Sandor Clegane: Herói ou vilão?


Nascido no mundo fictício de Westeros, Sandor Clegane, conhecido também como o Cão de Caça, é um personagem bastante controverso da série Game of Thrones (2011-2019, HBO). A trama surgiu a partir dos livros do norte-americano George R. R. Martin, que criou um mundo medieval, onde famílias nobres e poderosas disputam um jogo mortal para assumir o trono de ferro e controlar os sete reinos de Westeros. 

Clegane pertence a uma família vassala da Casa Lannister e, devido a sua característica lealdade, obedece a todas as ordens recebidas sem questionar. Os Lannisters são conhecidos pela sua ambição por poder e temperamento cruel. Embora em sua jornada Sandor tenha corroborado com a crueldade da família a que servia, e até mesmo a própria, em inúmeras situações ele teve atitudes heroicas, fazendo com que a percepção sobre seu personagem se transformasse. Muitas vezes passando de vilão para herói. 

Sua infância foi marcada por traumas. Quando era criança, seu irmão mais velho, Gregor Clegane, conhecido como o "Montanha", esfregou seu rosto num braseiro, o que deixou um lado da sua face desfigurada. Consequentemente, o Cão teme o fogo e odeia seu irmão. Apesar de ser considerado um dos guerreiros mais perigosos e habilidosos de Westeros, movido pela raiva e pelo ódio, Sandor se difere dos outros personagens pois demonstra sentimentos humanos, tornando-o carismático. 

Sandor Clegane e Arya Stark 

A partir deste contexto, iremos analisar a posição de anti-herói de Sandor Clegane em relação a Arya Stark, a mais nova da casa Stark. Para compreender essa relação, é necessário entender também como decorreu a primeira interação existente entre os dois personagens. Arya Stark é filha de Edded e Catelyn, tem 4 irmãos: Robb, Sansa, Bran e o bastardo Jon Snow. Eles são a principal família do norte e vivem em Winterfell, castelo considerado capital do norte. 

A relação entre Sandor e Arya é uma das mais marcantes e apreciadas pelo público de Game of Thrones. O primeiro contato deles aconteceu durante a primeira temporada da série, quando Clegane acompanhou a família Lannister em uma viagem ao norte, já que era guarda pessoal do arrogante príncipe Joffrey Baratheon, que tinha certo interesse em Sansa Stark, irmã mais velha de Arya. Durante uma caminhada na floresta com Sansa, Joffrey flagrou Arya e seu amigo Mycah "lutando" com espadas e, após ser rude com os garotos, acabou sendo ferido por Nymeria, lobo gigante da caçula dos Starks. O episódio enfureceu Cersei Lannister, mãe do príncipe, e Joffrey culpou Mycah pelo acontecido. Cersei ordenou que Sandor matasse o garoto e o Cão prontamente atendeu seu pedido, se tornando um dos principais inimigos de Arya Stark, que jurou se vingar da morte de Mycah com as próprias mãos. 

Na segunda temporada de Game of Thrones, lançada em 2012, Clegane lutou bravamente na Batalha de Blackwater do lado dos Lannisters, a quem servia, para proteger a cidade de Porto Real do ataque realizado por Stannis Baratheon e sua frota. Durante o conflito, Tyrion Lannister usou explosivos para incendiar os navios e soldados de seus inimigos, fazendo com que Sandor ficasse horrorizado com a cena, devido ao trauma sofrido na infância quando teve um lado do seu rosto queimado pelo irmão, então ele acabou fugindo da cidade. 

O segundo encontro de Sandor com Arya aconteceu na terceira temporada, exibida em 2013. Em sua fuga, Clegane foi parar nas Terras Fluviais, onde foi aprisionado pela Irmandade sem Bandeira, que também tinham Arya Stark como prisioneira. Ele revelou a verdadeira identidade da menina e ela testemunhou a acusação de que ele tinha matado seu amigo Mycah sem nenhum motivo. O líder do grupo, Ser Beric Dondarrion, setenciou o Cão a um julgamento por combate, onde ele mesmo lutou, e Clegane venceu, ganhando sua liberdade. Mais tarde ele sequestrou Arya, que tentava fugir da Irmandade, para conseguir um resgate com Robb Stark, que agora era Rei do Norte, depois que Edded Stark foi decapitado pelos Lannisters. 

Chegaram a Riverrun, onde testemunharam um massacre: os homens de Walder Frey mataram Robb e Catelyn Stark, os guardas e nobres que os acompanhavam no casamento de Edmure Tully com Roslin Frey. O episódio ficou conhecido como Casamento Vermelho. Sandor usou um golpe de machado para evitar que Arya corresse para o castelo e acabasse sendo morta. 

Na quarta temporada, lançada em 2014, agora com quase todos os Starks mortos, Clegane decidiu levar Arya para o Vale do Arryn para conseguir o resgate pela garota com sua tia Lysa Arryn, que governava o lugar. Porém, ao chegarem no destino, descobriram que Lysa aparentemente havia cometido suicídio. Ao deixarem o Vale, encontram com Brienne de Tarth, espadachim que jurou à Catelyn Stark que cuidaria de suas duas filhas. 

Agora chegamos à cena que será analisada de acordo com os conceitos de Garcia (2016). A cena pertence ao décimo episódio da quarta temporada. A princípio, Brienne não percebeu que a garota era Arya Stark, a quem jurou proteção. Foi somente quando Podrick Payne, que a acompanhava, reconheceu Sandor Clegane, que Brienne entendeu que a menina era Arya Stark. Brienne disse que fez um voto sagrado para proteger Catelyn e suas filhas e Arya questionou o porquê ela não protegeu sua mãe. Nesse momento, Brienne explica que recebeu ordens para levar Jaime Lannister de volta a Porto Real e Cão questionou se ela era paga pelos Lannisters e se estava lá para tentar capturar Arya, sua recompensa. 


Apesar de Brienne negar que era paga pelos Lannisters, Clegane desconfiou ao reconhecer que a espada que a mulher usava era da Família Real, então ela disse que recebeu como presente de Jaime. Arya se contrapôs a aceitar ser levada pela mulher, que ameaçou levá-la a força. Nesse momento, o Cão puxou a espada e disse que Brienne era a pessoa errada para cuidar da menina e ela o questionou se ele realmente estava cuidando de Arya, ele respondeu que sim e começou a lutar contra a mulher. 

Podrick e Arya se mantiveram distantes, apenas assistindo o duelo. Brienne deu uma sequência de pancadas e socos em Clegane e o derrubou de um abismo, saindo vitoriosa da luta. Porém, ao procurar Arya, a garota havia desaparecido. Brienne e Podrick saíram a procura da pequena Stark, enquanto ela saía do esconderijo e ia atrás de Sandor. Ele, ainda vivo, estava muito ferido e ela disse que ele iria morrer. Ele a aconselhou ir embora com Brienne, pois ela a protegeria, mas Arya se recusou. O Cão pediu para que Arya tirasse sua vida para acabar com seu sofrimento, mas ela ignorou e foi embora, abandonando-o à beira da morte. 

Anti-heroísmo 

Os conceitos de anti-herói que serão utilizados nesta análise, assim como a contextualização do termo, são propostos por García (2016). Segundo o autor, a figura do anti-herói surgiu com a chegada da pós-modernidade, onde valores éticos e morais são questionados o tempo todo. No âmbito televisivo é nos canais pagos que esse arquétipo se populariza. 

O anti-herói é aquele personagem que não é vilão e nem herói, ele é na verdade uma mistura dos dois, caracterizado pela ambiguidade moral (GARCIA, 2016). Ele é construído para gerar empatia no telespectador, porém não é medíocre e nem apático. Os autores constroem uma estrutura de simpatia para permitir que o público se identifique com esses personagens afetados, que normalmente nos repeleriam na vida real. Os anti-heróis apesar de se engajarem em ações impróprias, às vezes eles funcionam como força do bem na narrativa. 

A construção de um personagem anti-herói envolve diversos fatores, mas a principal preocupação é a de criar vínculos desse personagem com o público (GARCIA, 2016). O fato deste personagem estar presente em séries de TV, faz com que sua história seja prolongada e isso acaba se tornando a principal ferramenta na criação desse vínculo, já que a possibilidade de desenvolver a trama do personagem é maior. Ou seja, série de TV propicia o desenvolvimento de detalhes sobre as características, história de vida, relação com família, traços que individualizam esses personagens e o tornam único. 

Para criar vínculos com o público, os anti-heróis são sempre colocados como pessoas que possuem muitas qualidades como, por exemplo, o profissionalismo, a inteligência e a coragem. A relação com a família também é outro aspecto importante. Esses personagens sempre vão ter alguma história de vida traumática, relação difícil com os pais, uma perda, e essas condições vão servir como justificativa, na maioria das vezes, fazendo com que o anti-herói seja visto como vítima, pois ele está fazendo o mal por causa de algo que ele sofreu no passado. 

Além de todas essas características pessoais dos personagens, a montagem da série é toda construída para fortalecer a simpatia pelo personagem controverso. Depois dos atos imorais, a narrativa vai se esforçar para conseguir restabelecer a simpatia do público com o personagem trazendo em seguida uma cena que ameniza suas ações. Isto é, na história terá alguém que seja pior do que o anti-herói e ele nunca vai ser visto como o vilão principal da narrativa. As cenas são construídas de maneira que transmitem boas sensações para o público. Um exemplo é Dr. Lecter da série Hannibal (2013, NBC) cozinhando carne humana: o carinho com que ele trata a carne e prepara suas refeições, a música e imagens bonitas. Tudo isso construído para criar uma atmosfera boa.

Análise 

Sandor Clegane, personagem antipático, rabugento, que é servo da família considerada vilã na série Game of Thrones, é também visto como vilão. Durante a primeira temporada matou sem pestanejar um garoto inocente, ganhando a promessa de vingança com a próprias mãos de Arya Stark. O anti-heroísmo de Clegane fica claro em diversos episódios de Game of Thrones, mas aqui, serão discutidas as características propostas por García (2016) de acordo com as características gerais do personagem e o episódio em análise. 

Apesar de ser servo dos Lannisters, conhecidos pela sua crueldade, em diversos episódios Clegane se colocou a favor do bem na narrativa e isso fica claro na cena do duelo entre ele e Brienne de Tarth. Mesmo tendo Arya Stark como sua prisioneira e sem nenhuma esperança de conseguir um resgate, já que quase toda sua família estava morta, o Cão lutou bravamente, até quase morrer, para impedir que Brienne levasse a menina à força, como se dispôs a fazer. Nesse momento, a sensação que cria no público é que, apesar de Clegane ser considerado vilão, ele é capaz de ter sentimentos e apego pela garota, a ponto de quase perder sua vida para protegê-la. 

Outro fator que faz com que o telespectador crie empatia com o personagem, é que Sandor Clegane tem uma história de vida traumática, já que teve um lado do seu rosto queimado pelo irmão quando ainda era criança. Conviver com um trauma provocado ainda na infância, faz com o personagem tome lugar de vítima na narrativa. Assim em todas as vezes que ele demonstra sofrimento e medo devido a esse trauma, faz o público se apiedar pela dor do homem. Ter sentimentos humanos faz com que o personagem se torne mais carismático. 

Além disso, existe toda uma narrativa construída para mostrar o quanto Clegane é incorruptível com seus valores. Mesmo quando o Cão abandona os Lannisters na Batalha de Blackwater, sua fuga logo é justificada pelo seu trauma com fogo. Ele é um personagem forte, de estrutura inabalável, leal, inteligente e habilidoso. Isso é o tempo todo demonstrado em suas lutas e em suas decisões. Essas virtudes são colocadas como contraponto às diversas crueldades feitas por ele durante a série. Por ter sido servo dos Lannisters, suas más ações são sempre superadas por eles, já que eram eles quem as ordenavam, fazendo com que Clegane não seja o "mal absoluto" de Game of Thrones

As cenas são construídas de maneira que mostram seus valores, mesmo quando está praticando o mal. Quando mantém Arya Stark como prisioneira, viaja com ela durante dias para conseguir seu resgate, Clegane demonstrou afeto à menina em diversas cenas. Como durante o Casamento Vermelho, quando teve que golpea-la para impedir que entrasse no castelo onde uma carnificina tinha acabado de matar sua mãe, irmão e outros membros do norte, e morresse junto com eles. Suas ações são sempre justificadas e desencadeiam em características que tornam o personagem admirável. Além disso, sua destreza em batalhas, como a de Brienne, tornam suas cenas emocionantes, fazendo com que o público goste do personagem. 

Sandor Clegane é um homem forte de valores inabaláveis e que, apesar de suas más ações, existe sempre uma boa ação para amenizar seus atos. O personagem carismático é capaz de atrair a admiração e identificação do público. Sua destreza ao manipular espadas, seus pensamentos sagazes e sua história de vida, tornam o personagem carismático e digno de ser favorito. A construção anti-heroica de Sandor Clegane fez com que, mesmo sabendo que o personagem não é a representação do "bem" na série, ele se torne um dos principais arcos narrativos de Game of Thrones

Referências 

CASTELLANO, Mayka; MEIMARIDIS, Melina. Mulheres Difíceis: A anti-heroína na ficção seriada televisiva americana. Revista Famecos, v. 25, n. 1, p.1-11, 2 jan. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.1.27007. 

GARCÍA, A. N. Moral Emotions, Antiheroes and the Limits of Allegiance. In: Emotions in Contemporary TV Series, Reino Unido, Palgrave Macmillan, p. 52-70, 2016. DOI: https://doi.org/10.1007/978-1-137-56885-4_4. 

The Children. Direção de Alex Graves. Roteiro: David Benioff & D. B. Weiss. 2014. P&B. Série Game of Thrones.


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