O trauma que move Attack on Titan

Por: Mateus Luiz Barbosa do Nascimento, Thaua de Arruda Nunes , Maria Sabrinna Santos De Barros, Maria Heloisa Da Silva Nascimento, Luiz Henrique Candido Da Silva , Marjorie Louise Pereira Monteiro Da Silva e Emanuelly Maria Da Silva Andrade


Attack on Titan (Shingeki no kyojin) é um anime que constrói, desde o primeiro episódio, uma narrativa motivada pelo medo e pelo trauma. Num mundo cercado por muralhas e numa organização social sustentada pela ameaça dos titãs, a obra parte de uma premissa em que ignorância e controle caminham juntos. Seguindo as experiências de personagens como Eren, Mikasa e Armin, o espectador sai de um estado de choque inicial a uma compreensão mais complexa das dinâmicas que estruturam esse universo ficcional.


Logo nos primeiros episódios, o mundo nas muralhas é apresentado como uma organização social rígida, mantida pela crença de que a humanidade está cercada por uma grande ameaça. Essa estrutura condiciona os gestos e decisões dos personagens, movidos pelo medo e pela repressão. 


Chama a atenção a forma como a narrativa conduz o espectador da sensação inicial de ignorância para uma consciência política, social e emocional, acompanhando as experiências dos protagonistas. A morte da mãe de Eren é um momento de ruptura que não apenas interfere na psicologia do personagem, mas também expõe a fragilidade de um mundo que acreditava viver em segurança. 

Um momento de grande relevância ocorre quando a narrativa explora o impacto emocional dessa perda. Eren, Mikasa e Armin, embora muito jovens, carregam um peso desproporcional às suas idades, e os efeitos de suas experiências se manifestam de maneiras diferentes. Eren expressa sua dor e raiva como uma determinação quase irracional, transformando seu luto em impulso destrutivo. Mikasa, por outro lado, revela um silêncio interno que só se quebra quando aqueles que ama estão em perigo, deixando claro que seu trauma — prévio e recente — se converteu em uma necessidade de controle e proteção. Já Armin demonstra, desde cedo, que seu sofrimento assume a forma de reflexão e sensibilidade, elementos que o tornam consciente das fragilidades da ordem social em que vive. 

O avanço dos episódios evidencia também uma espécie de tensão acumulada entre o que se mostra e o que se oculta. As distintas perspectivas apresentadas — ora intimistas, ora amplas — permitem que o espectador sinta a instabilidade do mundo das muralhas. O treinamento dos recrutas é um bom exemplo disso: se, superficialmente, parece apenas um rito de passagem para jovens soldados, gradualmente se revela como um mecanismo de disciplina estatal, no qual hierarquia e obediência são exaltadas como virtudes essenciais. Ainda assim, mesmo nesse contexto militarizado, há espaço para pequenos lampejos de humanidade. Jean, por exemplo, oferece um contraponto ao ideal heroico de Eren; sua relutância inicial e seu desejo de viver uma vida comum são elementos que revelam uma fissura na narrativa do sacrifício. 

Outro ponto marcante na primeira temporada é a transformação de Eren em Titã, um acontecimento que quebra não apenas as expectativas da tropa, mas a própria lógica social das muralhas. O choque emocional dos personagens ao vê-lo naquela forma — especialmente Mikasa e Armin — evidencia o quão intrincada é a relação entre afeto e medo. Mikasa oscila entre a esperança desesperada de que Eren ainda seja ele mesmo e o pavor de perdê-lo para algo incontrolável. Armin, apesar do terror, demonstra uma capacidade rara de raciocínio em meio ao caos, sendo justamente essa clareza que permite salvar o amigo e redefinir a situação. Tal sequência reforça a importância dos pontos de vista alternados na composição emocional da trama: o espectador conhece o evento não apenas por suas consequências visuais, mas pela reação íntima de cada personagem. 

É também a partir desse acontecimento que o conflito político se aprofunda. O surgimento de um “Titã aliado” dá início a uma crise institucional, na qual diferentes facções disputam controle sobre o destino de Eren. O julgamento militar se torna um momento decisivo pela exposição das tensões internas das muralhas: intolerância, desconfiança e a necessidade de um inimigo claro moldam a postura dos oficiais. O contraste entre a brutalidade da Polícia Militar e a pragmática do Esquadrão de Exploração junto a Guarda Estacionária deixa evidente que a luta contra os Titãs é uma luta entre modelos de sociedade. 

Nos episódios finais da temporada, as mudanças de ponto de vista se intensificam, ampliando a compreensão do espectador sobre o mundo narrativo. Passamos das percepções aterrorizadas dos soldados novatos para o olhar mais experiente dos veteranos, como Erwin e Levi, que enxergam o conflito com maior distanciamento estratégico. Ainda que a primeira temporada não revele o mundo além das muralhas, há uma sucessão de indícios que sugerem que a ameaça é maior do que os personagens entendem. Essa sensação de “algo escondido” sustenta o suspense e reforça o impacto emocional dos confrontos, especialmente na operação de defesa de Trost. 

Em paralelo, o dinamismo das batalhas, acompanhado pelas reações simultâneas de vários personagens, produz uma espécie de coral emocional. Connie, Sasha, Annie, Reiner e Bertholdt apresentam comportamentos aparentemente dispersos, mas que enriquecem a leitura da obra. Alguns revelam coragem inesperada, outros hesitação, outros rigidez ou pragmatismo. O espectador é convidado a observar como cada um lida com o medo — elemento constante da série — e como esse medo molda relações, lealdades e decisões. 

Categorização e outros detalhes do anime

Attack on Titan é um seriado que busca impactar seus telespectadores desde o primeiro momento, seja por meio da batalha entre o Exército da Liberdade e os titãs ou a invasão do titã na cidade. Quando pensamos em categorização da produção, Attack on Titan se encaixa naquilo que Pamela Douglas chama de “narrativa longa” (2018, p. 26). Esse tipo de narrativa se caracteriza quando o destino dos personagens (ao longo de seus atos e arcos narrativos) não são definidos em uma ou duas horas (como num filme), mas duram centenas e centenas de horas e múltiplas temporadas. 

O piloto é um episódio carregado de cenas dramáticas que funcionam para contextualizar o público da dificuldade vivida por Eren e Mikasa (por conta da morte de sua mãe) e como tal acontecimento foi responsável por fazer com que Eren se juntasse ao Exército da Liberdade em busca de vingança. As cenas dramáticas podem ser consideradas um elemento vital para a construção de uma boa narrativa (e boas narrativas, consequentemente, constroem boas histórias). Cada cena, segundo Douglas (2018, p. 97), deve ter um “um protagonista motivado que deseja algo e conduz a ação para obtê-lo através do conflito com um oponente [...]”. 

O episódio piloto também se destaca pelo bom uso do teaser (gancho inicial do episódio) como uma forma eficiente de prender a atenção dos espectadores antes do início do episódio. O teaser pode ser utilizado como uma ferramenta narrativa responsável pela referência ao contexto dramático de cada episódio ou uma apresentação do problema (Douglas, 2018, p.104-106). No caso do episódio analisado, ele serve como contextualização das situações futuras e a apresentação do primeiro ápice dramático do anime (a invasão e quebra do muro de proteção da cidade). 

O que Mikasa e Eren trazem para a festa? 

A construção de uma boa história passa por muitas nuances. O jeito que vemos os personagens é uma delas. Pare para pensar em seus personagens preferidos. Quais eram as características que eles tinham e que você nunca conseguiu esquecer? Como essas características auxiliaram na construção de uma história de sucesso? Douglas (2018) compreende que essas características são elementos especiais que os personagens “trazem para a festa” (p.160-162), os detalhes que eles entregam para a produção e como eles podem ser reconhecidos pelo público. 

Apesar de dividirem o co-protagonismo do anime, Eren e Mikasa estão de lados diferentes quando pensamos em suas características. Mantendo a analogia da “festa” que foi utilizada por Douglas, Eren é um personagem mais sanguíneo, emocional. Carrega consigo um enorme desejo de vingança pela morte da mãe. É corajoso, mas tal coragem resulta em atitudes impulsivas, que podem colocar seus amigos em perigo. É apaixonado e determinado, mas sua teimosia pode ser inconsequente. 

Já Mikasa contrasta com Eren por ser mais centrada e cerebral. Tem dificuldades de interação social, mas é muito protetora com seus amigos, principalmente Eren, que frequentemente a coloca em situações de apuros. Assim, os personagens contribuem para o arco narrativo um do outro e para a história como um todo.

É tragédia ou epopeia? Uma visão Aristotélica de Attack on Titan


Na obra Arte Poética, Aristóteles (1977) passa um período importante apresentando as diferenças entre as obras definidas como tragédias e epopeias (p. 6-12). A tragédia é vista como uma imitação de uma ação elevada, completa e que tem uma extensão determinada. Como a obra é inspirada na análise de musicais, o autor separa as produções trágicas em seis elementos: enredo, personagem, dicção, pensamento, espetáculo e o canto. Já no caso da epopeia, o gênero é visto como uma narrativa longa, grandiosa e poética, focada na história de um herói e seus feitos ou atividades notáveis. Quando pensamos no que é capaz de diferir ambas, a epopeia se distingue da tragédia pela forma que é feita e pela extensão da apresentação. 

Outra diferença relevante entre a epopeia e a tragédia é a forma que a catarse acontece. Seguindo a definição do dicionário Priberam, catarse foi o verbete escolhido por Aristóteles para designar a “purificação” que é sentida pelos espectadores durante e após uma representação dramática. Se considerarmos a definição psicanalítica, catarse é a liberação de uma emoção ou sentimento frente a um acontecimento. Essa liberação resulta em um alívio psicológico, além da lógica identificação com a história que está sendo representada. 

Segundo Aristóteles (p. 6-12), o sentimento de catarse na tragédia é o resultado da história que está sendo apresentada, aquilo que desperta terror e piedade na audiência (no nosso caso, o telespectador sente raiva dos titãs e pena dos jovens Eren e Mikasa, que perderam sua mãe por conta de uma violência tão grotesca). Esse misto de terror e piedade resulta na purgação. Já na epopeia, a catarse tem a finalidade de despertar o prazer na audiência, ensinando virtudes por meio dos feitos do herói. No caso de Attack on Titan, consideramos que o anime é uma tragédia. A narrativa é centrada no desejo de vingança de Eren e Mikasa contra os titãs. 

O seriado também apresenta muitas semelhanças com histórias e ideais conhecidos das mitologias. Attack on Titan bebe da fonte de muitos conceitos das mitologias grega e viking. O conceito dos titãs, por exemplo, são uma referência (indireta) aos titãs da mitologia grega. Na mitologia, os titãs também eram seres gigantes e primitivos, manifestações das forças da natureza. Também observamos uma referência visual direta ao titã Atlas. Nos mitos gregos, Atlas foi punido pelos deuses, deve carregar uma abóbada celeste nos ombros. Esse peso pode ser comparado com o mesmo peso que Eren carrega ao decorrer da narrativa: o peso de proteger a humanidade dos titãs. 

Outro conceito trabalhado por Aristóteles na obra Arte Poética e possível de se identificar em Attack on Titan é a relação entre a fábula (enredo) e o patético. Aristóteles define a fábula como “a imitação da ação” (p.17). Ele se refere à estrutura narrativa, a uma sequência organizada de eventos que podem construir a obra. A fábula tem como componentes principais a peripécia (reversão de expectativas), o reconhecimento (de algo não percebido) e a catástrofe, produzindo o patético (pathos), ou seja, a catástrofe (ação) que provoca a morte ou um sofrimento do protagonista, esse protagonista tem a sua vida alterada por conta desse acontecimento. No caso do objeto da análise, tal patético é causado pela morte da mãe de Eran e Mikasa. 

A beleza de Attack on Titan, seguindo a proposta feita por Aristóteles, é a morte da mãe de Eren. Esse acontecimento é o que Aristóteles chama de infortúnio do personagem, algo que acabe ou prejudique sua felicidade, uma mudança de vida relevante. É essa mudança que fará que o personagem siga pelo caminho que falamos antes na tragédia, algo que vai alterar seu caminho para sempre, em busca de sua catarse. 

REFERÊNCIAS 

“catarse”. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]. Priberam Informática, S.A. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/catarse#:~:text=Origem:%20grego%20k%C3%A1thar sis%2C%20%2De%C3%B3s%2C%20purifica%C3%A7%C3%A3o. Acesso em 21. nov. 2025 

ARISTÓTELES. Arte poética. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1977.

BELTRANI, AMANDA. PHD. What is Catharsis? The Business of Pratice Blog. Palo Alto University, 2025, Disponível em: .

https://paloaltou.edu/resources/business-of-practice-blog/what-is-catharsis . Acesso em: 20. nov. 2025 

DOUGLAS, Pamela. Writing for TV Drama Series: How to Suceed as a Professional Writer in TV. 5. ed. Michael Wiese Productions. 2018. 

RYAN, Marie-Laure; THON, Jan-Noël (org.). Storyworlds Across Media: Toward a Media-Conscious Narratology. Lincoln; London: University of Nebraska Press, 2014. Disponível em: http://digitalcommons.unl.edu/unpresssamples/276. Acesso em: 15 nov. 2024. 

IGLESIAS, Karl. Writing for emotional impact: advanced dramatic techniques to attract, engage, and fascinate the reader from beginning to end. Livermore, CA: WingSpan Press, 2005.


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