para fazer o melhor para a Orquestra.

O maestro Rodrigo (Gael Garcia Bernal) talvez seja o maior exemplo (e ironia) de como Mozart in the Jungle que a imagem de intocável dos protagonistas. Inicialmente o personagem é mostrado como um gênio, maestro desde os 12 anos e compondo as maiores orquestra do mundo. Totalmente outsider, Rodrigo (Gael Garcia Bernal) não é um maestro convencional. Porém, ao longo da série essa imagem plástica é desconstruída. O público vai conhecendo detalhes sobre o passado do personagem, mostrando que no fundo o grande maestro Rodrigo de Souza (Gael Garcia Bernal) não é perfeito, mas egocêntrico e mesmo dizendo o oposto adora a fama.

Dessa forma, Mozart in the jungle usa das imperfeições e defeitos dos seus personagens e a música clássica para fazer comédia, mostrando a dificuldades e o sacrifício presentes na vida de um artista. Essa constante quebra de estereótipos reforça a identificação dos telespectadores e, principalmente, torna a trama ainda mais interessante.


Referências:
BARBEITAS, Flávio. Ainda restará essa “flor"? Representações contrastantes da música em duas obras literárias. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v.27, n.2, p. 127-139. Disponível em: < https://bit.ly/2AIBOO9>. Acesso em: 5 ago. 2018.

JOST, François. François Jost: entre a intimidade e a maldade (comunicação, personagens e séries de televisão na atualidade) - Entrevista de Maria Cristina Palma Mungioli. Comunicação & Educação, v. 23, n.1, p.139-147, 2018. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/145518>. Acesso em: 5 ago. 2018.

MARTIN, Brett. Homens Difíceis – Os Bastidores do processo criativo de Breaking Bad, Família Soprano, Mad Men e outras séries revolucionárias. São Paulo: Aleph, 2014.

domingo, 5 de agosto de 2018

O fenômeno RuPaul

O reality show começou a se popularizar nos Estados Unidos na década de 1940, com o programa An American Family (1948), que mostrava o dia a dia de uma família que acabara de se deparar com um divórcio. Décadas mais tarde, o formato ganhou mais novas possibilidades com o ecossistema de conectividade. Conforme pontua Fechine (2009) a cultura da convergência não tornou os programas mais dinâmicos e interativos, mas alterou a relação do público com estes conteúdos. Durante a exibição das atrações os telespectadores geram buzz nas redes sociais, as postagens no Twitter, Facebook e Instagram repercutem e ressignificam os episódios.

Dessa forma, mesmo que os percursos do programa sejam “comandados” por diretores e editores, a narrativa em si se constrói também de acordo com a atuação e a interação do público, seja atreves de votações, discussões em fóruns, propagação de conteúdos, etc.


O crescente interesse do público nos realities shows contribuiu para a segmentação do formato. Programas voltados para a culinária (Batalha dos Confeiteiros), ao empreendedorismo (O Aprendiz), a vida de socialites (Mulheres Ricas), entre outros. Atualmente em sua décima temporada, o reality show RuPaul’s Drag Race é um fenômeno! A atração, exibida nos Estados Unidos pelo canal VH1, mobiliza fãs no mundo inteiro e se tornou uma das franquias mais lucrativas da TV.

Ru Paul’s Drag Race

RuPaul in e out of drag

Ru Paul’s Drag Race estreou nos Estados Unidos em 2009. O programa é uma competição de dragqueens, o longo dos episódios os participantes disputam a coroa de American’s Next Drag Superstar (próxima estrela drag americana, no português). Mas para isso elas devem ter carisma, singularidade, coragem e talento. RuPaul’s Drag Race foi exibida inicialmente pelo canal pago Logo TV e logo na sua primeira temporada foi o programa mais assistido da emissora. Em sua nona temporada, o canal VH1 começou a exibir o reality.

Já no Brasil a atração foi ao ar inicialmente pela VH1 e posteriormente pelo Multishow, da Globosat. Atualmente, duas temporadas (oitava e nona) de RuPaul’s Drag Race estão no catálogo da Netflix. Porém, muitos fãs ainda assistem o reality de forma ilegal, através do Torrent e de plataformas de streaming. A popularização de RuPaul no país, influenciou a criação de programas no mesmo segmento. Como, por exemplo, Glitter, uma versão nordestina do reality, Academia das Drags, desenvolvido para o YouTube e apresentado pela lendária Silvetty Montilla; Drag-se; entre outros.

Algumas das vencedoras de RuPaul’s Drag Race

RuPaul’s Drag Race é apresentado e idealizado pelo norte-americano RuPaul Andre Charles, que teve seu boom como drag na década de 1980. RuPaul foi um dos pioneiros no cenário LGBT a começar a conquistar espaço na mídia e nos veículos de comunicação como drag Queen (OLIVEIRA; ARAÚJO, 2016). Além de apresentador, RuPaul atua como cantor, diretor, ator, publicitário e também é militante das causas LGBT, em alguns momentos, usa do programa para tratar de assuntos mais sérios do cenário LGBT.

O programa é repleto de referências usadas nos anos 80 nas Balls, que eram onde os jovens gays se encontravam para competições sadias de Vogue (não, não foi a Madonna que inventou o Vogue!) (OLIVEIRA; ARAÚJO, 2016). Nas balls (bailes) as pessoas da comunidade LGBT se reuniam para dançar, participar de concursos de beleza, desfiles de moda, entre outros.


Para entender um pouco melhor sobre as balls e toda sua cultura, vale a pena assistir ao documentário Paris is Burning (corre que tem na Netflix!) que ilustra todo esse universo dos anos 80. Inclusive, RuPaul, que viveu a época retratada no documentário,usa no reality várias referências e bordões de Paris is Burning.

Neste ano a atração contou com duas temporadas. A All Stars 3, que dá uma espécie de segunda chance a queens que já passaram pelo programa e obtiveram êxito em suas carreiras ao saírem do reality. E uma décima edição, que foi uma temporada com uma série de queens que são “filhas” de ex participantes do programa. O’hara, Mateo, Michaels, são sobrenomes conhecidos pelo fandom que retornam nessa temporada com força total.

O modocomo os fãs de Drag Race repercutem e ressignificam o reality show, chama a atenção para o engajamento e identificação dos telespectadores. Em geral, a produção e a distribuição de conteúdo do fandom é feita por meio de comunidades em redes sociais, em fóruns de sites e eventos sobre o tema, que facilitam para o surgimento e expansão de mais produções deste nicho.

O Império de RuPaul


DragRace, além de apresentar uma série de drags para os telespectadores e premiar a melhor entre elas, também esclarece questões importantes ao público. O programa trata de assuntos relacionados à aceitação, homofobia, relação família x orientação sexual das queens e diversos assuntos delicados que a comunidade LGBT. Nesse contexto, a atração humaniza a figura da dragqueen, que muitas vezes é estereotipada pela mídia.

O sucesso do reality propiciou o desenvolvimento de outros programas e eventos relacionados ao universo de RuPaul. Como, por exemplo, a RuPaul’s DragRace: Werq The World, uma turnê das queens ao redor do mundo, a Drag Con, que é uma espécie de Comic Con das drags, com stands e todo o universo de Drag Race. A franquia também abrange parcerias com revistas renomadas e empresas de maquiagem. 


O reality idealizado por RuPaul ajudou a trazer à tona muitas drags, que começaram a publicar suas performances online, conseguir contratos para se apresentarem em boates LGBT. É inegável que RuPaul’s Drag Race mudou a cultura drag. Quebrando estereótipos e mostrando que as queens também são pessoas vulneráveis, indo além dos clichês que são mostrados pela mídia. O programa abriu várias oportunidades para as pessoas da comunidade no Brasil e no mundo.

Referências:

FECHINE, Yvana. A programação da TV no cenário de digitalização dos meios: configurações que emergem dos reality shows. In: FREIRE FILHO, João (Org.). A TV em Transição: tendências de programação no Brasil e no mundo. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 139-170.

OLIVEIRA, Cristiano; ARAÚJO, Leonardo. Reconfigurações do consumo televisivo no reality show Ru Paul’s Drag Race. Culturas Midiáticas, v.9, n.2, p.177-188, 2016. Disponível em: <http://www.periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/cm/article/view/32039/16578>. Acesso: 3 ago. 2018.


domingo, 29 de julho de 2018

A importância da composição imagética na compreensão do universo ficcional de Sharp Objects


As séries contemporâneas são (em sua grade maioria) norteadas por um modelo narratológico que é composto por várias camadas interpretativas e exige uma leitura atenta dos telespectadores. Cunhada por Mittell (2012, p. 36) a complexidade narrativa tem como uma de suas características centrais a fusão do formato episódico e seriado. Outro ponto recorrente nas tramas é a utilização de vários gêneros narrativos. Como explica Capanema (2016), este modelo abrange elementos como reflexividade, incoerência temporal, múltiplos pontos de vistas, monólogos interiores, ambiguidades etc.

Nesse sentido, essas produções exigem dos telespectadores mais atenção e engajamento para que seja possível compreender a trama. De acordo com Mittell (2012, p. 36) “O público tende a aderir a programas complexos de uma forma muito mais apaixonada e comprometida do que à maior parte da programação da televisão convencional”.

Neste contexto, a prática da reassistência vem se tornando cada vez mais comum entre os telespectadores. O conceito é definido por Mittel (2011) como a possibilidade de rever um programa televisivo, com o objetivo de deter a compreensão de todas as camadas da trama. Segundo o autor a prática permite que o público faça uma análise aprofundada, tentando dar sentido às estruturas do texto, à mecânica, à poética ou mesmo ao arco narrativo.

Dentro da prática de reassistência, há dois conceitos que podem ser observados: a perfurabilidade do texto e o fandom forense. A perfurabilidade se refere à capacidade de aprofundar nas narrativas complexas (MITTELL,2009). Como aponta Mittell (2009, Online) “Esses programas criam ímãs para engajamento, atraindo telespectadores para mundos narrativos e exortando-os a se aprofundar para descobrir mais”. Desta forma, essas séries incentivam o público a explorar plataformas colaborativas e redes sociais digitais para descobrir informações sobre a narrativa.

Já o conceito de fandom forense trata-se do fã- investigador que busca pelos detalhes da trama a fim de propor novos significados aos acontecimentos (MITTELL,2009). De acordo com Mittell (2012, p.42) “Essa estética operacional está demonstrada na dissecação feita por fãs em fóruns na internet das técnicas utilizadas nas comédias e dramas complexos para guiar, manipular, iludir e desviar a atenção dos espectadores”. Jost (2017, p.27) afirma que hoje temos
[...] a possibilidade de ampliar a tela para observar um detalhe de um simples gesto; a necessidade de observar a tela em jogos de videogame, de modo a encontrar o detalhe que permitirá passar de um nível a outro e, por conseguinte, de descobrir elementos muito menores que o plano.
Desta forma, esses recursos permitem que o telespectador explore a narrativa de modo mais profundo, com a intenção de dissecar todos os detalhes e camadas interpretativas.

Os pontos discutidos por Mittell (2011; 2012) pode ser observados na minissérie Sharp Objects, uma adaptação do livro homônimo produzida pela HBO. A minissérie conta a história de Camille Preaker (Amy Adams), uma jornalista recém-saída de um hospital psicológico devido a anos de automutilação. A personagem é enviada a sua cidade natal para investigar os assassinatos de duas meninas e acaba tendo que enfrentar seu passado.

 
Camille Preaker (Amy Adams) têm uma relação conturbada com sua família, especialmente com a mãe super controladora, Adora (Patricia Clarkson), e com a meio-irmã adolescente, Amma (Eliza Scanlon). Além disso, a personagem vive a dor da irmã que perdeu na infância.

A série possui uma narrativa não-linear, ou seja, a história mistura acontecimentos do passado da protagonista com cenas de seu presente. Os flashbacks de Sharp Objects são essenciais para a compreensão da narrativa e para entender o drama vivido pela protagonista e também o motivo de sua árdua relação com sua mãe. Apesar disso, eles são apresentados de forma implícita na trama, através de pequenos detalhes - com cenas com cortes rápidos, como flashes - sem nenhum tipo de indicação de que se tratam de cenas pertencentes a outra linha temporal. Como quando Camille (Amy Adams) avista uma roseira e lembra de ver sua mãe atirando um buquê de rosas no chão da recepção do hospital psiquiátrico em que ficou.


A automutilação é um arco narrativo recorrente em Sharp Objects. Camile (Amy Adams) descarrega suas questões emocionais na própria pele, escrevendo palavras pelo corpo com os objetos cortantes do título do livro/minissérie. Assim, outro tipo de detalhe explorado na série são palavras “escondidas” nas cenas e presentes no próprio corpo da personagem. Os escritos aparecem de forma muito sutil no ambiente, e nem sempre são visíveis em um primeiro momento. Como, por exemplo, no primeiro episódio, em que aparece a frase em um sinal de estrada enquanto Camile (Amy Adams) dirige de St. Louis para Wind Gap: "Última saída para mudar de ideia"


Outro exemplo pode ser observado no episódio “Vanish” quando Amma (Eliza Scanlon) mostra a Camille (Amy Adams) sua versão em miniatura de uma casa de bonecas da mansão de Adora (Patricia Clarkson). A palavra "garota" é sutilmente visível, escrita em uma das réplicas de uma pintura da casa. Também é curioso que o quarto de Camille (Amy Adams) é um dos poucos cômodos não construídos na casa de bonecas da Amma (Eliza Scanlon) - a minúscula porta para onde o quarto dela seria não leva a lugar algum.


Apesar de sutis, estes detalhes - os flashbacks e as palavras - contribuem para contextualizar os acontecimentos do presente. E, considerando que a personagem não fala sobre suas angústias e dores, esses detalhes podem ser vistos como dicas para entender os pensamentos e o que Camille (Amy Adams) está sentindo no momento.

A partir da composição imagética de Sharp Objects o telespectador é instigado a ter uma leitura mais atenta da série observando todos os pequenos detalhes, somando os fragmentos e correlacionando as dicas por meio dos escritos, para que a narrativa faça sentido.

Referências:

All of the Hidden Words You Missed in Sharp Objects, VULTURE. Online, 2018. Disponívelem:http://www.vulture.com/2018/07/sharp-objects-all-the-hidden-words-you-missed.html. Acessoem: 26 jul. 2018.

CAPANEMA, L. A Narrativa Complexa Na Ficção Televisual: Por Um Modelo De Análise. 2016. In Atas do V Encontro Anual da AIM, 514-525. Lisboa: AIM. Disponível em: http://aim.org.pt/atas/pdfs/Atas-VEncontroAnualAIM-54.pdf. Acesso em: 26 jul 2018.

JOST, François. Amor aos detalhes: assistindo a Breaking Bad. In Matrizes, v.11 n.1, p. 25-37, 2017. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/download/131623/127910>.Acesso em: 27 jul. 2018.

MITTELL, J. Complexidade narrativa na televisão americana contemporânea. 2012. São Paulo. Matrizes, vol. 5, Ano 5 – nº 2 jan/jun. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/38326/41181. Acesso em: 26 jul 2018.

________. Notes on Rewatching. Just TV, Online, 2011. Disponível em: https://justtv.wordpress.com/2011/01/27/notes-on-rewatching/. Acesso em 26. jul. 2018. 


domingo, 22 de julho de 2018

Sem respostas ao final: a complexidade narrativa em The Leftovers

O que aconteceria se dois por cento da população mundial sumisse do mapa sem deixar rastros? Como lidaríamos com isso? E como descobrir o que aconteceu com essas pessoas? Produzida pela HBO, a distopia de The Leftovers (2014-2017) a reflete sobre como seria o mundo dos deixados para trás. Indicada a 64 prêmios durante suas curtas três temporadas, a narrativa faz uso de um espaço cênico que poderia se confundir com qualquer outro drama ou sitcom que estivesse no ar. Nesse sentido, não se sabe ao certo se a história se passa antes, durante ou após o apocalipse.



Discutida por Mittell (2015) a complexidade narrativa tem como uma de suas características centrais a hibridização de formatos televisivos tradicionais. Como pontua o autor, as tramas compostas por uma combinação de arcos episódicos (plots que se esgotam na finalização daquele episódio) e seriados (plots que são prolongados durantes episódios e temporadas). Outra característica deste formato narratológico são as múltiplas camadas interpretativas que estimulam a reassistência (rewatchability, no original) do programa. Isto é, as séries são tão densas, apresentam uma composição imagética e narrativa tão amplas que precisam ser assistidas várias vezes para o telespectador compreender o universo ficcional em sua totalidade.

Segundo Anaz (2018), outras especificidades colaboram para a complexificação de narrativas. Como, por exemplo, a concepção espaço-temporal, construindo a diegese através da articulação de diversos tempos, arcos e espaços temáticos que se desenvolvem a parte uns dos outros, mas, por fim, unem-se. De acordo com o autor, em The Leftovers “[...] os planos espaciais foram concebidos com dimensões e/ou universos paralelos que demandam especial atenção da audiência para compreensão das tramas” (ANAZ, 2018, p. 14). Dessa forma, compreender o universo narrativo se torna também um grande esforço cognitivo a fim de perceber interconexões, construir e abstrair sentidos múltiplos.

Deixados para trás e a representação social


Diante da partida repentina de dois por cento da população mundial, a cidade de Mapleton (NY, EUA) serve de símbolo para a reformatação da sociedade em torno de eixos gerados pelo trauma coletivo: os Guilty Remanescents simbolizam a culpa dos que ficaram, o sagrado tenta compreender os por quês do acontecido e os céticos tentam seguir suas vidas de maneira independente ao evento. É interessante notar que os personagens principais transitam entre essas categorias sociais em momentos determinados da narrativa. Conforme ressaltam Joseph e Letort (2017, p. 6), “[...] a série dá destaque para diferentes modos de lidar com o trauma, no entanto, uma atmosfera de silêncio profundo prevalece, isolando cada personagem com suas dúvidas e questionamentos internos” (livre tradução do autor).


Enquanto os personagens lutam batalhas internas para lidar de maneira individual com o luto, se constroem as camadas sociais nas quais eles irão se inserir em determinados momentos. De todo modo, as três percepções parecem ser apresentadas sem julgamentos. Diferentemente de narrativas pós-apocalípticas tradicionais, The Leftovers não foca em heróis sobreviventes que tentam construir uma nova e melhor sociedade, mas ressalta as falhas dos que ficaram e, ainda, mantém permanente a presença simbólica dos que se foram (JOSEPH; LETORT, 2017).

O xerife Kevin Garvey (Justin Thereoux) se encaixa, à primeira vista, no espaço da incredulidade. O messias ou apenas outro homem, a depender da perspectiva, não perdeu ninguém que tivesse conhecimento durante o fenômeno do arrebatamento, conforme denominado na série. No entanto, sua vida se transforma quando sua esposa o abandona para unir-se ao grupo que pretende não deixar esquecer aqueles que se foram.




Enquanto os GRs materializam os espaços em branco deixados pelos que partiram, através de suas próprias roupas, seu silêncio e pelas nuvens de fumaça que se esvaem de seus cigarros, Kevin (Justin Thereoux) representa a repressão de uma memória dolorida (JOSEPH; LETORT, 2017). Enquanto isso, sua futura esposa, Nora Durst (Carrie Coon), perdeu o marido e seus dois filhos e reprime sua dor ao dar sequência em seu trabalho de investigar os possíveis casos de partida para concessão de seguridade social às famílias.


Ao final, nada se sabe [SPOILER!]

As expectativas durante o desenvolvimento da narrativa ao longo das três temporadas de The Leftovers levam o público a esperar a resolução dos problemas ao final. O último episódio é ambientado anos após Nora (Carrie Coon) se dispor a testar uma máquina que possivelmente a levaria para onde os dois por cento foram. A quietude da trama do reencontro em ela e Kevin (Justin Thereoux) mantêm o formato de dúvida previamente construído.



A última temporada tem início com o episódio The Book of Kevin que pretende apresentar as correlações do personagem principal com o evento da partida repentina. O episódio final, The Book of Nora, explora a jornada da personagem em busca de respostas e de maneiras de lidar com sua dor. A sinopse contida na plataforma brasileira de streaming do canal, o HBO GO, nos alerta “Nada tem resposta. Tudo tem uma resposta. E depois termina” (HBO GO, Online).



A música de abertura da segunda temporada é retomada nesse episódio, dando o tom de dúvidas sob o qual se desenvolve. Cantada por Iris DeMent, a música Let the Mistery Be (Deixe o mistério ser, em tradução livre) fala sobre as incertezas em relação à vida e a morte. Ao final do refrão escutamos: “mas ninguém sabe ao certo e para mim isso dá no mesmo. Eu acho que deixarei o mistério continuar” (tradução livre do autor).

Para participar do experimento, é solicitado a Nora (Carrie Coon) que grave uma declaração de plena consciência dos seus atos, isentando os cientistas de possíveis retaliações legais. O episódio abre com ela gravando este vídeo, na sequência, ela caminha até a máquina completamente nua, como se despisse de tudo que a liga com o mundo presente e pronta para seguir para um novo espaço-tempo alternativo (e possivelmente ficcional, dentro do espaço e tempo diegético). Nos segundo finais da jornada, Nora (Carrie Coon) parece prestes a pedir socorro quando um corte leva o público para a calmaria de uma pomba voando no céu azulado.

O próximo arco narrativo se dedica a explorar o reencontro de Kevin (Justin Thereoux) e Nora (Carrie Coon), ambos mais velhos. Após incansáveis buscas, por fim Kevin (Justin Thereoux) consegue encontrá-la morando em uma fazenda e levando uma simples e solitária vida. Nora (Carrie Coon) desapareceu na Austrália depois de se colocar a disposição da experiência e ele explica que voltou ao país durante todos esses anos nas férias, transitando entre diversos pontos à procura dela. Por fim, eles parecem fazer as pazes com o passado.

A cena final se desenvolve conforme Nora (Carrie Coon) revela seu percurso no mundo dos que partiram e sua jornada de volta ao mundo real. Segundo ela, após a viagem no espaço-tempo, ressurgiu nua em um estacionamento australiano. A seguir, toda sua epopeia é descrita em minuncias: o caminho de volta aos Estados Unidos, sua chegada em Mapleton e a busca incessável por seus filhos e marido.

Toda essa cena se desenvolve apenas a partir da narração de Nora (Carrie Coon). Os dois encontram-se sentados à mesa, conversando, enquanto ela conta o que lhe ocorreu e nenhuma imagem do ocorrido é adicionada ao episódio. A revelação mais brusca talvez se dê no momento em que ela explicita o motivo pelo qual decidiu retornar: ao chegar no mundo que tanto buscou percebeu que sua família havia reencontrado seu caminho e modos de seguir em frente nessa nova realidade. Nesse contexto, ela diz ter sentido que não fazia parte daquele lugar e resolve procurar pelo cientista criador da máquina para voltar ao plano real.



Ao optar por um fechamento parcial da narrativa, os produtores de The Leftovers permitem ao público julgar se a história contada por Nora (Carrie Coon) condiz com a realidade interna da série. Desse modo, sem provas do que foi dito é real, os criadores estimulam o telespectador a reassistir os episódios a fim de procurar interconexões que corroborem o sentido do episódio final.

Apesar de parecer desconexo para compressão da calmaria em um campo australiano em contraponto a ação contida na maioria dos episódios é preciso estar atento e notar o distanciamento anteposto pelos criadores em relação ao julgamento das castas e dos indivíduos dessa sociedade. Em todo momento, a narrativa se dedica apresentar perspectivas e deixar ao público o papel de definir concordâncias ou discordâncias.

Nesse sentido, a complexidade de The Leftovers está ligada tanto a hibridização de arcos seriados e episódios e a capacidade de estimular a reassistência quanto com a criação de um universo ficcional composto por múltiplos espaços, tempos e camadas de sentido. O telespectador que pretende compreender a trama de maneira mais ampla precisa estar ciente dos acontecidos em diversos arcos, construindo mentalmente um mapa de entendimento da história.


Referências:

ANAZ, S. Construindo séries de TV complexas: a concepção diegética de Westworld. In Famecos, v. 25, n. 2, p. 1-17, 2018.DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.2.28492.

JOSEPH, C.; LETORT, D. Tom Perrotta’s The Leftovers in Textual Seriality: Trauma, Resilience... Resolution? In TV/Series, v.12, p. 1-20, 2017. DOI: 10.4000/tvseries.2170

MITTEL, J. Complex TV: The Poetics of Contemporary Television Storytelling. New York: NYU Press, 2015.


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