A vulnerabilidade de Bojack Horseman como motor cômico

Por: Gabriel Thomaz, Gabrielly Silva, Giovanna Janine, Igor Garcêz, Laysa Roberta, Maria Clara Barbosa, Maria Clara Simões, Yuri Nascimento 

Bojack Horseman (2014-2020) é uma série de animação adulta criada por Raphael Bob-Waksberg, contendo 6 temporadas que podem ser encontradas na Netflix. Misturando comédia ácida com drama profundo, a trama nos introduz a Hollywoo, um mundo onde animais antropomórficos e humanos convivem lado a lado. Acompanhamos o protagonista, Bojack Horseman, um cavalo de meia-idade, astro decadente que foi estrela de uma sitcom de sucesso dos anos 1990, chamada Horsin’ Around. No tempo presente da série, o protagonista deseja voltar à relevância.

Para isso, ele precisa escrever uma autobiografia, o que ele relutantemente faz com a ajuda de uma ghost writer, enquanto enfrenta seus vícios, crises existenciais, depressão, relacionamentos complicados e a superficialidade da vida de celebridades. Toda a primeira temporada nos envolve na trama da autobiografia de Bojack, na qual ele precisa enfrentar seus demônios. O livro dá indícios de ter um impacto importante na história. 

Bojack Horseman se difere de uma animação adulta comum de comédia ao explorar temas psicológicos e agridoces das personagens. A comédia no início possui intermissões de flashbacks e piadas curtas que aos poucos a série desconstrói, melhorando o pacing das piadas e se apoiando em uma narrativa crua do protagonista e aqueles à sua volta. 

Na construção de mundo, a suspensão de descrença é muito bem efetivada, apesar da possibilidade de um estranhamento inicial da mistura entre personagens antropomórficos e humanos no casting, onde eles engajam em todo o tipo de relação, qualquer resquício de estranhamento logo some quando conhecemos o universo. Animais e humanos são os mesmos, mesmo que com eventuais piadas sobre alguma característica da espécie, apenas os enxergamos como pessoas e conseguimos mergulhar no universo de Bojack Horseman completamente. A primeira temporada da série passa metade de seus episódios apresentando os cinco personagens principais para a trama e os engajando com a audiência: Bojack, Todd, Princess Carolyn, Mr. Peanutbutter e Diane. 

Bojack, apesar de ser um personagem desagradável, não deixa de ser interessante. Ele nos cativa ao expressar suas falhas em momentos de vulnerabilidade nos quais a série assume um tom mais dramático. A relação entre seu passado traumático e quem ele se tornou, e a forma que empatizamos com seus arrependimentos e auto sabotagem causam uma relação de fascínio e reconhecimento com o público. 

O questionamento que nos mantém assistindo é o próprio arco imprevisível do personagem: “ele vai melhorar como pessoa?”. Assim, a série testa os limites da empatia. As ações de Bojack são prelúdios para alterações permanentes nas relações com o resto do casting e sua relação de percepção de si mesmo. 

Todos os demais personagens são afetados pelas ações do protagonista. Além disso, todos têm camadas de traços conflitantes que os tornam humanos e identificáveis. Já nos primeiros episódios, aparecem a construção de futuras problemáticas dos arcos, como a atração de Bojack por Diane (sua ghost writer, com quem desenvolve uma amizade)  com uma busca romântica que toma boa parte da primeira temporada; A relação desequilibrada com Todd; O espelho que tem com o Mr. Peanutbutter (um colega de trabalho com trajetória similar, mas otimista) e a divertida dinâmica de agente e agenciado que tem com a Princess Carolyn, com quem também tem uma relação afetiva. 

O personagem Todd é o alívio cômico, especialmente no início, impulsionando boa parte das loucuras das subtramas nos episódios. O piloto estabelece um tipo de loucura crível do que ele pode fazer. Todd serve dramaticamente para contrastar com Bojack, que é um personagem amargo e egocêntrico. Os dois se balanceiam em uma dinâmica clássica e divertida, porém com diferença de poder (um tema recorrente em todas as relações do Bojack). 



Pautas políticas voltadas para o universo paralelo à indústria de Hollywood também são abordadas, além de outros aspectos políticos que surgem através das personagens femininas. Por exemplo, Princess Carolyn enfrenta em seu trabalho como agente uma disputa de poder entre papéis de gênero. Diane também possui questões com sua origem vietnamita, que é pincelada na primeira temporada.

Enfim, nada em Bojack Horseman acontece por acaso. Os eventos da série sempre são retomados posteriormente: o próprio sinal de Hollywood que se torna “Hollywoo” devido um ato exasperado de Bojack é um exemplo disso. Apesar das subtramas dos outros personagens, a relação com o protagonista assume papel de grande importância e proporciona mudanças na vida de todos.


Os fundamentos da empatia

O piloto de Bojack Horseman, em sua tecnicidade, segue os princípios clássicos de uma estrutura de roteiro: a catarse de Aristóteles (2017), em sua “Arte Poética”, e a ideia de empatia elaborada por Karl Iglesias (2005), em “Escrevendo Para um Impacto Emocional”. Enquanto Aristóteles estabelece os pilares estruturais da narrativa, Iglesias puxa seu foco para os mecanismos pelos quais a história mobiliza o envolvimento afetivo. A combinação dessas duas ideias ajuda a compreensão do piloto como texto ficcional e emocional. 

Ao definir a essência da tragédia, Aristóteles afirma que ela é “a imitação de uma ação importante e completa [...] apresentada por atores e destinada a suscitar compaixão e terror, obtendo a purgação dessas emoções” (Aristóteles, 2017, p. 8). No caso do seriado, a estrutura do piloto se aproxima desse modelo aristotélico ao apresentar momentos de humor e ironia que despertam riso e desconforto, mesclando a “ação grave”, que “destrói a alma”, própria do trágico, com o caráter cômico.

Karl Iglesias (2005) discorre acerca das diversas formas de criação de identificação e/ou empatia do público perante ao protagonista. Dentre elas, a que mais se conecta com a abordagem em Bojack Horseman são os modos de fazer com que situações trágicas e melancólicas façam de personagens, amargos como Bojack, se tornem em um chocolate suíço. Transformar falha em virtude:

A empatia é estabelecida quando você retrata seu personagem em um momento de fraqueza, como quando toda a esperança se foi, ele atingiu o fundo do poço, está mais vulnerável, e você mostra seu sofrimento. Isso inclui um personagem demonstrando dor, luto, dúvidas sobre si mesmo, inseguranças e medos (Iglesias, 2005, p. 69, tradução nossa).

Vemos a aplicação dessa técnica no diálogo entre Bojack e Diane, na sacada da casa do protagonista. Ele desabafa sobre seu desapontamento consigo mesmo e sobre a sensação de fracasso, sentimentos comuns no nosso mundo real, o que nos faz olhar de uma forma mais carinhosa e empática para Bojack.

Apesar das diferenças temporais e conceituais, as ideias de Aristóteles e Iglesias se encontram no conceito de que a narrativa eficaz depende da capacidade de conduzir o espectador por uma trajetória emocional. Essa condução ocorre através da progressão dos eventos trágicos em direção à catarse, que no episódio é visto pela comédia, e pelo desenho emocional que organiza o potencial de gerar impacto em cada beat narrativo. Ou seja, a emoção não é um efeito acidental, é parte do que constrói o funcionamento da história. 

Em Bojack Horseman, essas duas perspectivas aparecem como elementos clássicos e contemporâneos que coexistem no piloto. O episódio se estrutura a partir de um conflito central, sendo a incapacidade do BoJack em escrever sua autobiografia, que organiza todas as ações em torno de um eixo temático, isso tudo podendo ser visto como o princípio aristotélico da “unidade de ação”. 

Ao mesmo tempo, o roteiro investe fortemente na vulnerabilidade emocional do protagonista. O fato de ele não conseguir lidar com a própria decadência, exibindo momentos de fraqueza, funcionam como motores para o sentimento de empatia por parte do público, exatamente como descreve Iglesias. O humor irônico e o fracasso recorrente são dispositivos dramáticos que alinham espectador e protagonista em uma relação de riso e compaixão.

O Piloto 

Estruturada no formato de sitcom, a série Bojack Horseman consegue construir desde o início um bom entendimento do universo em que se passa. A apresentação de Hollywoo, uma versão alternativa de Hollywood onde vivem em conjunto seres humanos e animais antropomórficos já dita o clima ácido e absurdo da obra, bem como serve de cenário alicerce para o desenvolvimento do seu personagem principal, um astro decadente e apegado ao passado (fator reiterado diversas vezes com a insistência de Bojack em assistir Horsin’ Around repetidamente). 

O protagonista amargo e suas relações complexas com os outros personagens apresentados são a base de intenção da série, especialmente por meio de diálogos, que se utiliza da ironia e do sarcasmo para construir e introduzir temas mais difíceis como depressão, alcoolismo e melancolia. Ademais, a biografia, que Bojack nunca escreve, revela traços de sua personalidade autossabotadora e persuasiva, à medida em que continua convencendo todos ao seu redor para que a realize de sua própria forma. No entanto, quando Diane o convence a ser sua ghost writer, há uma pequena sugestão de que o protagonista lida com uma realidade mais insegura e melancólica do que geralmente demonstra. O piloto prepara o espectador com a comédia para a chegada do grande momento dramático, de modo que ele atinja com intensidade, mas finaliza com uma quebra sentida, deixando a complexidade do sofrimento ainda presente ser engolida pelo humor trágico.

A proposta de animação como recurso é fator vital para a atmosfera da série, agregando componentes indispensáveis à narrativa. Além de possibilitar ações complexas, infinitas e impossíveis de serem realizadas no mundo real, a construção ácida e inescrupulosa desses personagens torna-se muito mais tragável. Mesmo cometendo ações extremamente duvidosas, compramos suas dores, nos divertimos e torcemos pelos personagens. 

É difícil imaginar um feito com tais proporções ser aceito tão bem se realizado em live action. Executada em um estilo de animação 2D, a utilização das cores dão abertura para interpretações, como no apartamento de Bojack, onde os tons de bege e cinza podem corroborar com o entendimento de desânimo do personagem. Já fora de seu apartamento, onde o astro não tem controle, tudo é mais colorido. Com um ritmo mais devagar para não apressar a história, se baseando apenas em planos médios, gerais, close-ups e poucos movimentos de câmera, a montagem vai além do arroz com feijão. Engana o espectador quando Bojack passa mal e vai para o hospital, brinca com os planos e cortes ajudando na intensidade da comédia e nos diálogos, que em nenhum momento parecem forçados. Os flashbacks também são recursos bem utilizados no episódio, dando dinâmica à história, que nem sempre é contada de forma linear. Esses elementos também auxiliam a compreensão de tramas paralelas, como a de Todd com um cartel de drogas mexicano. 

O piloto de Bojack Horseman dita bem o ritmo, gênero e estrutura narrativa que persiste pelo resto da série, ainda que nas temporadas seguintes haja uma quebra de expectativa e aprofundamento dos personagens. Por exemplo, há um episódio inteiro no oceano, sem diálogos, mas que serve para entendermos perfeitamente o psicológico de Bojack nesse momento do arco. Mesmo assim, a acidez e crueza do protagonista aliada aos tópicos delicados abordados (como depressão, abuso e vício) sempre têm seu momento para brilhar, ainda que balanceados do melhor modo com a comédia autodepreciativa típica dessa animação. O piloto ainda estabelece as relações dos cinco personagens principais, mesmo que superficialmente – Todd é o melhor amigo e alívio cômico com aventuras inesperadas à parte; Princess Carolyn têm o trabalho duplo de ser agente e ex-namorada de Bojack; Mr. Peanutbutter traça paralelos sobre ser um astro decadente, mas bem-humorado; e Diane é a ghost writer de Bojack e passará a ser a única pessoa que ele acha que o entende. 

O episódio inteiro caminha para que o público fique engajado e curioso para acompanhar a jornada de  Bojack, mas sem esticar desnecessariamente a trama a ponto de ficar tedioso. Esse fator é importante pois, diferente de muitos sitcoms, Bojack Horseman opta pela utilização do Regime “Quase Saga”, de modo que é necessário assistir aos próximos episódios para saber como vão se desenrolar alguns conflitos.

Scott Sedita (2006) afirma na introdução de seu livro “Os Oito Personagens da Comédia - Um Guia para Atuação e Escrita de Sitcom”: 

‘Morrer é fácil. Comédia é difícil.’ Provérbio antigo, mas muito real. Mas a verdadeira pergunta é, você é engraçado? Você pode ser engraçado? Você consegue fazer comédia de trinta minutos? Você tem o que é preciso para criar um personagem, seguir a fórmula da comédia de trinta minutos e fazer diretores de elenco, roteiristas, diretores, produtores e público rir e te amar? Nem todo mundo consegue. Por quê? Porque essa coisa chamada comédia é muito mais difícil do que parece (Sedita, 2006, p. 8).

Apesar do difícil trabalho de criar toda uma história ao redor de um gênero já desgastado há anos, Bojack Horseman é fenomenal em trazer todos os estereótipos imaginados em Horsin’ Around, a série dentro da série. Com uma construção de mundo que mistura elementos tão fantasiosos, como animais antropomórficos, com a realidade da vida e tragédia de artistas, famosos e pessoas comuns, Bojack Horseman consegue unir a catarse de Aristóteles, escrita para o teatro grego séculos atrás, com a empatia do contemporâneo consultor de roteiros audiovisuais Karl Iglesias, construindo um protagonista desprezível, mas impossível de não querer ver mais.


Referências 

IGLESIAS, Karl. Writing for emotional impact: advanced dramatic techniques to attract, engage, and fascinate the reader from beginning to end. Livermore, CA: WingSpan Press, 2005.

ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Souza. São Paulo: Editora 34, 2017.

OBSERVATÓRIO DO AUDIOVISUAL. Qualidade e ficção seriada: uma análise. MediaBox, 2024. Disponível em: http://mediabox.observatoriodoaudiovisual.com.br/2024/07/qualidade-e-ficcao-seriada-uma-analise.html. Acesso em: 16 abr. 2026.

SEDITA, Scott. Os oito personagens da comédia: um guia para atuação e escrita de sitcom. Tradução de Daniela Benedetti. São Paulo: Summus, 2011                       

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