(IN)visibilidade em k-dramas?


Muito tem se falado sobre os doramas, tanto é que em abril deste ano, rolaram boatos sobre a suposta morte do líder norte-coreano Kim Jong Um, e uma das imagens que apareceu durante a notícia veiculada na CNN Indonésia foi do ator sul-coreano Hyun Bin. Mas por quê isso? Será que o sucesso do k-drama “Crash Landing on You” apresentando o ator Hyun Bin como capitão Ri Jeong Hyuk das forças armadas norte-coreana foi tão convincente assim? 

Hyun Bin aparentemente está tão convincente como um oficial norte-coreano que a CNN Indonésia acidentalmente o incluiu em um gráfico de Kim Jong Un, embora o próprio Hyun Bin seja totalmente sul-coreano! 

Ocasionado pela onda coreana, as produções televisivas do Leste e Sudeste asiático têm que espalhado por todo o mundo, principalmente os k-dramas e k-pop. Recentemente, este tipo de produção ganhou também adeptos entre a comunidade de fãs da Hallyu Wave, através do trabalho dos fansubs e agora com a crescente distribuição feita pela plataforma de streaming Netflix. 

Uma das produções que chamou bastante atenção este ano foi “Itaewon Class”, exibida entre os meses de janeiro e março pelo canal a cabo sul-coreano JTBC (Joongang Tongyang Broadcasting Company) e distribuída mundialmente pela Netflix. O sucesso desse drama pode ser observado em diversas métricas, atualmente a atração ocupa o 7° lugar com maior audiência para um canal a cabo, com 16.5% de audiência em todo o país, e 18,3% só na região de Seul, capital da Coreia do Sul durante o seu último episódio que foi ao ar em 21 março.

De acordo com a sinopse disponível na plataforma de streaming Netflix, o k-drama “Itaewon Class” é “[Em] um animado bairro de Seul, um ex-presidiário e seus amigos precisam encarar uma concorrência poderosa para concretizar o sonho de ter um bar de rua” (NETFLIX, 2020). 


A população sul-coreana consiste em aproximadamente 51 milhões de habitantes, sendo 4% da população composta por imigrantes e estrangeiros, enquanto os nascidos no exterior compõe quase 1 milhão de pessoas. De acordo com Yoo (2012, p. 56), o país é ainda uma sociedade que está se movendo gradualmente na direção de uma comunidade multicultural. Em contraposição, Yoo (2012, p. 56) afirma ainda que o país “[...] preserva uma etnia centrada na cultura do puro sangue” [1] , apesar do tratamento que eles possuem com imigrantes, estrangeiros e mixed-raced. Suzuki (2020, p. 2) pontua que “representações na mídia tem o poder de inventar, estabelecer e disseminar ideologias, que por sua vez podem criar desejos e expectativas potencialmente mudando as práticas contemporâneas” [2]. 

Nesse sentido, as produções de dramas de TV ainda abordam temáticas “[...] como relacionamentos românticos e familiares, contextos históricos nacionais, o dia a dia no emprego ou no âmbito escolar” (VINCO; MAZUR; URBANO, 2014, p. 3). Vinco, Mazur e Urbano (2014, p. 7) apontam que o sucesso das produções sul-coreanas é ocasionado pela “dimensão híbrida, tanto com suas influências asiáticas, quanto com os ocidentais” . 

Quanto ao sucesso e a popularização das tramas, a internet tem sido grande aliada nos interesses do público: 

O consumo dos dramas de TV asiáticos no Brasil, portanto, mostra-se intensificada graças a uma cultura participativa e o trabalho fundamental na construção de uma relação de fã para fã. Com o pouco espaço destinado aos dramas asiáticos pela TV brasileira, a internet tornou-se o meio principal para a circulação dessas produções, como também por oferecer diferentes possibilidades para o engajamento dos usuários com seus objetos de consumo. (VINCO; MAZUR; URBANO, 2014, p.13) 

Figueiredo e Sousa (2019) complementam que a disseminação de produtos midiáticos de culturas distintas e regiões afastadas são propiciadas pelo processo de globalização e pela web 2.0

A internet, considerado o principal meio de comunicação utilizado pela maioria da população mundial possibilita a visita, a distância, a diversos lugares, diversas pessoas, realidades sociedades e culturas, até mesmo de países distantes como os países que fazem parte da Ásia. (FIGUEIREDO; SOUSA, 2019, p. 40) 

Os autores consideram a cultura coreana como um fenômeno midiático, que disseminam seus filmes, músicas, quadrinhos, jogos, cosméticos, moda, produtos de tecnologia digital, dramas de TV que são considerados produtos que caracterizam a essência dessa cultura, formando assim, uma comunicação intercultural nos fãs que desejam conhecer a Coreia do Sul. 


Essa difusão cultural ocasionado pela k-wave, consequentemente pelos k-dramas, coloca o país como foco de turistas. Lee (2015, p. 350) aponta que as produções audiovisuais contribuem para o turismo, através dos cenários dos locais onde ocorrem as tramas, como pontos de atração turística. 

Contudo, a sociedade coreana ainda considerada “pura”, propõe essa interculturalidade entre os apreciadores dos k-dramas ou na onda coreana no geral, mostrando ao mundo como o multiculturalismo está presente através do drama “Itaewon Class”. Ele quebra esse tabu de tramas com romances clichês e aborda temáticas polêmicas como preconceitos e pessoa transgênero. O enredo mostra como os ex-presidiários são inseridos na sociedade a forma como são tratados, a desigualdade de classe e o poder dos mais favorecidos, o racismo através do personagem negro que é coreano, mas as pessoas só enxergam a cor da sua pele e a personagem transgênero, que além de mostrar a sua transição, aborda os desafios e superações diante dessa sociedade conservadora. 

O drama de sucesso Itaewon Class, estrelado por Park Seo-joon, Kim Da-mi, Yoo Jae-myung e Kwon Nara, não é o primeiro drama a apresentar um personagem transgênero, mas pode ser o primeiro a celebrar a transição de um personagem. Como um drama com forte foco no amor e na aceitação, o roteiro enfatizou a coragem necessária para que os transgêneros reivindicassem o gênero em que se sentem mais confortáveis. (MACDONALD, ONLINE, 2020)[3] 


Em pesquisa feita sobre os valores tradicionais do Confucionismo (ZHANG et al., 2005), a qual essa influência se estrutura na cultura coreana, mesclando a tradição e modernidade em suas narrativas televisivas (VINCO; MAZUR; URBANO, 2014, p. 7), mostra que os três valores culturais – harmonia interpessoal, relação de hierarquia e conservadorismo tradicional –, sendo este último o menos presente na pesquisa feita com jovens de alguns países do Leste Asiático, pondo em xeque essa cultura enraizada no imaginário das pessoas, sendo evidente a “mudança cultural em uma era de modernização e globalização” (ZHANG et al., 2005, p. 113) [4]. 

Com isso, compreendemos que as limitações idiomáticas e culturais não são um empecilho em meio a disseminação da onda coreana, que abarca o multiculturalismo. Vale lembrar que os k-dramas e k-pop andam lado a lado nessa difusão cultural, sendo assim, have a “sweet night”! 



Notas 

[1] Preserve an ethnically-centered “pure-blood culture”. 

[2] Representations in the media have the power to invent, establish and disseminate ideologies, which in turn can create desire and expectations potentially shifting contemporary practices. 

[3] The successful drama Itaewon Class, starring Park Seo-joon, Kim Da-mi, Yoo Jae-myung and Kwon Nara, is not the first drama to feature a transgender character, but it might be the first one to celebrate a character’s transition. As a drama with a strong focus on love and acceptance, the script has emphasized the courage required for transgender individuals to claim the gender they feel most comfortable in. 

[4] Cultural change in an age of modernization and globalization. 

Referências: 

FIGUEIREDO, D.; SOUSA, H. Serviços de streaming e a popularização de dramas asiáticos por fãs brasileiros. Acta Scientia, Paraíba, v. 1, n. 1, p. 40-49, jan./jun. 2019. Disponível em: <http://periodicos.iesp.edu.br/index.php/actascientia/article/view/221>. Acesso em: 3 jun. 2019. 

LEE, W. The Effects of the Korean Wave (Hallyu) Star and Receiver Characteristics on T.V Drama Satisfaction and Intention to Revisit. International Journal of u- and e- Service, Science and Technology, Australia, v .8, n. 11, p.347-356, 2015 Disponível em: <http://dx.doi.org/10.14257/ijunesst.2015.8.11.34>. Acesso em: 6 mai. 2020. 

MACDONALD, J. Transgender Character In ‘Itaewon Class’ Reflects Changing Attitudes In South Korea. Forbes, Online, 2020. Disponível em: <https://www.forbes.com/sites/joanmacdonald/2020/03/11/transgender-character-in-itaewon-class-reflects-changing-attitudes-in-south-korea/#7f719ca94112>. Acesso em: 4 mai. 2020. 

SUZUKI, S. Introduction to Special Issue: Language, Nationalism, Love, and Gender Roles in the Japanese Morning TV Drama Massan. Japanese Studies, Online, 2020. Disponível em: <https://doi.org/10.1080/10371397.2020.1730164>. Acesso em: 6 mai. 2020. 

VINCO, A; MAZUR, D; URBANO, K. Fãs, mediação e cultura midiática: dramas asiáticos no Brasil. Anais... I Jornada Internacional GEMInIS Entretenimento Transmídia, São Carlos, 2014. Disponível em: <http://geminisufscar.com.br/jig2014/download/fas-mediacao-e-cultura-midiatica-dramas-asiaticos-no-brasil/> Acesso em: 3 jun. 2019. 

YOO, K. Itaewon, “The Global Village”: Diagnosing Korean Multiculturalism through its Dystopian Blueprints. Situations, v. 6, , p. 2012. Disponível em: <https://web.yonsei.ac.kr/bk21/situations6/yoo.pdf>. Acesso em: 8 mai. 2020. 

ZHANG, Y. et al. Harmony, Hierarchy and Conservatism: A Cross-Cultural Comparison of Confucian Values in China, Korea, Japan, and Taiwan. Communication Research Reports, v. 22, n. 2, p. 107-115, 2005. Disponível em: <https://doi.org/10.1080/00036810500130539>. Acesso em: 8 mai. 2020.


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