The Handmaid's Tale


As prisões visuais da série

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domingo, 15 de julho de 2018

As prisões visuais de The Handmaid’s Tale


Baseada no livro homônimo de Margaret Atwood, a série The Handmaid’s Tale (2017-atual, Hulu) é uma distopia centrada em um golpe teocrático e autoritário que transforma parte dos Estados Unidos na República de Gilead. Motivado pela queda exponencial da taxa de natalidade, o golpe tenta resgatar uma conduta moral conservadora, estabelecendo um sistema rígido de estratificação social. Esse sistema tira direitos básicos de vários grupos vulneráveis, principalmente das mulheres, que são vistas como as principais culpadas pela redução da natalidade.

A série é apenas um dos exemplos de produções televisivas ou para serviços de streaming que assumem uma natureza mais complexa visualmente, se preocupando com detalhes e acompanhando as mudanças na forma que os espectadores as consomem. Como pontua Jost (2017, p. 30-31),

Assistir a uma obra televisual ou cinematográfica é hoje uma empreitada centrípeta bastante próxima daquela do herói de Blow up, que tenta saber mais através da ampliação de uma fotografia.
Para além dos mecanismos de repressão estabelecidos por Gilead – como as roupas específicas designadas para cada grupo social – The Handmaid’s Tale usa artifícios visuais para aprisionar as personagens e reforçar a opressão desse novo regime. Essa questão pode ser observada na composição da trama.

Para Donis A. Dondis (1997), a composição é de extrema importância no processo criativo, sendo a etapa que oferece maior oportunidade para que um artista estabeleça o que o resultado final deseja transmitir. A autora define o conceito de “eixo sentido”, como uma relação vertical-horizontal que é a base na referência visual humana para determinar o equilíbrio de uma imagem. A disposição dos elementos em relação a esse eixo aumenta ou diminui a tensão visual de um plano.

É possível perceber que, através de toda a série, as personagens femininas recebem um enquadramento específico: centralizadas, de maneira que estejam aprisionadas pelo cenário, seja com móveis, cortinas ou até mesmo as próprias estruturas da casa. Esse padrão composicional se manifesta em momentos de tensão narrativa, como quando Offred (Elisabeth Moss) é apresentada ao seu novo Comandante ou durante os estupros ritualísticos aos quais as Aias são submetidas. No entanto, ao escolher uma simetria bilateral - isto é, organizando os elementos em quadro de maneira que se equilibrem - The Handmaid's Tale contradiz visualmente o clima tenso do enredo.
[...] uma definição mais precisa seria emocionalmente menos provocativa, mais simples e menos complicada, qualidades essas que descrevem o estado a que se chegou visualmente através da simetria bilateral. (DONDIS, 1997, p. 42-43)
É possível entender essa contradição através dos momentos em que esse padrão composicional se manifesta para os personagens masculinos. Durante a primeira temporada, o padrão está associado quase exclusivamente às mulheres, com destaque para June (Elisabeth Moss) e Serena Joy (Yvonne Strahovsky). Patriarcal por excelência, essa nova sociedade as reduz a uma condição de completa submissão – o que justificaria a composição ser mais recorrente entre as personagens femininas. Os Comandantes, ao contrário, são retratados como figuras que, aparentemente, estão acima de qualquer punição. Ainda assim, nos momentos em que sua soberania é posta em dúvida perante as estritas regras de Gilead, eles são retratados da mesma forma que as mulheres.


A manifestação desse padrão composicional para os homens atinge seu auge no último episódio da primeira temporada, intitulado Night, durante um julgamento. O escândalo sexual envolvendo um Comandante e uma Aia mostra que os homens podem sofrer represálias sociais tão severas quanto às demais classes dessa nova sociedade.

Desta forma, de acordo com a sintaxe visual, o padrão da composição tão recorrente na série se apresenta visualmente harmonioso. Contudo, essa harmonia pouco tem a ver com o estado psicológico das personagens ou simplesmente à tensão da trama. O que The Handmaid’s Tale busca expressar é o regime teocrático funcionando em sua plenitude. Impossibilitadas de criar surpresas narrativas devido aos mecanismos de repressão da República de Gilead, as personagens também estão subjugadas a uma organização composicional que não possibilita surpresas visuais em tela.

Referências:

ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

DONDIS, Donis A.. Composição: Fundamentos Sintáticos do Alfabetismo Visual. In: _____. A Sintaxe da Linguagem Visual. 1. ed. São Paulo, SP: Livraria Martins Fontes, 1991.

JOST, François. Amor aos detalhes: assistindo a Breaking Bad. MATRIZes , v. 11, n. 1, p. 25-37, 2017. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/131623/127910>. Acesso em: 09 jul. 2018.

domingo, 8 de julho de 2018

Então por que você vira presidenta da república pra falar isso, linda?

Que tipo de texto tem um título como esse? Um texto que vai falar sobre memes, é claro! Usado por muitos, não entendido por poucos, os memes hoje são umas das formas de expressão mais famosas na internet. Quem nunca viu uma imagem da Gretchen rodando pelas redes sociais com alguma frase de impacto? Ou imagens da famosa vilã da novela A Usurpadora, Paola Bracho, nas tardes do SBT? Mas se engana quem pensa que os memes são só zoeira, tem muito estudo envolvido nisso!

Conforme explica Shifman (2014) o termo meme foi citado em 1976, pelo biólogo Richard Dawkins, em seu livro ‘O gene egoísta’, para representar um fragmento cultural, que se replica de cérebro em cérebro, como um gene pula de corpo em corpo. A ideia foi adaptada para a internet seguindo os princípios de Dawkins, para representar imagens e ideias humorísticas compartilhadas nas redes sociais (SHIFMAN, 2014). A partir daí, o conceito foi adotado no ambiente de conectividade como uma mensagem de fácil acesso e que se espalha rapidamente na mente e nas telas de cada pessoa.

Esses memes são replicadores de ideias e conceitos culturais que podem afetar o comportamento humano e sua forma de pensar e agir diante de determinadas situações, produzindo diferentes reflexões a respeito de vários assuntos (SHIFMAN, 2014). O memes podem ser retirados de quaisquer situações como, por exemplo, vídeos de pessoas “comuns” na internet, acontecimentos importantes do dia a dia e até cenas de novelas, como os famosos memes da personagem Nazaré Tedesco, da novela Senhora do Destino que ficou mundialmente conhecido. 


Do ponto de vista do filósofo Dan Dennett, os memes, como formas de ideias e pensamentos são importantes fatores para o desenvolvimento cultural de uma sociedade, já que com sua fácil reprodutibilidade, são fundamentais na expansão social e na difusão de conceitos que até hoje são utilizadas socialmente, como a invenção da roda. Waizbort (2003, p. 26-27) pontua que:

Como os genes, os memes poderiam ser compreendidos se prestarmos atenção: 1) ao processo hereditário pela qual as informações culturais se reproduzem em populações de cérebros humanos (horizontal e verticalmente), 2) ao processo que faz com que as informações culturais variem, e 3) ao processo de seleção de informações culturais, dado o número limitado de cérebros e uma virtual infinidade de idéias, fragmentos de idéias e complexos de idéias no pool de idéias.
Mas se engana quem acha que os memes são criados de forma aleatória e tem apenas o intuito de divertir o público. Apesar de serem produzidos a partir de acontecimentos cotidianos, os memes possuem uma espécie de “agenda”, com critérios que os fazer hitar (atingir sucesso) ou flopar (fracassarem). Segundo Recuero (2007) eles precisam passar por quatro pilares centrais para se manterem dentro do meio e continuarem existindo. Nesse contexto, eles são avaliados em critérios de (RECUERO, 2007):

● Fidelidade: Quando um meme apesar da replicação se mantém o mais próximo possível do seu original;

● Longevidade: Quanto mais tempo ele se mantém “vivo”, mais forte ele é e mais chance de ser replicado;

● Fecundidade: Sua habilidade de se espalhar rapidamente e em mais veículos possíveis;

● Alcance: Quantas pessoas ele consegue atingir, e quanto ele se espalha na rede.

Mas apesar de possuírem um viés humorístico, nem todos os memes são engraçados e para entreter, muitos deles carregam mensagens políticas, criticando a conjuntura política e as situações vivenciadas no momento em que são criados (RECUERO, 2007; TOTH; MENDES, 2016). Esses tipos de memes apresentam uma linguagem satírica, tanto na imagem, quanto em seu texto, para representar muitas vezes o descontentamento com a situação vivida.

Uma chance para a fama?

Os memes por serem criados de fatos cotidianos, personagens famosos ou pessoas anônimas e podem alavancar carreiras, mesmo que por um breve momento. Tiramos como exemplo a cantora brasileira Gretchen. Conhecida como a rainha do rebolado nos anos 1980, a musa da internet permaneceu por muito tempo em um hiato, em que sua fama foi diminuindo gradativamente nos anos 2000 até sua participação no reality show da Rede Record, A Fazenda, que alavancou sua carreira novamente por suas icônicas frases e reações ao longo do programa. Os internautas voltaram a engrandecer a artista, criando memes com fotos, vídeos e gifs que acabaram por levar ela a ter seu próprio reality show com a sua família no canal Multishow, aparecer no clipe da cantora norte-americana Katy Perry e ainda participar de seu show no país.




E é claro que o maior evento esportivo do mundo não iria ficar de fora da zoação dos brasileiros! A Copa do Mundo já rendeu para a internet e para o público, inúmeros memes, sejam dos jogadores, dos mascotes ou dos torcedores. Ninguém escapa da zoeira brasileira, que não poupa nem um dos seus jogadores principais, o menino Neymar. Suas quedas constantes em campo renderam inúmeras imagens do jogador, principalmente no Twitter, o lugar onde os memes mais fazem sucesso e depois são compartilhados em outras redes. O mascote da seleção brasileira, o canarinho pistola, também virou um meme, por sua cara sempre brava.





O jogador Cristiano Ronaldo também não foi poupado da zoação dos brasileiros, que pegaram fotos dele com seu filho e fizeram imagens de possíveis diálogos entre eles, inflando o ego do “galã” da Copa. Recentemente tivemos um novo personagem que virou febre nas redes sociais, o “misterioso da copa”, um homem misterioso, levemente medonho, que chamou a atenção dos brasileiros por estar vestindo a camisa da seleção e segurando a bandeira do país. O homem que já não é tão misterioso assim ficou famoso e bombou nas redes sociais desde a partida em que apareceu, entre Brasil e México.





Mas até onde vão os limites dos memes?


Bom, isso ainda não sabemos! Por serem conteúdos que se espalham com facilidade e pela facilidade de edição dessas imagens, fica difícil definir qual seria o limite. Essas imagens podem ser usadas em quaisquer situações, desde para contar algo engraçado, chamar a atenção do @ ou do público, como muitos veículos vêm fazendo recentemente, como ao perfil no Twitter da UFJF, ou até mesmo para momentos de tensão, como brigas. Quem nunca debochou de alguém usando algum meme de Tati Quebra Barraco, não é mesmo?!

Seja para o bem ou para o mal, os memes estão entre nós e parece que não vão desaparecer por um bom tempo! O que nos resta é ter bom senso e saber o momento exato de mandar um deles para alguém.




Referências:

RECUERO,R. Memes em weblogs: proposta de uma taxonomia. In Revista Famecos,v. 14, n.32, p.23-31, 2007. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3411>. Acesso em: 8 jul. 2018.

SHIFMAN, L. Memes in Digital Culture. Cambridge: The MIT Press, 2014.

TOTH, J.; MENDES, V. Monitorando memes em mídias sociais. In: Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: Metodologias, aplicações e inovações. SILVA, T.; STABILE, M.(Orgs.) Instituto Brasileiro de Análise de Dados - Ed. Uva Limão: São Paulo, 2016, p. 211-234.

WAIZBORT, R. . Dos Genes aos memes: a emergência do replicador cultural. In Episteme, n. 16, p. 23-44, 2003. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3411>. Acesso em: 8 jul. 2018.



domingo, 1 de julho de 2018

Entre a ficção e a realidade: uma análise das ações de engajamento de The Crown

Nem só de filmes, séries, reality shows e produções originais vive a Netflix. Desde o seu lançamento no Brasil, em 2011, o serviço de conteúdo on demand vem conquistando seus assinantes também nas redes sociais. O uso de plataformas como o Twitter, o Facebook e o Instagram é comum entre as empresas, porém, o que a Netflix faz é criar uma persona diferente para cada produção original. Isto é, cada programa lançado pelo serviço apresenta, nas redes sociais, características distintas. 


Diante de todas as inovações tecnológicas, a Netflix vem avançando e surpreendendo toda sua teia de clientes, desbravando sistemas operacionais cada vez mais velozes e investindo em interatividade para que o canal de relacionamento, entre a empresa e seus clientes, seja claro e constante. (ANDRADE; PORTO, 2017, p.10)

Esse relacionamento mencionado por Andrade e Porto (2017) pode ser observado em diversas ações de engajamento promovidas pela Netflix. Como já discutido no MediaBox, em 2017 o serviço on demand lançou um jogo criado especialmente para a estreia da segunda temporada da série original Stranger Things . O conteúdo chamou a atenção dos telespectadores interagentes ao antecipar alguns arcos narrativos da trama.

Nas redes sociais, a empresa faz piadas, usa gírias e memes, comenta sobre assuntos do momento e ainda é engajada social e politicamente, o que gera maior identificação e permite um diálogo direto com seus assinantes.

Como, por exemplo, a resposta da Netflix a um comentário transfóbico, que rapidamente se espalhou na web.
 
Resposta da Netflix a comentário transfóbico em sua página no Facebook
 
Outra ação que gerou grande repercussão foi a resposta há uma publicação do deputado estadual Flavio Bolsonaro (PSL/RJ), que afirmava que a plataforma estaria interessada em produzir uma série sobre seu pai, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC).

A resposta há publicação do deputado levou a Netflix aos Trendings Topics do Twitter

Uma outra estratégia usada pela empresa para manter a interação com os telespectadores interagentes é o gerenciamento de perfis direcionados nas redes sociais. Isto é, específicos das produções originais da plataforma. Com postagens regulares e conteúdos televantes, essas páginas mantém a interação do público com suas séries e filmes preferidos durante o hiato entre o lançamento de conteúdos inéditos.

E a série mais cara da história da Netflix não é uma exceção. As ações de engajamento The Crown no Twitter, Youtube e Instagram, ampliam o universo ficcional da série e chamam a atenção até de quem não assiste a trama.

Conhecendo a Rainha


The Crown é uma série biográfica britânica produzida e exibida pela Netflix desde 2016. Em suas duas primeiras temporadas, a produção destina-se a contar detalhadamente a história dos primeiros anos de reinado de Elizabeth II, Rainha do Reino Unido.

Retratando histórias pouco conhecidas pelo público, a série exibe os dramas pessoais e familiares vividos por Elizabeth, que assumiu o trono aos 25 anos após o falecimento do pai, o Rei George VI.

Para garantir o tom documental e assegurar a veracidade da história contada, a trama mistura ficção e realidade a partir da exibição de vídeos dos acontecimentos reais durante o desdobramento de algumas cenas.

A série, que foi indicada a importantes prêmios como Emmy e BAFTA, não agradou apenas a crítica e os telespectadores. A própria Rainha Elizabeth elogiou e disse ter gostado da produção.

Uma nova forma de “ver”


A Netflix possui diversos cases de sucesso nas redes sociais. Isso porque sua equipe compreende o público e está sempre atenta ao que é comentado nas redes sociais, estabelecendo um diálogo constante e personalizado com os assinantes. Os conteúdos publicados nas rede sociais não só divulgam as tramas e aproximam o público do serviço, mas reforçam e ampliam o universo ficcional das séries.

Segundo Scolari (2011), a extensão das tramas é uma característica das narrativas ficcionais seriadas contemporâneas. Dessa forma, o consumo de uma série, por exemplo, vai além de assistir um episódio e envolve outros desdobramentos. Como pontua o autor,

As pessoas dizem, por exemplo, “eu vejo Lost” ou ‘eu vejo Big Brother’, mas esse ‘ver’ é, em muitos casos, radicalmente diferente do velho ‘ver’ televisivo. Hoje, ‘ver Lost’ ou ‘ver Big Brother’ inclui práticas como navegar na web, fazer download de capítulos de forma ilegal, consumir vídeos no YouTube ou discutir sobre o programa em uma rede social ou fórum. (SCOLARI, 2011, p.128)

Dessa forma, os episódios são apenas o ponto de partida para novos desdobramentos da história que podem ser explorados em distintas plataformas. Como, por exemplo, nas redes sociais. Essa questão pode ser observada nas ações de engajamento de The Crown, as postagens imbricam ficção e realidade tornando o universo ficcional ainda mais rico.

A “Coroa” no Twitter


A conta oficial da The Crown no Twitter possui 93,1 mil seguidores. Como a rede social permite postagens com apenas 280 caracteres, percebemos a utilização de vídeos e imagens que complementam as informações do texto. 



A rede social também publica memes trazendo humor para a trama. Os mais de 1.400 tweets postados no perfil abrangem novidades da próxima temporada, vídeos do elenco em momentos descontraídos, acontecimentos memoráveis de integrantes da Família Real, curiosidades históricas exibidas na série, entre outros.



Os tweets também imbricam questões do cotidiano com o universo ficcional de The Crown. Na captura acima, a publicação intitulada “Humor” (Mood em inglês) apresenta um gif com diversas reações da princesa Margaret (Vanessa Kirby).

Youtube: entre a ficção e a realidade


Por se tratar de uma história biográfica que narra acontecimentos pouco conhecidos, a série gera no telespectador uma certa curiosidade e o desejo de descobrir os limites entre o que é exibido em The Crown e o que realmente ocorreu na “vida real”. Antecipando essa vontade de buscar por mais informações, a Netflix usa o seu canal no Youtube para contar algumas histórias narradas durante a série e comprovar a veracidade dos acontecimentos. 


Vídeo mostra imagens verdadeiras e fictícias da visita de Jackie e John F. Kennedy ao Reino Unido em 1961.


O universo ficcional de The Crown no Instagram

O conteúdo publicado na conta de The Crown no Instagram segue o mesmo padrão de das postagens feitas no Twitter e no Youtube. Imagens e vídeos do elenco em premiações e momentos descontraídos se misturam a fotos comparativas entre a série e a realidade.

Publicação da série ‘Representação vs Realidade” no perfil do programa.

Publicação da série ‘Representação vs Realidade” no perfil do programa.



As ações de engajamento de The Crown nas redes sociais ressalta a expansão da narrativa por diversas plataformas. Segundo Jenkins (2008), ao trazer novas e exclusivas informações aos telespectadores, essas histórias rompem com o padrão linear tradicional (início, meio e fim).

Estamos descobrindo novas estruturas narrativas, que criam complexidades ao expandirem a extensão de possibilidades narrativas, em vez de seguirem com um único caminho, com começo, meio e fim. (JENKINS, 2008, p.165)

Nesse sentido, mesmo que a história esteja em hiato na Netflix os telespectadores interagentes podem acompanhar conteúdos inéditos das redes sociais, tornado o universo ficcional de The Crown mais denso e interativo.

Referências:

ANDRADE, Thiago da Silva; PORTO, Ed. Netflix e a Nova Televisão: tecnologia, inovação e a nova prática de consumo. Anais 40º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2017. Disponível em: <http://portalintercom.org.br/anais/nacional2017/resumos/R12-0015-1.pdf>. Acesso em: 1 jul. 2018.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.

SCOLARI, C. A construção de mundos possíveis se tornou um processo coletivo. In MATRIZes, v. 4, n. 2, p. 127-136, 2011. < https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/download/38296/41123>. Acesso em: 1 jul. 2018.

domingo, 24 de junho de 2018

O estereótipo do traficante no audiovisual: uma análise do documentário “Notícias de uma guerra particular”



“A polícia federal estima que hoje o comércio de drogas empregue 100 mil pessoas no Rio, ou seja, o mesmo número de funcionários da prefeitura da cidade. Nem todas essas pessoas moram na favela, no entanto, a repressão se concentra exclusivamente nos morros cariocas.” (Notícias de uma Guerra Particular, 1999)

Com a expansão e inserção do documentário no mercado cinematográfico, entre o final dos anos 90 e início do século XXI, mais filmes com a temática da violência urbana passaram a ser produzidos. Como o documentário Notícias de uma guerra particular (1999), dirigido por João Moreira Salles e Kátia Lund, com a colaboração de Walter Salles. Com entrevistas de Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus, e Carlos Gregório, fundador do Comando Vermelho, o documentário pretende mostrar como a repressão ao narcotráfico acontecia dentro das favelas, através de três importantes figuras que ocupam esse lugar: o morador, o traficante, e a polícia. Logo no início do documentário uma série de dados indica a relação da expansão do narcotráfico no Rio – que aconteceu na metade dos anos 80 – ao aumento do número de homicídios na cidade.

O primeiro personagem que nos é apresentado é um policial, que conta que sua vontade de seguir a profissão surgiu ainda criança. Ao ser questionado se gostaria de ter participado de uma guerra, ele responde: “Eu estou participando de uma guerra, acontece que eu estou voltando para a casa todo dia. É a única diferença.” Já o primeiro traficante é Fabrício, de apenas 16 anos, que se apresenta cantando um rap. Por último, mas igualmente importante nesse emblemático cenário, aparece a moradora Hilda, entregadora de jornal, que acorda todos os dias as 02h30 da manhã, e só dorme as 22h, após servir o jantar ao seu marido.

No decorrer do documentário diversas pessoas aparecem, mas um ponto a ser observado nesta análise é o número de traficantes e a pluralidade que há entre eles. 

O traficante

 

“Então, acho que o tráfico oferece também isso, oferece um respeito que ele não tem quando ele opta por ser um entregador de remédio em farmácia. À medida que ele abre o jornal e lê “na favela tal o jovem enfrentou a polícia, armado e com capuz”, isso alimenta nele esse orgulho, esse poder que ele acha que tem sobre uma sociedade que não reconhece o seu real valor.” (Notícias de uma guerra particular, 1999)
Ao longo de Notícias são mostrados traficantes já adultos e adolescentes, entre 13 e 16 anos, além de um assaltante de banco. O que chama atenção, é que assim como as outras figuras do documentário – moradores e policiais -, eles são mostrados como personagens individuais e não como um bloco de indivíduos estereotipados, que, em geral, como destacam CÓL e Simião (2015, p.07), são representados como pessoas com baixa capacidade intelectual, perversas, e únicas causadoras dos males que afetam esses espaços de repressão.

Como aponta Kellner (2001), na sociedade contemporânea a identidade é mediada cada vez mais pela mídia e suas imagens, que nos fornecem moldes e ideias para a modelagem da identidade pessoal. Além de fornecer o material que muitas pessoas constroem o senso de classe, etnia e raça, ajudando ainda a modelar a visão de valores profundos, como de mau e bom, certo e errado, moral e imoral, etc.

A representação do outro no audiovisual sempre foi marcada por diversos estereótipos. A própria favela é um lugar repleto de misticismos, que ora é representada de maneira romantizada, ao mostrar o sofrimento dos moradores, mas ressaltarem os quão batalhadores e felizes são; ora pelo exagero da miséria e violência, que servem como ponto de partida para situações de impotência e perplexidade (BENTES, 2007).

Outro ponto apresentado por Kelnner (2001, p.317), é que os espetáculos da mídia demonstram quem tem poder e quem não tem, além de quem pode ou não utilizar a violência. Durante o documentário, uma moradora fala sobre as mudanças que aconteceram na favela após a entrada do tráfico. Entre as diversas mudanças, a que mais chama atenção é a da repressão que jovens, envolvidos ou não com o tráfico sofrem ao serem abordados pela polícia:

“E aí, a gente fica junto deles, pra que eles não possam ficar 01 minuto sozinhos com o garoto, pra que não possa acontecer nada. No fim eles acabam descendo com o garoto e levando pra averiguação, pra ver se ele tem alguma coisa. Porque, às vezes, os policiais não sobem pra prender, sobem pra matar.” (Notícias de uma guerra particular, 1999)

Além de influenciar na identidade – ou falta dela – a cultura da mídia dita comportamentos, modas, nos mostrando o que cada classe social veste, como se porta e os bens que tem. Tornando o sucesso, expressão extremamente capitalista. Os traficantes mais novos apresentados em Notícias, 13 e 14 anos, contam que o dinheiro do tráfico os proporciona roupas e sapatos que não teriam em outra situação, e exaltam marcas como Cyclone, Nike e Rebook.

Não se pode esquecer, que o que quebra o estereótipo é a humanização do personagem, seja qual for ele.

Marcinho VP

 

“Eu sou um mito. Foi a imprensa que fez esse mito. Eu sou o monstro que vocês criaram.” (Marcinho VP aos jornalistas que acompanharam sua prisão.)
Márcio Amaro de Oliveira, o famoso traficante Marcinho VP, foi uma importante peça na produção do documentário Notícias de uma guerra particular. Na época das gravações, Marcinho era o “dono do morro” Dona Marta - além de foragido da polícia -, e o documentarista João Moreira Salles teve que se encontrar com o traficante em seu esconderijo, para conversar sobre as gravações. Dois anos antes, o morro da Dona Marta já havia sido cenário do videoclip de Michael Jackson They Don’t Care About Us, dirigido pelo famoso cineasta Spike Lee.

A relação de Marcinho VP e João Moreira Salles foi questionada várias vezes até judicialmente, após o então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, acusar João de ser um dos financiadores do tráfico de drogas no Rio. Porém, a relação que havia entre esses dois indivíduos tão diferentes socialmente, era de amizade, segundo João Moreira Salles. Além da proposta de ajudar Marcinho a sair do tráfico com uma mesada de mil dólares, João Moreira Salles presenteou Marcinho com livros de Machado de Assis e Camus, pedidos pelo traficante.

Além da relação de Marcinho VP com João Moreira Salles, a relação de Marcinho com o jornalista Caco Barcelos gerou o livro “Abusado: o dono do morro Dona Marta”, que ganhou o Prêmio Jabuti 2004, na categoria Reportagem e Biografia. Para os autores CÓL e Simião (2015, p.06) o objetivo é contar a história do chefe do tráfico do morro Dona Marta. Ainda segundo os autores, Caco, não buscou o senso comum na hora de contar a história:

Entretanto, ao invés de apenas buscar o senso comum e reforçar o estereótipo do traficante, que seria algo como vendedor de droga e assassino, Barcellos descreve a criação de Marcinho na favela, os envolvimentos amorosos, ascensão dele como um importante criminoso no local onde vivia, além de outras informações. (CÓL et SIMIÃO, 2015, p.06)

Nessa perspectiva, devemos mais uma vez ressaltar a importância da humanização dos personagens como ressalta Lima (2009, p.359)

“Toda boa narrativa real só se justifica se nela encontramos protagonistas e personagens humanos tratados com o devido cuidado, com a extensão necessária e com a lucidez equilibrada onde nem os endeusamos e nem os vilipendiamos. Queremos antes de tudo descobrir o nosso semelhante em sua dimensão real, com suas virtudes e fraquezas, grandezas e limitações.”

No livro, Caco ainda fala de encontros que Marcinho mantinha com intelectuais e artistas, como João Moreira Salles e Marcelo Yuca, ex-baterista da banda O Rappa, para debater ideias, e, quem sabe, encontrar caminhos diferentes para a própria vida. Marcinho ainda dialogava com lideranças do morro, ouvia queixas dos moradores e mantinha uma relação próxima com os idosos e crianças, além disso, frequentava cultos de diversas religiões, e era grande fã do argentino Che Guevara.

Marcinho VP foi encontrado morto na tarde do dia 28 de julho de 2003, dentro de uma lixeira do presídio Doutor Serrano Neves, o Bangu 3, junto com seus livros.

Referências:

BENTES, Ivana. Sertões e favelas no cinema contemporâneo: estética e cosmética da fome. In Revista Alceu, v.8, n.15, p.242-255, 2007 Disponível em: <http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/alceu_n15_bentes.pdf>. Acesso em: 21 jun. 2018

KELNNER, Douglas. A cultura da mídia - estudos culturais: identidades e política entre o moderno e o pós moderno. Bauru: Edusc, 2001.

LIMA, Edvaldo Pereira de. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo literário e da literatura. Barueri: Malone, 2009.

SIMIÃO, João Victor da Silva; CÓL, Ana Flávia. A quebra do estereótipo do criminoso em “Abusado: o dono do Morro Dona Marta”. In Intercom, XVI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul , Joinville, 2015. Disponível em: < www.portalintercom.org.br/anais/sul2015/resumos/R45-1060-1.pdf>. Acesso em: 21 jun. 2018



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