Woman in refrigerators e a representação feminina na cultura pop


O termo Woman in Refrigerators (mulheres na geladeira, no português) foi cunhado por Gail Simone para descrever um padrão presente na narrativa das personagens femininas em determinadas histórias em quadrinhos de super-heróis. O conceito surgiu a partir de uma cena da HQ do Lanterna Verde #54 (DC Comics- 1994) em que Kyle Rayner (Lanterna Verde) encontra sua namorada Alex DeWitt morta dentro de sua geladeira pelo vilão Major Force. 


Na história a morte da namorada foi a principal motivação para Kyle buscar vingança. Assim, o seu novo desenvolvimento e crescimento na narrativa é diretamente influenciado pela maneira com que o personagem lidou com esse acontecimento. Como explica Scott (2013, p.2) “O painel está totalmente focado na reação de Kyle Rayner na descoberta do corpo de sua namorada, visualmente composta para enfatizar seu trauma enquanto obscurece o dela”. A partir deste caso, Gail Simone percebeu um padrão em que grande parte da violência atrelada a personagens femininas nos quadrinhos, tais como o estupro, o assassinato e a perda de poderes serviamapenas como motivação ao desenvolvimento de um personagem masculino. E, além disso, a autora aponta que mesmo as personagens que possuíam super poderes eram mortas de formas banais, sem oferecer nenhum tipo de resistência. Gail Simone então criou o site Women In Refrigerators para listar as mortes destas personagens. A autora explica o seu objetivo com a criação do site “Esta é uma lista que fiz quando me ocorreu que não é tão saudável ser uma personagem feminina nos quadrinhos. Estou curiosa para saber se essa lista parece um pouco desproporcional e, em caso afirmativo, o que isso significa, na verdade” (Online, 1999). Entre as personagens listadas estão: Zatanna (poderes severamente limitados), Magia - Esquadrão Suicida (originalmente uma heroína, se tornou uma vilã, poderes retirados/reduzidos), Mulher-Maravilha (morta, mas perdeu poderes), entre outras. Um dos exemplos de Woman in Refrigerators é a minissérie de história em quadrinhos Identity Crisis (Crise de Identidade) publicada pela DC Comics em 2004. Na trama, Sue Dibny (Mulher Invisível), esposa de Ralph Dibny (Homem-Elástico) é estuprada e depois assassinada por envenenamento pelo vilão Doutor Luz. 



Outro exemplo da presença do clichê pode ser observado na HQ Ultimate Wasp (Vol.1).Com o objetivo de fugir de seu marido, de quem sofrera violência doméstica durante 40 anos nos quadrinhos, Janet Van Dyne (Vespa) se encolhe para um tamanho pequeno. Porém, Hank Pym (Homem-Formiga) começou a pulverizá-la com inseticida e usou seu capacete telepático para ordenar formigas gigantescas para atacá-la, ela acabou sendo encontrada e hospitalizada. 


Esse clichê observado por Gail Simone pode ser identificado também nos filmes de super-heróis. Em Vingadores Ultimato (Marvel- 2019), por exemplo, a morte da personagem Viúva Negra (Scarlett Johansson) têm gerados grandes debates sobre a representatividade feminina e o tratamento dado a ela na narrativa em questão. Na ocasião, os Vingadores se dividem em duplas para viajar no tempo em busca das seis jóias do infinito. Natasha Romanoff (Viúva Negra) e Clint Barton (Gavião Arqueiro) partem para o planeta Vormir para resgatar a jóia da alma. Chegando lá, os personagens precisam fazer um sacrifício de uma pessoa amada “uma alma por outra alma” para que possam ganhar a jóia. Neste momento há uma disputa entre os heróis, que se mostram dispostos a se sacrificar até que em dado momento Natasha ataca Clint e se joga em um penhasco, cabendo ao Gavião Arqueiro resgatá-la, mas a personagem insiste para ser solta. Com a morte de Natasha Romanoff, Clint passa a ter que conviver com o fardo deste acontecimento e ganha uma motivação extra para lutar em busca de reverter o estrago feito por Thanos. 


Além disso, apesar de haver pouca comoção por parte da equipe, a morte da personagem também funciona como um fator que impulsiona os Vingadores para a luta que viria pela frente. Isto é, a morte da personagem serviu como um desenvolvimento para Clint e para os heróis que compõem a equipe original dos Vingadores (Hulk, Thor, Homem de Ferro e Capitão América). Outro elemento presente na ocasião e que se encaixa como o clichê observado por Gail Simone é o fato de que a decisão final sobre a morte da personagem é tomada por um homem, no caso Clint quando solta a mão de Natasha, o que evidencia um padrão em que as decisões sobre determinada atitude ou acontecimento de uma personagem feminina fica a cargo de um personagem masculino. 

Como afirma Scott (2013, p. 3), a principal questão para Simone é o que este tratamento em relação às mulheres nos quadrinhos reflete no julgamento dos leitores do sexo feminino. “[...] não é apenas que há menos super-heróis (e, portanto, quando são brutalmente despachados ou ignorados, sua ausência deixa um buraco demográfico maior na lista de super-heróis comics), ou que eles são frequentemente tratados como franquia de spinoff "baggage" (Batgirl, Supergirl), mas o que o tratamento sugere implicitamente sobre a avaliação da indústria de quadrinhos de leitores do sexo feminino”. Simone destaca que a neste meio, as mulheres possuem uma “importância marginal” considerando que pessoas do sexo masculino dominam grande parte das funções como criadores e consumidores. Nesse contexto, “[...] além da hostilidade potencial que essas representações podem gerar para as mulheres que se aventuram em sua LCS (loja de quadrinhos ou loja local), o mais desalentador é que "há uma sensação de inconsequência, de reflexão tardia, nessas histórias" (1999b)”(SCOTT, 2013, p.3). 

Apesar do clichê Womans in Refrigerators ter sido observado por Gail Simone em histórias dos anos 90, o padrão em relação à representação das mulheres em histórias de super-heróis pode ser identificado também nos dias de hoje. Não só nas HQ’s, mas em filmes do gênero, esse questionamento ressalta a importância de se discutir a representatividade feminina em produtos da cultura pop, principalmente pelo seu histórico problemático em relação ao tratamento dado ás mulheres em suas narrativas. 

Referências 

Site Woman in Refrigerators, Online, 1999. Disponível em: http://www.lby3.com/wir/index.html. Acesso em 25 jun. 2019. 

SCOTT, S. Fangirls in refrigerators: The politics of (in)visibility in comic book Culture. In: Transformative Works and Cultures, v.13, 2013, Online. Disponível em: https://journal.transformativeworks.org/index.php/twc/article/view/460/384. Acesso em 25 jun. 2019.


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