A Geração Queer: A representação lésbica em The L Word


Depois de um hiato de dez anos, a série estadunidense The L Word ressurge com uma nova proposta: Generation Q (Geração Queer, em tradução livre). A trama original foi ao ar pela primeira vez no dia 18 de janeiro de 2004 pelo canal pago Showtime. A série rapidamente conquistou fãs ao redor do mundo por trazer a vida de mulheres lésbicas como foco central da atração. Como pontua Agostini (2010), foi o primeiro programa de TV voltado para o público lésbico.

Seja polêmica, ousada, eletrizante ou revolucionária, entre outros adjetivos que recebeu, The L Word chama a atenção pelo quanto parece ter conseguido mobilizar mulheres homossexuais, criando redes e mais redes em seu entorno. Talvez o sucesso esteja exatamente na criação desse espaço de encontro, em que, pela primeira vez, as telespectadoras, sentindo-se retratadas ou não, têm a possibilidade de ver temas comuns ao seu cotidiano discutidos sem restrições no espaço midiático e para além dele (AGOSTINI, 2010, p.63)

The L Word surgiu em meio a uma onda de produtos audiovisuais que faziam frente contra o conservadorismo estabelecido durante décadas na televisão nos Estados Unidos. Desde os anos 80, personagens LGBTQ estavam aos poucos ganhando mais espaço nas narrativas ficcionais seriadas. Como destacado na série documental Visible: Out on Television (Apple TV+, 2020), esse movimento surgiu em contrapartida a décadas de representações distorcidas e que tinham como objetivo demonizar e ridicularizar a comunidade LGBTQ.

Esse é o jeito que vivemos?

The L Word foi criada, escrita e dirigida por mulheres lésbicas. Ilene Chaiken, produtora da série, fez questão de envolver no projeto pessoas que estavam familiarizadas com o estilo de vida proposto pelo programa. Era a primeira vez que a televisão mostrava personagens lésbicas sendo protagonistas e contando a sua história.

A trama narra o dia-a-dia de cinco amigas: Shane (Katherine Moennig), Tina (Laurel Holloman), Bette (Jennifer Beals), Alice (Leisha Hailey) e Jenny (Mia Kirshner). As personagens moram em Los Angeles (EUA) e são mulheres bem resolvidas com a própria sexualidade e vivem conflitos comuns a qualquer pessoa, relacionados à família, trabalho, amigos e etc. Não existe uma protagonista, os arcos se entrelaçam e todo o universo ficcional se desenvolve ao redor dessas personagens. Este ponto faz com que The L Word se destaque depois de décadas de personagens LGBTQ que viviam em segundo plano, pessoas que tinham conflitos com a própria sexualidade e eram mal desenvolvidas. 

Mais que apresentar um grupo de lésbicas, a série tira as personagens homossexuais de papéis coadjuvantes, trazendo-as para os holofotes. Além disso, opta por exibir um grupo de amigas lésbicas ainda pouco familiar aos olhares do telespectador, mais acostumado à exibição de apenas uma personagem homossexual, em geral estereotipada, em meio a um grupo predominantemente heterossexual (AGOSTINI, 2010, p.8).

Foram seis temporadas e 71 episódios até que esse ciclo se fechasse em 2009. Apesar de ter trazido revolução para a TV, a série também foi problematizada por mostrar uma representação distante da realidade. Afinal, Shane (Katherine Moennig), Tina (Laurel Holloman), Bette (Jennifer Beals), Alice (Leisha Hailey) e Jenny (Mia Kirshner) eram de classe média alta, não tinham problemas financeiros e viviam em um lugar livre de homofobia. Um universo um tanto utópico para essa parcela da sociedade.


Além disso, era um grupo formado por mulheres que performavam feminilidade na aparência, roupas e comportamento. Por um lado, isso quebra o estereótipo que perdurou até o final do século XX, onde a representação lésbica eram mulheres feias, cafonas, assexuadas e butches (termo designado às lésbicas que performam masculinidade). Por outro, se distancia do real, onde temos diversidade na maneira como lésbicas se expressam. De acordo com Agostini (2010), as personagens criadas na série atendem a fantasia masculina, além de serem, em sua maioria, mulheres brancas. 

Geração Queer

Dez anos depois do último episódio da primeira geração, The L Word retorna com o subtítulo Generation Q. A série veio com a promessa de ser mais política e diversa. Trouxe três personagens da primeira fase: Shane, Bette e Alice. Além delas, a trama conta com outros personagens que representam exatamente o que está proposta pela nova geração: diversidade.


A Generation Q estreou no dia 8 de dezembro de 2019 pela Showtime e tem a mesma pegada da primeira geração. Mulheres lésbicas e poderosas vivendo suas vidas em Los Angeles. O plus está mesmo nos novos personagens, que por serem tão diversos trazem uma perspectiva diferente para as novas tramas.

Aparentemente a série gira em torno das antigas personagens e os novatos acabam se interligando neste arco central. Alice é apresentadora de um programa de TV, onde conta com a assistência de Finley (Jacqueline Toboni) e Sophie (Rosanny Zayas). Bette é candidata à prefeitura de Los Angeles e contrata Dani (Arienne Mandi) para ser sua assessora. Dani e Sophie vão se casar e são amigas de Finley. E tem também o Micah (Leo Sheng), que é amigo da Dani, Sophie e Finley. E Shane tem um bar lésbico onde todos os personagens se encontram. É um mundo pequeno.


O diferencial de The L Word: Generation Q está nos arcos narrativos e nas questões abordadas pelos novos personagens. Micah é asiático, homem transexual e se relaciona com um rapaz. As noivas Dani e Sophie são latinas e tentam conquistar a aceitação do pai da Dani. Finley é a personagem que mais se aproxima do real, pois tem problemas financeiros, tem questões com a família por conta da sexualidade e, junto com Shane, faz parte da pequena parcela de lésbicas que performam masculinidade na série. Além desses personagens, tem também a adolescente Angie (Jordan Hull), filha de Bette e Tina, uma menina negra que lida com a homofobia sofrida pela mãe durante a campanha da sua candidatura e tem uma namoradinha.

Além dessas questões, a série mostra também tipos diferentes de relacionamentos. Alice mora junto com a namorada e os filhos dela. Raramente é falado na televisão de mulheres que têm filhos e constroem uma nova família. Em certo momento da trama, as duas formam um até “trisal” com Gigi (Sepideh Moafi), ex de Nat (Stephanie Allynne) que é atual da Alice, que no final acaba não dando certo.


Generation Q veio para contornar alguns equívocos do passado de The L Word. Além desses protagonistas, a série está repleta de personagens negros, latinos e outras representações LGBTQ. O lado negativo dessa nova temporada, e repercutida principalmente pelos fãs da atração, é algo que também aconteceu na primeira geração: muitas traições. Afinal, por que tantas traições nos relacionamentos? Talvez essa seja uma questão que as roteiristas irão tentar contornar nas próximas temporadas, já que a série foi renovada.

The L Word é até hoje a única série feita para lésbicas. Outros personagens surgiram na ficção seriada estadunidense, foram importantes, mas The L Word se dedicou a apenas esse público. O sucesso da trama pode estar relacionado ao fato de abordar questões específicas às lésbicas e também questões universais a todos (WARN, 2006). O fato é que a série teve um papel importante na construção da imagem de mulheres lésbicas na TV e também na identificação de milhares de telespectadoras, que não se sentiam representadas pelas lésbicas caricatas.

A nova geração além de acrescentar outros grupos, traz também uma sensação de nostalgia. O programa que muitas mulheres assistiam escondidas de suas famílias durante a adolescência, hoje pode ser assistido na TV da sala de estar durante a tarde por muitas delas. The L Word impactou uma geração e está disposta a impactar outras gerações, sendo uma série que muitas minorias podem se encontrar.

Referências

AGOSTINI, A. Lésbicas na TV: The L Word. São Paulo: Malagueta, 2010. 

APPLE TV+, Visible: Out on Television, 2020.

WARN, S. Introduction. In: AKASS, K.; MCCABE, J. (orgs.). Reading The L Word. New York: I.B. Tauris, 2006. p. 1-8.


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