A desconstrução em Moonlight: da heteronormatividade a aceitação


O retrato severo de uma vivência em filmes que expõem questões sociais é uma tarefa complexa e que precisa ser tratada com uma expressiva cautela. Como Souza e Rambaldi (2018) apontam, a particularidade de cada um, principalmente das minorias sociais, por muito tempo é retratada em Hollywood com a perpetuação de estereótipos que traduzem estigmas que foram reforçados pelas classes dominantes. Filmes como “À Espera de um Milagre” (1999) ou “Todo Poderoso” (2003) carregam consigo um dos variados tipos de estereótipo do homem negro, o “negro mágico”. Mas e se o recorte for ainda mais específico na retratação de um homem negro, gay e pobre? 

A história de um LGBT vista pelos olhos de Hollywood nunca foi algo para se orgulhar de fato. Entretanto, gays e lésbicas sempre estiveram presentes no cinema, podendo chamar esse acontecimento de “desejo homossexual no cinema” (NAZARIO, 2007, p. 94). O que acontece é que os gays e lésbicas raramente eram representados na grande tela, e a grande indústria somente sugeria a sua existência em suas produções. Enquanto isso, atores e atrizes eram forçados a criar uma identidade e atuar, dentro e fora da tela, enquanto escondiam o seu verdadeiro eu. 

Forçando estereótipos, Hollywood inventou uma falsa representação, e nos anos de 1930, surge a “homossexualidade sob a forma de alusões maliciosas” (NAZARIO, 2007, p. 96), como o filme “Just Imagine” (1930), de David Butler. Apesar disso, as décadas de 20 e 30 foram uma época onde a liberdade sobrepujava em erotismo, em que a nudez era constante nas mais variadas produções. Esse movimento foi rapidamente reprimido pela igreja, fazendo com que Hollywood propusesse novos códigos morais para suas produções. 

As liberalidades dos anos de 1920-1930 foram reprimidas pelas Igrejas que, preocupadas com a moral, impuseram em Hollywood o Código Hays, impedindo que a simpatia do público fosse dirigida para o lado do crime, do erro, do mal e do pecado. O cinema devia mostrar modelos de vida corretos e respeitar as leis divinas, natural e humana. A exposição da violência era limitada ao máximo; desestimulava-se abordar suicídio, uso de drogas, rapto de crianças, crueldade contra animais; homossexualidade, sexo ilícito e adultério estavam proibidos: as instituições do casamento e do lar sendo sagradas, não se aceitavam relações casuais ou promíscuas. Danças, alusões, gestos e palavras obscenas estavam banidos, assim como a nudez de fato ou em silhueta. [...] Contudo, pelo efeito mesmo dessa repressão, Hollywood acabou criando um universo que, por sua natureza anti-realista, era mais estimulante para a fantasia erótica – para toda fantasia – que a dessublimação repressiva que viria com o fim do Código (NAZARIO, 2007, p. 97) 

Avançando sobre os estereótipos e clichês, a adoção de modelos que reprimiam homossexuais se tornou comum, e tivemos retratações de gays depravados, ligados a condutas imorais e perversas, lésbicas monstrificadas, drags, ou representações mal feitas de transexuais como assassinos perversos, e, tentando dizer que a arte imita a vida, em quase todos eles o fim desses personagens era o mesmo, a morte trágica. O sofrimento era algo constante na retratação desses personagens, e ainda hoje é sugerido com certa forma de estereotipização. Entretanto, graças a grandes atos como a “Revolta de Stonewall” em 1969, os avanços foram sendo dados em suas representações e filmes como That Certain Summer de 1972 passaram a contar histórias de amor entre homens e entre mulheres sem carregar consigo tragédias ou estereótipos criados pela cultura heteronormativa. Avançando nessa cronologia, em 2005 o filme “O Segredo de Brokeback Mountain” surge para retratar a homossexualidade com menos tabus e estereótipos, sendo aclamado e alcançando a grande massa se consagrando como um grande ato do cinema da cultura pós-gay. Hollywood viu aí um novo grande público, e viu que é possível lucrar na retratação da homossexualidade sem a forçação de clichês. 

Dando um salto no tempo, lançado em 23 de fevereiro de 2017 e produzido por Barry Jenkins, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” é um filme estadunidense do gênero drama que conta a história de Chiron, um homem negro que vive em Liberty City - Miami. Chiron é filho de Paula, mãe solteira e viciada em drogas. Eles são pobres e vivem em um bairro dominado pelo tráfico, o que já levanta o debate sobre diversas questões sociais que traçam um grande paralelo com a realidade. O filme além de contar com o drama, é construído dentro de um gênero cinematográfico chamado coming of age. Segundo Relvas (2018) esse gênero é aquele que acompanha a jornada de um personagem rumo ao amadurecimento ou um arco narrativo de evolução. E por que isso seria tão importante aqui? Porque em Moonlight acompanhamos a dura vivência de Chiron e a construção da sua personalidade, bem como a desconstrução dos preconceitos que o permearam durante toda sua vida por conta dos vários recortes sociais que o seguem. 

O filme é uma adaptação do texto In moonlight black boys look blue, escrito por Tarell Alvin McCraney, um homem negro e gay que transformou parte da sua vivência nessa peça. Jenkins se sentiu atraído por ter uma vivência semelhante a de McCraney, e mesmo sendo heterossexual, decidiu embarcar nessa adaptação de cabeça ao escrever profundamente sobre a evolução e os percalços do homem negro e gay em uma sociedade racista, homofóbica e heteronormativa. 

Neste contexto, podemos observar que a retratação do personagem foi feita através de um conceito denominado mimético baixo. Tal conceito foi cunhado pelo crítico canadense Northrop Frye em 1969. Mimético baixo são ficções que se desenvolvem a partir de roteiros sobre personagens que são iguais aos seres humanos e ao seu ambiente (FRYE, 1969). A fuga dos estereótipos e o retrato de uma vivência que pouco é mostrada, fazem de Moonlight um filme representativo e pessoal, por dar voz a uma minoria silenciada por vezes pela própria voz. 

A desconstrução do personagem em três atos 

A obra é dividida em três atos “Little; Chiron; Black”. O primeiro ato mostra Little (como Chiron é chamado) como uma criança de 9 anos que é excluída socialmente da sua comunidade por ser “diferente”. Ele não possui um comportamento másculo, é recluso na escola e sofre bullying tanto de sua mãe, quanto dos colegas da sua idade. Ele então conhece Juan, o chefe do tráfico da região. Ao contrário do que nossos pré-conceitos deduzem, Juan é um homem sensível e que passa a ensinar e conversar com Chiron sobre suas confusões morais. Acompanhado de Tereza, sua esposa, eles acolhem Chiron e mostram um caminho para ele, que até então nunca havia sido oferecido. O caminho do afeto e da aceitação de si mesmo é o primeiro passo em direção a desconstrução dos valores heteronormativos que constituem aquela sociedade. 

A construção dos personagens evidencia mais um traço interessante do filme de Jenkins. Raramente há uma generalização e/ou “estereotipação” dentro da composição dos personagens. Algo que acontece com filmes desta temática e poderia facilmente ter acontecido com este. Insistir em que histórias sobre grupos de pessoas pobres, oprimidas ou de outra forma marginais são sobre todos, é uma forma de negar suas particularidades. E o diretor faz justamente o contrário. Ele não generaliza. Ele simpatiza. (ALVES, 2017, Online) 

Em Moonlight, temos a retratação do homem que é visto em camadas sociais inferiores, o homem negro, o gay, o sem renda. Hollywood encontra aqui uma nova forma de representação, que pouco havia sido mostrada, e os frutos que isso traria, renderia, entre eles, o Oscar de melhor filme em 2017. 


No segundo ato temos um Chiron de 16 anos com os conflitos da adolescência cada vez mais intensos. Seu convívio social volta a ser distante após a morte de Juan, levando a única figura paterna que o protagonista tinha para longe. Os problemas com sua mãe se tornam piores, seus colegas de escola continuam com o bullying, e Chiron não sabe como entender os próprios sentimentos, principalmente agora que a única pessoa que o direcionava para fora da bolha heteronormativa se foi. 

Kevin é um amigo de infância de Chiron, e ele ainda é o único que enxerga a diferença no seu amigo. Nesse ato ele acaba por trazer à tona o momento que é talvez o mais importante de toda a trama, a primeira experiência homoafetiva de Chiron. Em uma cena extremamente sensível, vemos como o protagonista é inseguro e não compreende totalmente o porquê disso. “Tá se desculpando porque?” diz Kevin após Chiron pedir desculpas pelo beijo. Isso porque Juan, apesar de ter tentado expor Chiron aos seus sentimentos, jamais poderia dar para ele o que Kevin deu, a experiência e a descoberta da sua desconstrução social, do seu estigma, da sua sexualidade. 

Mas o que é visto como um momento de pura harmonia e delicadeza, acaba ruindo em um momento de completa ruindade e agonia, quando por pressão dos outros meninos da escola, Kevin precisa bater em Chiron. Tudo ali pareceu confuso, e a toxicidade da masculinidade, bem como todos os problemas que sempre cercaram Chiron, como o bullying, acabam por se tornar palpáveis através dos socos do seu melhor amigo. Sentado de frente para a diretora, após ela o chamar de “garoto” ela questiona “se você fosse um homem haveria quatro valentões sentados aqui com você” e ele desaba em lágrimas, já que Chiron está sentado ali justamente porque ele não é visto como um homem pelos outros meninos. Esse acúmulo de mágoas faz com que o protagonista tome medidas drásticas atacando quem sempre o atacou, e é aí que ele percebe uma coisa, que para sobreviver em meio a esse mundo, ele precisa abrir mão de ser quem é e se tornar o que as pessoas esperam quem ele seja. 


Partimos então para o terceiro e último ato, e descobrimos que Chiron se tornou Black, um homem viril, másculo, forte, chefe do tráfico de Atlanta. Ele se entregou ao estereótipo, se tornou parte de um sistema normativo pois viu que somente assim ele seria capaz de sobreviver. Assumir um papel heteronormativo como forma de autoproteção é uma via explorada por pessoas que exercem atividades vistas como masculinizadas diante da sociedade, como explicam Souza e Rambaldi (2018)., 

Em diversas passagens, o filme deixa claro o sofrimento emocional experimentado. Obviamente este sofrimento é vivido na adolescência do personagem e acompanhado por situações de humilhação, vergonha, depreciação, em sua comunidade, por ser diferente de seus colegas que vivem uma cultura heteronormativa. Já na fase adulta, o personagem experimenta o sofrimento da invisibilidade da cultura LGBTI, e subjetivamente percebe-se que o mesmo assume o papel de homem masculino heteronormativo como forma de autoproteção social, seja na comunidade onde vive, ou seja em sua atividade laboral, como traficante de drogas, haja vista que determinadas atividades laborais exigem uma postura masculinizada, segundo a cultura heteronormativa. (SOUZA; RAMBALDI, 2018, p. 8) 

Entretanto, mesmo com uma carcaça aparentemente impenetrável, Black carrega consigo os traumas e as marcas do seu passado, lidando com o fato de não poder ser quem ele acredita ser. Como a ironia se encontra nos mínimos detalhes, em certa noite Kevin surge ao telefone de Black, propondo assim um reencontro. Ele volta então para Miami, e agora como a figura máscula que aquela comunidade sempre esperou que ele fosse. Kevin parece não acreditar no que Chiron se tornou, ou melhor, no que a sociedade fez com ele se tornasse. Uma longa conversa se desdobra, e ao irem para casa de Kevin, Black finalmente conta que ele foi o único “cara” que o tocou. O peso dessa sentença é sucedido pela total libertação de seus estigmas quando Chiron termina o longa nos braços de Kevin. Então ironicamente, aquele que tragicamente tornou Chiron vítima da heteronormatividade tóxica, foi aquele que o desconstruiu disso. 


Flutuando nos braços de Kevin, chegamos ao fim da jornada de Chiron, e percebemos que essa não é uma jornada individual, quando esse é o retrato de inúmeros homens negros gays marginalizados, que são constantemente oprimidos dentro do próprio recorte. O sentimento que fica é de que a desconstrução é como flutuar em um mar revolto, enfrentando os percalços da vida, logo após a tempestade vem a calmaria. 


Referências: 

ALVES, João. “Moonlight: Sob a Luz do Luar” e o retrato da masculinidade do homem negro. Medium. Online, 2017. Disponível em: <https://cutt.ly/LydcZhd>. Acesso em: 3 jun. 2020. 

FRYE, Northrop. Anatomy of Criticism. New Jersey: Princeton U. Press, 1957 

NAZARIO, Luiz. O outro cinema. Aletria. v. 16, p. 94-109, 2007. Disponível em: <https://bit.ly/36UCjRI>. Acesso em: 3 jun. 2020. 

RELVAS, Lariza. Amizade Como Modo de Vida no Cinema Coming Of Age: A Identidade Feminina Fluida em Garotas. 62f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Cinema e Audiovisual), Instituto de Arte e Comunicação Social, Universidade Federal Fluminense, 2018. Disponível em: <https://app.uff.br/riuff/handle/1/12456>. Acesso em: 3 jun. 2020. 

SOUZA, Marlos; RAMBALDI, Mariana. “Moonlight – sob a luz do luar” e o sofrimento emocional de homossexuais. Revista Trabalho (En)Cena, v. 3, n. 3, p. 172 - 186, 2018. Disponível em: <https://bit.ly/303uA2v>. Acesso em: 3 jun. 2020. 


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