Audiência ou assinatura? A Onda Hallyu atinge a Netflix


Para Castellano e Meimaridis 2016, p. 196) “[...] o cenário televisivo contemporâneo é marcado por uma imensa produção e um intenso consumo de narrativas ficcionais seriadas”, sendo as produções da plataforma estadunidense de streaming – Netflix, tem se popularizado nos últimos anos como o principal serviço de entretenimento por internet do mundo. De acordo com a própria empresa, o número de assinantes teve um aumento em 9,6 milhões de contas só no primeiro trimestre de 2019, sendo mais de 151 milhões de assinantes pagas em mais de 190 países assistindo a séries, documentários e filmes de diversos gêneros e idiomas. 

Assim como a expansão da Netflix, os k-dramas têm se tornado cada vez mais populares entre os brasileiros, causado também pela febre do k-pop. Tal interesse é ocasionado pela conexão dos dramas com outras indústrias de entretenimento, que visam formar artistas multifuncionais para atuarem como modelos, cantores, dançarinos, atores e apresentadores, através de colaborações, principalmente pela presença dos idols. Em outras palavras, “[...] sujeitos multitalentosos que permeiam as mídias e se adequam ao meio em que estão inseridos, fortalecem essas colaborações, conseguindo atingir resultados significativos frente ao público para ambos os produtos” (SANTOS; A, SANTOS, 2018, p. 5). 

Em 2016 a Netflix anunciou os dramas sul coreanos em seu catálogo como uma forma de apoiar a expansão da onda Hallyu pelo mundo: 

No início desse ano, o co-fundador e presidente executivo da Netflix, anunciou oficialmente a estreia da rede no mercado coreano. Desde então, o número de produções coreanas no catálogo da Netflix vem se expandindo. Presente em mais de 130 países, Netflix chega agora ao mercado coreano e promete não só ampliar seu conteúdo como também ser um dos grandes aliados na propagação da Onda pelo mundo. (FIGUEIREDO; SOUSA, 2019, p. 46) 

A crescente expansão do serviço de streaming e a febre coreana pelo mundo, é notável o número de aumento de títulos asiáticos em seu catálogo: Atualmente, são 173 títulos disponíveis na categoria TV Asiática. O Netflix transmite alguns títulos que estão em exibição nas tvs asiáticas, atraindo assim os fãs para o serviço (FIGUEIREDO; SOUSA, 2019) 

Porém, apenas em 2018 que a empresa de serviço de streaming iniciou a produção do conteúdo exclusivo coreano. Baseado no webtoon (termo utilizado para descrever quadrinhos sul-coreanos que são publicados online) Love Alarm, um mundo onde um aplicativo avisa seus usuários se alguém por perto gosta deles, Kim Jojo descobre o amor e encara as adversidades da vida. 


A disponibilização de todos os episódios de uma vez alterou o modo como os arcos narrativos se organizam nos doramas. As tramas, em geral,possuem arcos grandes que se abrem no primeiro episódio e se fecham no último, dando pouco espaço para a continuação da narrativa em outras temporadas. Entretanto, as produções exclusivas da Netflix têm deixado o arco narrativo com uma brecha no episódio final dos dramas. Dessa forma, o que observamos é uma mudança em uma das principais características dos doramas, ou seja, a perpetuação dos arcos na temporada e, não, nos episódios: 

Os dramas asiáticos se destacam por contar histórias com focos bastante direcionados, lidando com poucos núcleos de personagens, e é por isso que seus arcos são formatados para se fecharem depois de uma certa quantidade de episódios previamente escolhida. (MADUREIRA; MONTEIRO; URBANO, 2014, p.8) 

Além disso, outro ponto marcante dos doramas é a quantidade de episódios e sua duração. Cada trama apresenta de 16 ou 20 episódios com duração média de 1 hora ou 32 ou 40 episódios com duração média de 30 minutos cada. As produções recentes da Netflix como Love Alarm (2019) e Arthdal Chronicles (2019) fogem dos formatos tradicionais dos dramas de TV. Por exemplo, a recém lançada (apesar do atraso de quase 1 ano na estreia), Love Alarm possui apenas 8 episódios com duração média de 1 hora; o último lançamento da terceira temporada de Arthdal Chronicles, com 6 episódios cada temporada e duração média de 1 hora e 20 minutos. 


É notável que a Netflix esteja mudando o formato que caracteriza um drama sul coreano para aumentar o engajamento atingindo um público que vem descobrindo sua paixão pelos doramas. Porém, será que essa mudança feita pela plataforma no formato das produções tem agradado os dorameiros de plantão? As narrativas são ótimas, mas os desfechos incertos, a pausa de uma temporada para outra com poucos episódios, particularmente não me agrada. Em uma rápida busca usando como exemplo “Love Alarm” no grupo do Facebook Uma Dose de Dorama, é notável que boa parte dos fãs estão descontentes com o final da temporada em aberto, principalmente pela forma como a Netflix lança a produção e aguarda um feedback do público para ver se dará sequência ou não: “DESABAFAO TOTAL...Gente eu estou desolada com a dona Netflix, como ela me faz um final daquele sem direito a 2 temporada logo em seguida, Love Alarm me deixou aos prantos 😭😭” e “O único defeito desse dorama é que a temporada acaba na melhor parte (aff esta Netflix sendo tóxica)”, mas há outros que discordam, como “Sobre uma outra temporada, não sei se as pessoas sabem, mas pra escrever uma história/roteiro se exige tempo. A Netflix não sabia nem se ia dar certo a primeira temporada, então não tinha como investir numa segunda temporada e já deixar preparada pros apressadinhos. Eu comecei assistindo série americana, e sou muito tranquila com a questão de esperar um ano ou até mais pra assistir uma nova temporada... GAME OF THRONES, GREYS ANATOMY, dentre outras. Acho só que a galera tem que ter mais paciência. Tem tanto drama completo já aí e a galera quer por que quer uma temporada amarrada na outra. Eu hein.”.Até mesmo entre os fãs, nota-se a diferença nas produções sul coreanos com o envolvimento da Netflix, mas será que esse modo de produção e distribuição de ficção seriada estadunidense conseguirá prender os dorameiros? 


Referências 

ALECRIM, E. Netflix já acumula 149 milhões de assinantes e diz não temer Disney+. Disponível em: https://tecnoblog.net/286368/netflix-primeiro-trimestre-2019-resultados/. Acesso em: 3 out. 2019. 

CASTELLANO, M; MEIMARIDIS, M. Netflix, discursos de distinção e os novos modelos de produção televisiva, Contemporanea – Revista de Comunicação e Cultura, v. 14, n. 2, p.193-209. Disponível em: https://portalseer.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/article/view/16398. Acesso em: 3 out. 2019. 

FIGUEIREDO, D;SOUSA, H. Serviços de streaming e a popularização de dramas asiáticos por fãs brasileiros. In Revista Acta Scientia, v.1, n. 1, p. 40-49, 2019. Disponível em: http://periodicos.iesp.edu.br/index.php/actascientia/article/view/221. Acesso em: 3 out. 2019. 

MADUREIRA, A; MONTEIRO, D, URBANO, K. Fãs, Mediação e Cultura Midiática: Dramas Asiáticos no Brasil. Anais...I Jornada Internacional GEMiniS: Entretenimento Transmídia, São Carlos, 2014. Disponível em: https://www.academia.edu/9152520/F%C3%A3s_Media%C3%A7%C3%A3o_e_Cultura_Midi%C3%A1tica_Dramas_Asi%C3%A1ticos_no_Brasil. Acesso em: 3 jun. 2019. 

SANTOS, A; SANTOS, A. Audiovisual nas novas mídias – Dramas sul-coreanos no Brasil. Anais... III Jornada Internacional GEMiniS: Entretenimento, transmídia, plataformas, São Paulo, 2018. Disponível em: https://www.doity.com.br/anais/jig2018/trabalho/82227. Acesso em: 3 out. 2019. 


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