Por: Maria Victória Loures
O cinema, para além do entretenimento, é compreendido como um fenômeno social e cultural capaz de produzir sentidos. Santaella (2003) entende as mídias audiovisuais como instâncias ativas na construção do imaginário social, uma vez que organizam signos, imagens e narrativas que influenciam a forma como a realidade e as identidades são representadas. O audiovisual, especialmente o cinema, não se limita à função de entreter, mas atua como um espaço de produção de sentidos e de construção de imaginários sociais, participando ativamente da forma como a realidade é percebida e interpretada pelos indivíduos. Como pontua Lyra (2005, p. 186), “O cinema abandona a condição de ser um elemento específico, passando a integrar o sistema audiovisual das comunicações que atua na indústria de informação e entretenimento.” Desse modo, por meio de suas narrativas, personagens e escolhas estéticas (como figurino, enquadramento, trilha sonora e montagem), o audiovisual constrói diálogos que comunicam valores e visões de mundo, podendo reforçar ou tensionar estereótipos sociais.
Por meio de suas narrativas, personagens e escolhas estéticas (como figurino, enquadramento, trilha sonora e montagem), o audiovisual constrói diálogos que comunicam valores e visões de mundo, podendo reforçar ou tensionar estereótipos sociais.
A representação da mulher no cinema e a noção de transformação
Historicamente, as comédias românticas construíram personagens femininas frequentemente associadas à passividade, à centralidade do romance e à busca pela validação masculina, reforçando modelos tradicionais de feminilidade (STEFANINI; GRIGUOL; GUIMARÃES, 2020). Essas representações participam da produção de sentidos sobre o papel social da mulher, contribuindo para a naturalização de expectativas e comportamentos de gênero. A comédia romântica, é construída a partir de projeções sobre o perfil de sua plateia, composta majoritariamente por mulheres que se identificam com essas narrativas e passam a se espelhar nos modelos apresentados. É nesse sentido que a construção dessas produções deve ser interpretada como um processo de difusão e inserção de determinados valores sociais no imaginário de um público feminino, tornando-se um ponto de partida fundamental para a compreensão das especificidades do gênero e de seus efeitos simbólicos. Segundo Mulvey (1975, p. 808) "em um sistema cinematográfico estruturado por uma lógica patriarcal, o prazer em olhar é dividido entre o masculino ativo e o feminino passivo, de modo que a mulher é construída como imagem e objeto de contemplação erótica.”
No filme As Patricinhas de Beverly Hills (1995), a transformação da protagonista não se manifesta como uma ruptura radical com sua identidade inicial, mas como um deslocamento simbólico que ocorre no campo dos valores. Cher Horowitz, interpretada por Alicia Silverstone, não abandona sua feminilidade, sua aparência ou sua posição social. Pelo contrário, o filme constrói uma trajetória em que esses elementos permanecem, mas passam a ser atravessados por um processo de amadurecimento moral. Ao longo da narrativa, a personagem deixa de agir exclusivamente a partir de interesses ligados ao status e à aprovação social e passa a desenvolver uma relação mais empática com o outro, revisando suas próprias motivações e responsabilidades.
Esse movimento de reconfiguração interna distancia Cher do estereótipo recorrente da comédia romântica, no qual a realização feminina está subordinada ao sucesso amoroso ou à validação masculina. Embora o romance esteja presente na narrativa, ele não opera como o único eixo de transformação da personagem, que constrói sua agência a partir de escolhas próprias e de uma progressiva consciência ética. Dessa forma, o filme propõe uma representação feminina que articula autonomia e feminilidade, tensionando modelos tradicionais do gênero e ampliando as possibilidades de leitura da personagem.
A reconfiguração moral da personagem
A noção de transvaloração dos valores, formulada por Nietzsche, refere-se ao movimento de revisão crítica das hierarquias morais naturalizadas, isto é, à possibilidade de ultrapassar valores herdados e criar novas formas de atribuição de sentido à experiência. Como afirma Oliveira (2024, p. 111), trata-se de “a ação de ir além-ultrapassar-inverter a valoração que determina o valor de todos os valores já valorados”. Esse conceito permite compreender como sujeitos podem deslocar-se de sistemas de julgamento baseados na repetição social para formas mais reflexivas de orientação da vida.
Cher é uma adolescente comum, inserida em dilemas característicos de seu contexto social. Logo nas primeiras cenas, o espectador é introduzido à noção de que a personagem orienta suas ações a partir de preocupações com aparência, popularidade e status. Esses elementos configuram a moral que guia Cher no início da narrativa: um conjunto de valores socialmente naturalizados no universo adolescente, fundamentado no reconhecimento externo, no capital simbólico e na validação pelos pares. Trata-se de valores herdados, assimilados sem questionamento, que operam como normas implícitas de pertencimento.
Embora Cher inicialmente reproduz os padrões esperados para uma jovem de sua época (vaidosa, consumista e socialmente estratégica), a narrativa progressivamente revela uma personagem mais complexa, cuja relação com esses valores começa a se desestabilizar. Os acontecimentos do filme funcionam como dispositivos de deslocamento moral, levando-a a refletir sobre suas próprias ações e motivações. Um dos momentos centrais dessa inflexão ocorre na transformação Tai. Convencida de que domina o “jogo social”, Cher ensina à colega como se vestir, falar e se comportar, acreditando poder produzir reconhecimento social de maneira quase técnica. No entanto, após a mudança, Tai passa a receber mais atenção do que ela própria (inclusive dos mesmos grupos que antes legitimavam Cher), o que abala sua posição de centralidade e evidencia que seu valor dependia de um sistema externo de validação.
A partir desse deslocamento, o reconhecimento social deixa de parecer natural e passa a ser percebido como construção, abrindo espaço para uma experiência de estranhamento em relação aos critérios que organizam sua identidade. Esse processo é reforçado por outras situações ao longo da narrativa, como sua reação à nota baixa, quando tenta reorganizar a relação entre professores para recuperar seu desempenho, revelando sua confiança inicial na capacidade de controlar socialmente os resultados; ou ainda na maneira como conduz o projeto de “aperfeiçoamento” de Tai, incentivando mudanças de vocabulário, hábitos e gostos culturais para torná-la mais aceita. Ao mesmo tempo, o filme evidencia dimensões que escapam à lógica do status, como o cuidado genuíno com o pai e o desejo por relações afetivas que não sejam meramente estratégicas, indicando que, mesmo antes de compreender plenamente sua transformação, Cher já demonstrava tensões entre valores superficiais e buscas mais autênticas.
Desse modo, sua trajetória não representa apenas uma mudança de comportamento, mas uma reconfiguração gradual dos critérios pelos quais atribui valor às pessoas e às próprias ações, materializando-se no plano narrativo.
Feminilidade não punida em As Patricinhas de Beverly Hills
Ao longo da história do cinema e da narrativa ficcional, muitas histórias protagonizadas por mulheres foram construídas a partir da ideia de que certos traços associados à feminilidade, como vaidade, ambição, desejo de reconhecimento ou forte presença social, precisavam ser corrigidos. O percurso da protagonista frequentemente era associado à renúncia desses traços, considerados “superficiais”, para que ela se tornasse digna do amor romântico ou do reconhecimento social (Haskell, 1987). Assim, a narrativa operava como dispositivo de regulação simbólica, estabelecendo quais formas de ser mulher eram legítimas e quais deveriam ser disciplinadas (Lauretis, 1994).
Como apontam Stefanini, Griguol e Guimarães (2020), a construção das comédias românticas deve ser compreendida como mecanismo de difusão e inserção de valores sociais direcionados a um público feminino, o que evidencia o papel normativo dessas produções na consolidação de arquétipos de gênero. Tal fato se manifesta na recorrente estrutura de transformação da protagonista: a mulher popular aprende humildade; a mulher vaidosa aprende simplicidade; a mulher ambiciosa aprende que o amor é mais importante que o sucesso. A recompensa final é geralmente o romance heterossexual, funcionando como um selo de aprovação moral. Dessa forma,o gênero não apenas narra histórias de amor, mas difunde e insere valores sociais específicos, naturalizando determinadas expectativas sobre feminilidade.
É precisamente nesse ponto que As Patricinhas de Beverly Hills (1995), apresenta um deslocamento significativo. Cher Horowitz encena uma feminilidade intensamente acentuada: ela é vaidosa, fashionista, popular, rica, estrategista social e plenamente consciente do valor simbólico da aparência. Seu guarda-roupa é tratado como extensão de sua identidade; sua popularidade, como capital social; sua habilidade de organizar relacionamentos, como forma de exercício de poder. No entanto, ao contrário de inúmeras protagonistas anteriores, Cher não é “punida” por essas características.
A estética extremamente feminina da personagem, marcada por cores vibrantes, saias xadrez, maquiagem cuidadosa e domínio dos códigos da moda, não é ridicularizada pela narrativa como "falha moral". Pelo contrário, ela constitui sua linguagem social. A feminilidade no filme, não é sinônimo de ignorância ou futilidade absoluta, mas forma de agência. Cher ameniza conflitos, articula alianças e reorganiza hierarquias escolares com certa inteligência estratégica. Sua popularidade não é mero acaso: é resultado de sua capacidade de compreender e conduzir as dinâmicas sociais ao seu redor.
A feminilidade de Cher pode ser compreendida não como essência fixa, mas como construção marcada pela reiterada incorporação de signos culturalmente associados ao feminino. O filme, rompe com a tradição narrativa que costuma submeter essa expressão a um processo de correção moral. Diferente de outras protagonistas, Cher não precisa abandonar a moda, a vaidade ou o consumo para amadurecer; sua transformação não é estética, mas ética. A narrativa desloca o foco da disciplina da feminilidade para a ampliação da consciência moral da personagem. O arco de desenvolvimento não exige que ela deixe de ser “patricinha”, mas que reoriente seus critérios de julgamento e amplie sua capacidade de empatia. Trata-se menos de negar sua identidade, e mais de reorganizar os valores que estruturam sua forma de agir no mundo.
Esse detalhe é crucial quando observamos a tradição das comédias românticas clássicas, nas quais o casamento frequentemente representava a resolução definitiva do conflito feminino. Em As Patricinhas de Beverly Hills, Cher já tinha influência antes mesmo de qualquer envolvimento amoroso. O romance com Josh (Paul Rudd) ocupa um lugar relevante em sua trajetória, pois desperta nela um movimento de autorreflexão e desejo de amadurecimento; em determinados momentos, ela demonstra vontade de se tornar uma versão melhor de si, inclusive para corresponder a ele. No entanto, esse sentimento não se converte em obsessão nem redefine sua identidade. O relacionamento não funciona como instância legitimadora de sua existência, mas como desdobramento de um processo de crescimento que já estava em curso.
Inserido no contexto da década de 1990, o filme dialoga com transformações culturais relevantes. O período foi marcado pela chamada terceira onda do feminismo, pela consolidação da cultura pop jovem e pela emergência do discurso do “girl power”. Nesse cenário, a figura da jovem mulher consumidora, estilizada e autoconfiante ganha centralidade midiática. Cher passa a ser referência em expressar uma feminilidade que não pede desculpas por existir. Sua vaidade não é tratada como fraqueza estrutural, mas como parte de uma subjetividade complexa.
Por isso, o filme ocupa posição estratégica na história das comédias românticas juvenis ao construir uma protagonista cuja feminilidade não é moralmente castigada, deslocando o regime de punição simbólica que tradicionalmente organizava o gênero. A narrativa não exige que a mulher abandone a moda, a popularidade ou a vaidade para ser digna de amor ou respeito; o que se transforma é sua ética relacional, não sua expressão de gênero. Assim, a autonomia feminina apresentada no filme opera em dois níveis: preserva a feminilidade como potência, e não como defeito a ser corrigido, e estrutura o romance como elemento acessório, e não constitutivo da identidade da protagonista. A obra contribui para a consolidação de um imaginário no qual a jovem mulher pode ser simultaneamente vaidosa, popular, sensível, estratégica e moralmente ativa, sem que sua legitimidade dependa de um processo de disciplina ou renúncia de sua própria expressão de gênero.
Referências
OLIVEIRA, David Barroso de. A mensagem de Nietzsche: as significações da transvaloração de todos os valores. Polymatheia - Revista de Filosofia, Fortaleza, v. 2, p. 107–125, 2024. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/revistapolymatheia/article/view/13227. Acesso em: 25 fev. 2026.
LYRA, Bernardette. Cinema e audiovisual. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, São Paulo, n. 24, p. 147-160, 2005.
MULVEY, Laura. Visual pleasure and narrative cinema. Screen, London, v. 16, n. 3, p. 6–18, 1975.
STEFANINI, Isabella Ricchiero; GRIGUOL, Natália do Amaral; GUIMARÃES, Pedro Maciel. Fabricando romance: o arquétipo feminino em comédias românticas. Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura, Rio Branco, v. 9, n. 2, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/tropos/article/view/3976. Acesso em: 25 fev. 2026.
HASKELL, Molly. From Reverence to Rape: The Treatment of Women in the Movies. Chicago: University of Chicago Press, 1987.



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