Já notou que os videoclipes estão cada vez mais cinematográficos?


Atualmente, podemos notar que diversos artistas têm investido cada vez mais em produtos audiovisuais. Seja em videoclipes extremamente bem produzidos, ou em álbuns visuais, como bem fez Beyoncé em Lemonade. É notável que esta iniciativa parte também da gravadora destes artistas, visto que, seguindo uma lógica mercadológica, quanto melhor o produto (mais comercial também) e mais trabalhado ele é, maior será a sua veiculação nos pequenos e grandes veículos de comunicação. É interessante ressaltar que estes pontos não são exclusividade dos americanos, é possível ver cada vez mais brasileiros realizando obras incríveis, mesmo com todas as limitações que um artista tem no país.

A pandemia tem um peso que deve ser considerado nesta situação, pois diversos profissionais do cinema precisaram migrar para outras áreas de trabalho por conta de tudo que veio acontecendo em decorrência do vírus. Roteiristas, produtores, maquiadores, diretores criativos, bem como diversos profissionais, se viram de mãos atadas quando o isolamento social foi instituído ao redor do mundo.

Mas, será que o videoclipe sempre teve um viés cinematográfico ou somos nós que só estamos percebendo isso agora?

É inegável que o featuring entre diretores de cinema e cantores sempre existiu. Muitos buscaram romper determinadas barreiras ao convidarem famosos diretores de cinema para a direção de seu videoclipe. Em 1990, Madonna, por exemplo, convidou ninguém mais, ninguém menos, que David Fincher para dirigir um de seus clipes mais emblemáticos, “Vogue”. Nele, Fincher e Madonna contribuíram para que o vogue (tipo de dança) saísse dos subúrbios nova-iorquinos e atingisse o mainstream. Este foi um passo importantíssimo para toda a comunidade LGBTQIA+ que, na época, se encontrava marginalizada e com dificuldades de estourar a bolha para adentrar a grande massa.

Além de “Vogue”, Fincher dirigiu "Oh Father", "Bad Girl" e "Express Yourself", este último inspirado em um filme clássico do expressionismo alemão.


Além da rainha do pop, o rei do pop, Michael Jackson, também teve alguns trabalhos com cineastas. Em 1987, Michael lança seu primeiro curta-metragem pelas mãos de Martin Scorsese. Com aproximadamente 18 minutos de duração, o curta custou cerca de 2 milhões de dólares e foi um projeto pensado para iniciar a divulgação do disco “Bad” do cantor.

Na época, Scorsese já era renomado no cinema, pois já havia sido indicado ao Oscar e Globo de Ouro. E, além disso, o trabalho realizado em “Bad” foi inspirado em “Amor, Sublime Amor”, musical vencedor de diversos prêmios Oscar.

Scorsese e Michael durante as gravações de “Bad”.


Na década de 80, com o surgimento da MTV, é fato que muitos artistas acabaram precisando elevar alguns níveis em seu trabalho. Pois, ela foi um dos principais veículos de divulgação de novos artistas e novos videoclipes, principalmente. Portanto, a lógica é um pouco clara, se o seu videoclipe não possuísse uma música e imagens interessantes e coesas, o seu projeto não será bem recebido pelo público, que, na época, estava sedento por novidades do mundo pop.

O canal da MTV é o primeiro a apostar, em 1981, no clipe contínuo, 24 horas por dia. Em 1983, Thriller de Michael Jackson dirigido pelo cineasta John Landis, traz ao gênero uma causa artística e cinéfila, ao se inspirar ostensivamente em A noite dos vivos mortos (1968) e outros filmes de terror de George Romero. A seguir, Beat it, outro clipe de Michael Jackson, se inspira diretamente em West Side Story – Amor sublime amor (Robert Wise, 1961) (LIPOVETSKY, 2009, p. 276)

Qual o papel dos serviços de streaming nessa discussão?

Com toda a evolução tecnológica nos últimos anos, o streaming se tornou um grande aliado de diversos artistas. Spotify, Deezer, Apple Music, entre diversos outros, são alguns exemplos de serviços de streaming de música que servem para ouvir determinado conteúdo. Hoje em dia, alguns artistas possuem bilhões de reproduções em apenas um único trabalho, como é o caso de Olivia Rodrigo recentemente com seu álbum de estreia “Sour”.


Com o Tik Tok, a tendência é que estes números aumentem cada vez mais, pois a plataforma preza por conteúdos rápidos e dinâmicos. Isto vem fazendo com que diversos artistas repensem a forma de divulgação de seu trabalho, como foi o caso de Luísa Sonza recentemente. A cantora lançou o seu último trabalho intitulado “Doce 22”, porém, algumas faixas estão bloqueadas nos streamings: Café da Manhã, Anaconda e Fugitivos. Segundo Luísa e sua equipe, as faixas serão lançadas em breve e este posicionamento se deu devido ao fato das músicas estarem mais descartáveis atualmente. Isto acontece por conta de aplicativos como o próprio Tik Tok, já que o fluxo de informação é tão grande e recorrente, que faz com que as músicas acabem se tornando menos consumidas de fato, pois são apenas “ouvidas”.

Outro ponto a ser levado em consideração, é que diversos diretores possuem a possibilidade de experimentar com artistas distintos. Como foi o caso do brasileiro Felipe Sassi ao criar uma narrativa intertextual entre videoclipes de Glória Groove, Lia Clark, Iza e Wanessa. A teia narrativa de todos os trabalhos se conectam e o diretor soube criar cenas dignas de filmes.


Todos estes fatores somados, geram videoclipes com produções cinematográficas e alto custo para sua realização. Pois, se os streamings estão contribuindo para o crescimento de diversos artistas e, consequentemente, movimentando dinheiro, fica o questionamento: Por que não investir mais nestes produtos e torná-los cada vez “dignos de um Oscar”?

Quais artistas estão surfando nesta nova onda e produzindo clipes impecáveis?

O cantor Lil Nas X, que ficou mundialmente conhecido por seu hit “Old Town Road”, retornou recentemente com seu novo trabalho intitulado “MONTERO (Call Me By Your Name)” e trouxe uma série de efeitos visuais em seu videoclipe. Abertamente homossexual, X decidiu romper todas as amarras (se é que elas existiam) e mostrar para o mundo para que veio. Atingindo o primeiro lugar em diversas paradas, incluindo a americana, Billboard Hot 100, o cantor iniciou sua nova era com o pé direito e pronto para se estabelecer como um grande nome na música.


Além dele, a cantora Doja Cat veio se tornando uma das queridinhas do momento. Com seu novo álbum “Planet Her”, ela trouxe uma história amarrada do início ao fim e isso fez com que ela continuasse se firmando na indústria como uma artista para manter os olhos. Com seus números crescendo cada vez mais nos streamings e, consequentemente, suas músicas se tornando mais populares, Doja já foi reconhecida por diversos outros artistas e é definitivamente uma das artistas que ainda ouviremos muito falar.


Com estes pontos levantados, fica mais fácil compreender o teor hollywoodiano nas produções de videoclipes atualmente. Seja para surpreender ou para vender, está funcionando e a tendência é que estes produtos se tornem cada vez mais elaborados e disruptivos. Portanto, se você se interessa por música, é melhor ficar antenado nas referências de seu artista preferido e começar a pesquisar para não perder nenhuma informação daquele produto. Assim, o videoclipe será interpretado como uma obra audiovisual de fato e, com as demais músicas com clipe do disco, você vai compreender toda a história e mensagem que o artista quis transmitir com esse trabalho.

Referências

HOLZBACH, Ariane. A invenção do videoclipe: a história por trás da consolidação de um gênero audiovisual. APPRIS, 2016.

METROPOLES. Saiba por que Doce 22, disco de Luísa Sonza, veio com faixas faltando. METROPOLES, 2021, Online. Disponível em: https://www.metropoles.com/entretenimento/musica/saiba-por-que-doce-22-disco-de-luisa-sonza-veio-com-faixas-faltando . Acesso em 10 ago. 2021.

OLIVA, Rodrigo. Onde o Videoclipe Encontra o Cinematográfico: Um Olhar Pelo Viés da História. INTERCOM, 2013. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/sudeste2013/resumos/R38-0169-1.pdf . Acesso em: 07 ago. 2021.POPLINE. Por que os clipes americanos estão cada vez mais cinematográficos?. POPLINE, 2021, Online. Disponível em: https://portalpopline.com.br/por-que-os-clipes-americanos-estao-cada-vez-mais-cinematograficos/ . Acesso em: 08 ago. 2021.



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