domingo, 24 de junho de 2018

O estereótipo do traficante no audiovisual: uma análise do documentário “Notícias de uma guerra particular”



“A polícia federal estima que hoje o comércio de drogas empregue 100 mil pessoas no Rio, ou seja, o mesmo número de funcionários da prefeitura da cidade. Nem todas essas pessoas moram na favela, no entanto, a repressão se concentra exclusivamente nos morros cariocas.” (Notícias de uma Guerra Particular, 1999)

Com a expansão e inserção do documentário no mercado cinematográfico, entre o final dos anos 90 e início do século XXI, mais filmes com a temática da violência urbana passaram a ser produzidos. Como o documentário Notícias de uma guerra particular (1999), dirigido por João Moreira Salles e Kátia Lund, com a colaboração de Walter Salles. Com entrevistas de Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus, e Carlos Gregório, fundador do Comando Vermelho, o documentário pretende mostrar como a repressão ao narcotráfico acontecia dentro das favelas, através de três importantes figuras que ocupam esse lugar: o morador, o traficante, e a polícia. Logo no início do documentário uma série de dados indica a relação da expansão do narcotráfico no Rio – que aconteceu na metade dos anos 80 – ao aumento do número de homicídios na cidade.

O primeiro personagem que nos é apresentado é um policial, que conta que sua vontade de seguir a profissão surgiu ainda criança. Ao ser questionado se gostaria de ter participado de uma guerra, ele responde: “Eu estou participando de uma guerra, acontece que eu estou voltando para a casa todo dia. É a única diferença.” Já o primeiro traficante é Fabrício, de apenas 16 anos, que se apresenta cantando um rap. Por último, mas igualmente importante nesse emblemático cenário, aparece a moradora Hilda, entregadora de jornal, que acorda todos os dias as 02h30 da manhã, e só dorme as 22h, após servir o jantar ao seu marido.

No decorrer do documentário diversas pessoas aparecem, mas um ponto a ser observado nesta análise é o número de traficantes e a pluralidade que há entre eles. 

O traficante

 

“Então, acho que o tráfico oferece também isso, oferece um respeito que ele não tem quando ele opta por ser um entregador de remédio em farmácia. À medida que ele abre o jornal e lê “na favela tal o jovem enfrentou a polícia, armado e com capuz”, isso alimenta nele esse orgulho, esse poder que ele acha que tem sobre uma sociedade que não reconhece o seu real valor.” (Notícias de uma guerra particular, 1999)
Ao longo de Notícias são mostrados traficantes já adultos e adolescentes, entre 13 e 16 anos, além de um assaltante de banco. O que chama atenção, é que assim como as outras figuras do documentário – moradores e policiais -, eles são mostrados como personagens individuais e não como um bloco de indivíduos estereotipados, que, em geral, como destacam CÓL e Simião (2015, p.07), são representados como pessoas com baixa capacidade intelectual, perversas, e únicas causadoras dos males que afetam esses espaços de repressão.

Como aponta Kellner (2001), na sociedade contemporânea a identidade é mediada cada vez mais pela mídia e suas imagens, que nos fornecem moldes e ideias para a modelagem da identidade pessoal. Além de fornecer o material que muitas pessoas constroem o senso de classe, etnia e raça, ajudando ainda a modelar a visão de valores profundos, como de mau e bom, certo e errado, moral e imoral, etc.

A representação do outro no audiovisual sempre foi marcada por diversos estereótipos. A própria favela é um lugar repleto de misticismos, que ora é representada de maneira romantizada, ao mostrar o sofrimento dos moradores, mas ressaltarem os quão batalhadores e felizes são; ora pelo exagero da miséria e violência, que servem como ponto de partida para situações de impotência e perplexidade (BENTES, 2007).

Outro ponto apresentado por Kelnner (2001, p.317), é que os espetáculos da mídia demonstram quem tem poder e quem não tem, além de quem pode ou não utilizar a violência. Durante o documentário, uma moradora fala sobre as mudanças que aconteceram na favela após a entrada do tráfico. Entre as diversas mudanças, a que mais chama atenção é a da repressão que jovens, envolvidos ou não com o tráfico sofrem ao serem abordados pela polícia:

“E aí, a gente fica junto deles, pra que eles não possam ficar 01 minuto sozinhos com o garoto, pra que não possa acontecer nada. No fim eles acabam descendo com o garoto e levando pra averiguação, pra ver se ele tem alguma coisa. Porque, às vezes, os policiais não sobem pra prender, sobem pra matar.” (Notícias de uma guerra particular, 1999)

Além de influenciar na identidade – ou falta dela – a cultura da mídia dita comportamentos, modas, nos mostrando o que cada classe social veste, como se porta e os bens que tem. Tornando o sucesso, expressão extremamente capitalista. Os traficantes mais novos apresentados em Notícias, 13 e 14 anos, contam que o dinheiro do tráfico os proporciona roupas e sapatos que não teriam em outra situação, e exaltam marcas como Cyclone, Nike e Rebook.

Não se pode esquecer, que o que quebra o estereótipo é a humanização do personagem, seja qual for ele.

Marcinho VP

 

“Eu sou um mito. Foi a imprensa que fez esse mito. Eu sou o monstro que vocês criaram.” (Marcinho VP aos jornalistas que acompanharam sua prisão.)
Márcio Amaro de Oliveira, o famoso traficante Marcinho VP, foi uma importante peça na produção do documentário Notícias de uma guerra particular. Na época das gravações, Marcinho era o “dono do morro” Dona Marta - além de foragido da polícia -, e o documentarista João Moreira Salles teve que se encontrar com o traficante em seu esconderijo, para conversar sobre as gravações. Dois anos antes, o morro da Dona Marta já havia sido cenário do videoclip de Michael Jackson They Don’t Care About Us, dirigido pelo famoso cineasta Spike Lee.

A relação de Marcinho VP e João Moreira Salles foi questionada várias vezes até judicialmente, após o então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, acusar João de ser um dos financiadores do tráfico de drogas no Rio. Porém, a relação que havia entre esses dois indivíduos tão diferentes socialmente, era de amizade, segundo João Moreira Salles. Além da proposta de ajudar Marcinho a sair do tráfico com uma mesada de mil dólares, João Moreira Salles presenteou Marcinho com livros de Machado de Assis e Camus, pedidos pelo traficante.

Além da relação de Marcinho VP com João Moreira Salles, a relação de Marcinho com o jornalista Caco Barcelos gerou o livro “Abusado: o dono do morro Dona Marta”, que ganhou o Prêmio Jabuti 2004, na categoria Reportagem e Biografia. Para os autores CÓL e Simião (2015, p.06) o objetivo é contar a história do chefe do tráfico do morro Dona Marta. Ainda segundo os autores, Caco, não buscou o senso comum na hora de contar a história:

Entretanto, ao invés de apenas buscar o senso comum e reforçar o estereótipo do traficante, que seria algo como vendedor de droga e assassino, Barcellos descreve a criação de Marcinho na favela, os envolvimentos amorosos, ascensão dele como um importante criminoso no local onde vivia, além de outras informações. (CÓL et SIMIÃO, 2015, p.06)

Nessa perspectiva, devemos mais uma vez ressaltar a importância da humanização dos personagens como ressalta Lima (2009, p.359)

“Toda boa narrativa real só se justifica se nela encontramos protagonistas e personagens humanos tratados com o devido cuidado, com a extensão necessária e com a lucidez equilibrada onde nem os endeusamos e nem os vilipendiamos. Queremos antes de tudo descobrir o nosso semelhante em sua dimensão real, com suas virtudes e fraquezas, grandezas e limitações.”

No livro, Caco ainda fala de encontros que Marcinho mantinha com intelectuais e artistas, como João Moreira Salles e Marcelo Yuca, ex-baterista da banda O Rappa, para debater ideias, e, quem sabe, encontrar caminhos diferentes para a própria vida. Marcinho ainda dialogava com lideranças do morro, ouvia queixas dos moradores e mantinha uma relação próxima com os idosos e crianças, além disso, frequentava cultos de diversas religiões, e era grande fã do argentino Che Guevara.

Marcinho VP foi encontrado morto na tarde do dia 28 de julho de 2003, dentro de uma lixeira do presídio Doutor Serrano Neves, o Bangu 3, junto com seus livros.

Referências:

BENTES, Ivana. Sertões e favelas no cinema contemporâneo: estética e cosmética da fome. In Revista Alceu, v.8, n.15, p.242-255, 2007 Disponível em: <http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/alceu_n15_bentes.pdf>. Acesso em: 21 jun. 2018

KELNNER, Douglas. A cultura da mídia - estudos culturais: identidades e política entre o moderno e o pós moderno. Bauru: Edusc, 2001.

LIMA, Edvaldo Pereira de. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo literário e da literatura. Barueri: Malone, 2009.

SIMIÃO, João Victor da Silva; CÓL, Ana Flávia. A quebra do estereótipo do criminoso em “Abusado: o dono do Morro Dona Marta”. In Intercom, XVI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul , Joinville, 2015. Disponível em: < www.portalintercom.org.br/anais/sul2015/resumos/R45-1060-1.pdf>. Acesso em: 21 jun. 2018



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