Vida Ainda Mais Moderna de Rocko

Os anos 90 voltaram com tudo nos últimos anos. Moda, música, fotografia, e claro, audiovisual. Além das constantes fases de nostalgia por parte de crianças que cresceram na última década do século passado, a tendência noventista conquistou, também, a nova geração. Os reboots e revivals de programas televisivos se tornaram tão populares que pessoas de todas as idades se encantam — e reencantam — com produções que já acabaram há muito tempo. Aqui é explicado mais detalhadamente o que são essas retomadas audiovisuais.

Há uma lista extensa de séries que voltaram ao topo depois de quase 20 anos de suas primeiras exibições. E isso inclui os desenhos animados.

Responsável por marcar toda uma geração com animações icônicas, a Nickelodeon se aproveitou da onda nostálgica para trazer de volta alguns de seus maiores shows: Rugrats: Os Anjinhos, Ei, Arnold!, Invasor Zim e A Vida Moderna de Rocko.


É muito fácil distinguir uma série live action de seus reboots. Humanos envelhecem. Então… O que faz a volta dos desenhos animados ser tão popular? E o que podemos aprender com elas?

Criada por Joe Murray, A Vida Moderna de Rocko foi uma das séries de mais sucesso entre crianças e adolescentes no início da década de 1990. Junto com Rugrats, Doug e Ren e Stimpy, o desenho foi responsável por emplacar a Era dos Nicktoons na emissora infantil mais assistida da época. Como já diz o nome, a história gira em torno de Rocko e seus amigos em situações que, para os anos de exibição, eram tão próximas da realidade quanto as sitcoms populares. Apesar de representar animais como personagens, Rocko faz uma sátira de como era a vida estadunidense para a classe média, com piadas e easter eggs mais maduros que o próprio público do desenho.


O reboot

Em 2016 foi anunciado que a Netflix, em parceria com a Nickelodeon, faria um filme de A Vida Moderna de Rocko, retomando o último episódio da série. É importante mencionar que, naquela época, a Nickelodeon proibia seus desenhos de terem um final explícito. Então, quando no último episódio, Rocko, seu cachorro Spunky, Vacão e Felisberto acidentalmente são levados para o espaço sideral, antes que pudéssemos entender o que aconteceria com eles, o desenho acaba.

A notícia do novo filme preocupou alguns fãs. Afinal, a ideia era trazer o grupo de amigos de volta à Terra em tempo real, ou seja, 20 anos após terem deixado o planeta, e assim, deixando de lado uma de suas maiores características: a ambientação dos anos 90. Pode-se dizer que, para a maioria dos antigos e novos fãs do pequeno canguru, a produção foi uma boa surpresa. Murray e a Netflix conseguiram não só homenagear as quatro temporadas do desenho, mas, também, apresentar Rocko a uma nova realidade — com o humor ácido e crítico de sempre.


A crítica ao capitalismo

Como a maioria dos desenhos animados, grande parte do humor vem de situações inesperadas e até surrealistas. No caso de A Vida Moderna de Rocko, essas situações acontecem enquanto os personagens tentam se encaixar na vida em sociedade, seja através de novos grupos de pessoas, formas comuns de lazer ou, mais frequentemente, o trabalho. A crítica ao capitalismo é tão palpável que se tornou um dos maiores aspectos positivos do desenho.

Golding (2019), em sua tese de PhD, relaciona o fetichismo de mercadoria, no conceito de Marx, com a vida dos personagens de Rocko. Para o autor, a série dos anos 90 é um exemplo da supervalorização do trabalho e da alienação causada por ele.

 

A Vida Moderna de Rocko era, talvez, ainda mais presciente dos altos e baixos do capitalismo, pois desde o início, em 1993, [o desenho] evitava a normalização das tendências do realismo social em favor do realismo mágico, no qual a alienação do trabalho e a fetichização da mercadoria operam através dos espíritos que povoam o cotidiano. Ao retratar bens de consumo como atores sociopolíticos, A Vida Moderna de Rocko explora a noção da "cidadania do consumidor" que a Nickelodeon havia adotado, no qual o público participa da cultura política através dos consumos diários. (GOLDING, 2019, p. 53)

Ainda de acordo com Golding, o realismo mágico retratado no desenho é responsável por estabelecer uma relação entre o capitalismo e o animismo que resulta em uma alienação causada pelo fetichismo de mercadoria. Isso se dá pelo fato de vários episódios acontecerem com foco no espaço de trabalho, no cansaço causado pelo trabalho e, mais evidentemente, pela dependência dos personagens no ciclo de trabalho e consumo. Embora não seja o ponto principal da nossa atual comparação, é interessante mostrar como os conceitos estudados por Golding nos episódios da série reaparecem mesmo tantos anos depois.

A Vida Moderna de Rocko: Volta Ao Lar resgata a essência da animação original sem se perder no tempo, fazendo jus à modernidade que propõe. Ao voltar para casa, Rocko se mostra um personagem que não gosta de mudanças. Mesmo após experimentar as novas tecnologias, Rocko, ao contrário de seus amigos, não está nada satisfeito com o constante lançamento de novos aparelhos celulares, com a quantidade de fast-foods e com a rápida movimentação da cidade de O-Town. Sua antiga função no emprego, em uma loja de HQ's, foi substituída por máquinas. E, para piorar, seu desenho preferido já não está no ar há tempos.

À primeira vista, a crítica ao novo modo de vida — e consequentemente aos avanços do capitalismo — parece ser o ponto principal do reboot. Com o personagem principal cansado de tantas novidades, a impressão de metalinguagem é inevitável. A empresa Conglomerado, responsável pela economia da cidade fictícia, agora está à beira de um colapso com o regresso de Rocko, Vacão e Felisberto. Mas vamos recapitular…


EU NÃO TENHO FILHO!

Ed e Bev Cabeção são os vizinhos de Rocko, protagonistas de vários dos melhores episódios do desenho. Sr. Cabeção não gosta do vizinho canguru e suas implicâncias sempre resultam em situações cômicas e imprevisíveis. Um dos episódios mais famosos é o primeiro da segunda temporada, "Eu Não Tenho Filho". O episódio duplo apresenta Os Cabeçudos, desenho preferido de Rocko que possui muitas similaridades com os Cabeções. Rocko, então, descobre que a série foi criada por Ralph Cabeção, filho de Ed e Bev, de quem sequer sabia da existência. Ralph não tinha uma boa relação com o pai por ter trocado trabalhar na empresa Conglomerado, junto a ele, por virar um animador em Holl-O-Wood. Rocko tenta trazer Ralph para casa a pedido de Sra. Cabeção, que sonha em ver a família reunida. Mesmo mostrando um lado negativo dos pais em sua animação, Ralph é perdoado e consegue perdoar Sr. Cabeção pela falta de compreensão com seu sonho.

Em Volta Ao Lar, a empresa Conglomerado, da qual grande parte da cidade depende financeiramente, começa a falir por conta de um erro de Ed Cabeção. Rocko, ainda sem aceitar o fim de seu desenho preferido, busca uma maneira de salvar a cidade e ter de volta a única coisa que o fazia se sentir em casa em meio a tantas mudanças: uma animação dos Cabeçudos feita por Ralph para salvar a empresa. Porém, ele é notificado de que Ralph está viajando o mundo em busca de si mesmo.


A representatividade

Voltando à metalinguagem, sua ocorrência, agora, é inegável. O filme constantemente brinca com a ideia de trazer de volta uma década que não existe mais e somos lembrados o tempo todo o quanto as mudanças são necessárias para o crescimento dos personagens. Além disso, Rocko é o único que não consegue se readaptar ao que chamava de lar e, relutante à ideia do fim, encara o desafio de ir atrás de Ralph.

O que havíamos estabelecido do filme, até então, é contestado pela própria trama, mostrando que, além das críticas ao mundo real, A Vida Moderna de Rocko consegue quebrar uma barreira que transpassa a questão de tempo. Enquanto o telespectador acompanha uma história cujo desfecho aparenta ser sobre busca de um tempo perdido, o filme introduz uma personagem trans de forma inédita em um desenho animado ainda considerado infantil.

Embora a representatividade LGBT esteja aumentando gradualmente em programas infantis — Steven Universe, Hora de Aventura, The Loud House, etc —, a representação da letra T é, ainda, praticamente nula. Lopes e John (2016) discorrem sobre a falta de representatividade dos corpos trans no audiovisual.

Os conteúdos midiáticos, especialmente os audiovisuais, são espaços privilegiados de circulação de identidades, de construção, reforço e/ou problematização de representações ligadas aos corpos. No que se refere aos corpos trans, essas representações são ainda escassas e, muitas vezes, reforçadoras dos padrões binários e de estereótipos.A invisibilidade também é uma forma de representação e no caso das identidades trans, sua presença nos conteúdos audiovisuais é ainda bastante escassa. (LOPES; JOHN, 2016. p. 5)

Os autores complementam que o processo da naturalização ocorre por meio da família, da escola, da religião e, sobretudo, da mídia, que constitui "uma importante mediação na construção dos papéis e representações das identidades de gênero'' (SILVA e JOHN, 2016. p. 15).

Com isso, entendemos a responsabilidade do audiovisual em retratar todas as formas, gêneros e identidades, principalmente quando é direcionado ao público infantil.

De volta à vida moderna de Rocko, em 1996, Joe Murray produz o episódio "Closet Clown", que é uma analogia a "sair do armário". Murray explicita, posteriormente, sua vontade de fazer um episódio sobre homossexualidade de forma direta, mas sabemos como eram os anos 90 em emissoras infantis. Quando dada a oportunidade de mostrar a evolução social e midiática, já em 2019, o criador do desenho não hesita em representar um dos grupos mais ignorados pela mídia.

Rocko nunca encontra Ralph, e sim, Rachel. E sua reação natural de aceitação para um personagem que descobrimos odiar mudanças é a prova de que o filme usa suas próprias incoerências para mostrar ao público que a mudança não é somente inerente à vida, e sim a única resposta para a evolução. A inserção da personagem trans é o momento alto do filme e o motivo de ter sido um dos reboots com melhor aceitação do público antigo.


Então…

A Vida Moderna de Rocko: Volta Ao Lar, a princípio, parece mais uma forma de criticar o capitalismo e o vício de trabalho da "cultura" estadunidense. O fato do personagem principal ter tanta dificuldade em aceitar o fim dos anos 90 nos faz acreditar que o filme é uma sátira aos diversos resgates à década que, por pouco, não acabou. Em vez disso, somos surpreendidos pela forma que o desenho supera uma época em que a televisão infantil era tão censurada.

Com referências aos episódios da série durante todo o filme, A Vida Moderna de Rocko se mantém fiel aos fãs. A forma como a essência do desenho é mantida e, ao mesmo tempo, tão imersa em questões sociais atuais responde às perguntas iniciais. A popularidade dos reboots de desenhos animados continua crescendo, pois o público também envelhece. E é sempre interessante ver suas referências crescerem junto.

Referências

GOLDING, D. “Rocko’s Magic Capitalism: Commodity Fetishism in the Magical Realism of Rocko’s Modern Life”. Animation, v. 14, n. 1, p. 52–67, 2019. https://doi.org/10.1177/1746847719831365.


LOPES, A; JOHN, V. “Visibilidade e Representação De Corpos Abjetos No Audiovisual: as Mulheres Trans Na Ficção Seriada via Streaming”. Londrina, Syntagma Editores. 2016.


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