O que você faria se pudesse alterar a realidade?

Bom, pra mim, este é um questionamento difícil de responder, visto as diversas situações que assolam nosso cotidiano, tanto na nossa vida pessoal quanto como indivíduos de uma sociedade. E, como já dizia o Tio Ben, de Homem Aranha, “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, ter poderes cósmicos, com a possibilidade de mudar a realidade, não deve ser um trabalho fácil, ainda mais lidando com o luto. Mas afinal, do que este texto trata?


Em 15 de janeiro de 2021 o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) deu mais um de seus grandes saltos. Agora, por meio da plataforma de streaming Disney + o mundo onde fantasia e realidade se misturam tomou um novo rumo: o da dramaturgia na TV. Através do que estudiosos como Jenkins (2008) e Scolari (2013) conceituam de narrativa transmídia,  o MCU deu início a mais uma etapa no seu grande quebra cabeça, levando uma pílula da vida de uma personagem secundária, mas com grande importância em sua trama para um contexto mais denso e complexo. E que maneira melhor de começar isso, se não homenageando as diversas eras da ficção seriada televisiva estadunidense? 

Assim nasceu WandaVision, uma minissérie de apenas nove episódios, com direção de Matt Shakman. A trama acompanha a vida da queridíssima Wanda (Elizabeth Olsen) e seu amado marido (morto) Visão (Paul Bettany) após os acontecimentos de Vingadores Ultimato - última grande saga cinematográfica até o momento. 

Este texto contém muitos spoilers, então, primeiro assista a série e volte correndo aqui para terminar!

Como o universo da Marvel é recheado de intertextualidade, com suas referências e easter eggs, a série traz em sua narrativa a estética de shows produzidos nas décadas de 50, 60, 70, 80, 90, até chegar aos dias de hoje, fazendo uma ode à TV. Suas referências vão desde I Love Lucy (CBS, 1951 -1957), aclamado seriado dos anos 50, até a contemporânea  Modern Family (ABC, 2009 - 2020).



Mas, os elementos intertextuais não ficam restritos apenas à TV. A série apresenta ao público Tommy (Jett Klyne) e Billy (Julian Hilliard), filhos do casal protagonista, no universo dos quadrinhos, conhecidos como Célere e Wicanno, respectivamente. Além da famosa guardiã e mentora de Wanda, Agatha Harkness (Kathryn Hahn), que na série se torna a vilã principal. Também temos a introdução de Monica Rambeau (Teyonah Parris), conhecida nas HQs como a super-heroína Foton, explicando a origem de seus poderes no MCU. 

E, se engana quem pensa que a série para de surpreender por aí! Chocando todos e fazendo a alegria dos fãs, Evan Peters, o eterno Mercúrio da franquia X-Men, produzida pela Fox, dá vida à Pietro, irmão gêmeo de Wanda, interpretado por Aaron Taylor-Johnson no MCU. A série também trouxe de volta para seu elenco rostos conhecidos, como Darcy Lewis (Kat Dennings), dos filmes de Thor e o agente Jimmy Woo (Randall Park), de Homem-Formiga e a Vespa.



Apesar de todo o elenco de peso e diversas referências trazidas para o público, WandaVision se conecta de uma outra forma. No decorrer dos episódios, temos situações atípicas, que fogem do “mundinho perfeito”, que se assemelha, de fato, a um programa de TV criado pela protagonista. Um helicóptero de brinquedo misterioso, vozes no rádio e um homem com roupa de abelha no meio da rua quebram o roteiro criado por Wanda. Com um simples “não” ou um gesto qualquer, tudo volta ao normal, como se nada tivesse acontecido. Mas por que isso seria importante?


WandaVision e o o luto 


Wanda passa a série toda tentando lidar com a morte, tanto de Visão, quanto de Pietro, motivo pelo qual criou a sua realidade.

Segundo a pesquisadora e psiquiatra Kübler-Ross (1981) o processo de luto passa por cinco estágios diferentes, cada um à sua maneira, para tentar superar a morte de alguém próximo ou uma doença grave. Apesar da identificação dessas etapas, elas não são obrigatórias, ou seja, uma pessoa pode passar por todas elas ou não. Lidar com o luto é um processo único e individual. Na série, podemos observar que a personagem principal vai trilhando o caminho traçado pela pesquisadora, de acordo com os acontecimentos. 


1) Negação: Neste estágio, a pessoa envolvida por esse sentimento tende a negar os acontecimentos, criando estratégias para fugir do fato. Segundo Kübler-Ross  “A negação funciona como um pára-choque depois de notícias inesperadas e chocantes, deixando que o paciente se recupere com o tempo, mobilizando outras medidas menos radicais [...] Comumente, a negação é uma defesa temporária, sendo logo substituída por uma aceitação parcial”. (1981, p. 51 -52). Podemos perceber claramente esse estágio em Wanda ao perceber o homem saindo do bueiro no meio da noite, com uma roupa de apicultor e com um simples “não”, tudo se desfaz. 


2) Raiva: O segundo estágio é a raiva do fato ou dos envolvidos no mesmo. O famoso “não é possível que isso esteja acontecendo comigo” é uma das frases típicas ditas neste momento. Kübler-Ross afirma uma  certa dificuldade em lidar com esse estágio, devido ao fato que “esta raiva se propagar em todas as direções e projetar-se no ambiente, muitas vezes sem razão plausível.” (1981, p. 62 - 63). Este estágio se mostra claro quando Wanda, ao ser questionada sobre a morte de seu irmão por Monica, expulsa a agente de seu mundo.



3) Barganha: Aqui, a pessoa em luto faz um tipo de acordo com Deus ou o que ela crê para que a situação se amenize. "Se, no primeiro estágio, não conseguimos enfrentar os tristes acontecimentos e nos revoltamos contra Deus e as pessoas, talvez possamos ser bem-sucedidos na segunda fase, entrando em algum tipo de acordo que adie o desfecho inevitável [...] A barganha, na realidade, é uma tentativa de adiamento; tem que incluir um prêmio oferecido "por bom comportamento", estabelece também uma "meta" auto-imposta (por exemplo, um show a mais, o casamento de um filho) e inclui uma promessa implícita de que o paciente não pedirá outro adiamento, caso o primeiro seja concedido.” (KÜBLER-ROSS, 1981, p. 95, 96). Dentro da série, não há momento em que Wanda barganha com um “ser superior” em troca de sua realidade, pois ela já controla tudo o que está acontecendo em seu mundo.



4) Depressão: Este é o estágio que envolve maior sofrimento interno, ao estar de frente com a iminência da morte e com a impotência de não poder fazer mais para si e para o próximo. Na série, temos um episódio inteiro voltado para Wanda lidando com essa fase, enquanto tudo envolvendo o seu mundo começa a mudar pela perda do controle de suas emoções. Como punição aos acontecimentos anteriores, a protagonista tira um dia de folga de tudo, buscando se isolar de sua vida, alegando que não possui nenhuma resposta sobre o que está se passando. Apesar de ser um episódio mostrando a vulnerabilidade e a crise existencial de Wanda, ele segue a dinâmica cômica, nos moldes de séries como Modern Family, em que os personagens conversam com os espectadores e contam sobre seus sentimentos, quebrando a quarta parede. 



5) Aceitação: Depois de todas as situações descritas acima, o estágio de aceitação se mostra como a síntese final e libertação das dores vivenciadas. Porém,  Kübler-Ross afirma que é importante que não se confunda aceitação com um estágio de felicidade. É quase uma fuga de sentimentos. É como se a dor tivesse esvanecido, a luta tivesse cessado e fosse chegado o momento do " [...] repouso derradeiro antes da longa viagem", no dizer de um paciente.” (KÜBLER-ROSS, 1981, p.127). Após ter sido colocada à prova por Agatha Harkness, mostrando seu verdadeiro potencial mágico e todos os traumas vividos na vida, Wanda se despede de seu mundo, aceitando que a vida que ela construiu já não poderia mais ser levada adiante. Com isso, ela parte em uma jornada pessoal de auto-descoberta, isolando-se e deixando um spoiler para o seu futuro. 



Apesar de WandaVision tratar diretamente sobre o tema, o universo Marvel já vem lidando com o luto desde Vingadores: Ultimato (2019), até sua mais recente série para o Disney +, Falcão e Soldado Invernal (2021). A perda, transformação e ressignificação de símbolos, como a morte de Viúva Negra e Homem de Ferro, e a aposentadoria de Capitão América, dando lugar a um novo herói com o seu manto, traz a ideia de reinvenção que a Marvel quer se propor para os anos futuros. Encerrar ciclos abre diversos caminhos para que novas trajetórias se façam necessárias e presentes. E esta narrativa não se prende apenas à Marvel. Animações como Viva, Vida é uma Festa (2018) e os recentes filmes da Soul (2021) e Raya (2021), todas da Disney, mostram diferentes perspectivas de como lidar com a vida e com a morte. Nos provoca o questionamento de por que esse tema está em alta? Será que isso não é um convite para repensar nossos atos e a forma que lidamos com o cotidiano?

Com isso, podemos refletir também os processos internos que nós, enquanto espectadores e pessoas no “mundo real”. Infelizmente ainda não podemos estalar os dedos e mudar a realidade ao nosso redor para voltar à vida “normal” que tínhamos antes, mas podemos trilhar nossa própria narrativa dentro das nossas possibilidades e limitações, fazendo nossa parte para manter não só a nossa segurança, mas a de todos à nossa volta. 


Referências

JENKINS, H. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2008.
KÜBLER-ROSS, E. Sobre a morte e o morrer. WMF Martins Fontes: São Paulo,1981.
SCOLARI, C. Narrativas transmedia: Cuando todos los medios cuentan. Barcelona: Deusto , 2013. 






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