Queerbaiting em Sherlock: uma história de amor e conspiração



“Não somos um casal”, é o que responde o doutor John Watson às provocações da dominatrix Irene Adler. Em A Scandal in Belgravia, primeiro episódio da segunda temporada da série britânica Sherlock - uma releitura contemporânea do clássico personagem literário de Sir Arthur Conan Doyle - a família real se vê ameaçada por um escândalo de natureza sexual, quando Irene revela ter fotos íntimas, que podem ser vazadas a qualquer momento. 


Em uma fábrica abandonada, Watson se encontra com Irene. A resposta citada anteriormente vem de encontro com a insinuação de que o médico estava com ciúmes de uma troca de mensagens entre a dominatrix e o detetive protagonista. “Quem é que sabe sobre Sherlock Holmes? Mas para registrar, caso alguém ainda se importe, eu não sou gay”, ele continua. Desta vez, no entanto, Watson olha ao redor, talvez suspeitando que estivesse sendo monitorado por terceiros, e não parece se dirigir apenas à Irene. 

Considerando a relação que a série teve com seus fãs quando assunto é a relação dos protagonistas, essa cena pode assumir um caráter quase simbólico. Isso porque a produção sempre pareceu assombrada por uma palavra: o queerbaiting. O termo não possui uma tradução concreta para o português. Ele é a junção de queer (palavra inicialmente usada de forma pejorativa para designar indivíduos homossexuais, mas que foi retomada com uma conotação positiva pela própria comunidade nas últimas décadas) e a palavra bait, que significa “isca” em inglês. Como explica Wunderlich (2018, p. 39-40), 
O termo Queerbaiting foi criado e teve sua definição - ou o mais próximo disso - desenvolvida por comunidades de fãs. Os mesmos alegam que produtores de conteúdo como filmes e séries levam fãs queer a consumirem esses produtos na crença de que os mesmos apresentarão conteúdo LGBTQ+, apenas para serem surpreendidos pela ausência desse conteúdo. [...] Pode-se afirmar, portanto, que o Queerbaiting trata-se de uma maneira de fisgar a comunidade queer, atraindo-a e tornando-a parte da audiência, porém sem atender às suas expectativas, evitando - também - de colocar em risco a grande audiência conservadora. 
Wunderlich (2018) também aponta que, em primeira instância, o termo aparece como uma espécie de denúncia para a falta de conteúdo LGBTQ+ ou o uso de ambiguidades sugestivas para cativar a audiência que se identifica com a comunidade. No entanto, ele não se esgota nisso. Ao compreender como os personagens são expostos e inseridos nas tramas, o queerbating se relaciona com a visão crítica da representatividade queer na mídia, enxergando para além dos padrões narrativos televisivos - os famosos “tropes” - que já se resvalaram ao campo do clichê. Entre eles, está o BuryYour Gays (Enterre Seus Gays), também conhecido como DeadLesbianSyndrome (Síndrome da Lésbica Morta), que atenta ao fato de personagens LGBTQ+ estarem mais propensos a terminarem seus arcos narrativos de maneira trágica. 


O queerbaiting é intrínseco a uma prática muito comum dentro das comunidades de fãs: o shipping. O termo vem da palavra "relationship" ('relacionamento', em inglês) e designa o envolvimento afetivo com relações amorosas entre personagens ficcionais. Muitas vezes, tais casais não estão no “cânone” do universo ficcional, ou seja, não existem na obra original, mas os shippers (fãs que praticam o shipping) sustentam que o relacionamento existe, pode existir ou deveria existir. (MATOS, 2013). Um dos casos mais antigos e emblemáticos do shipping é o casal Mulder e Scully, da série Arquivo X. É interessante notar nesse caso que, mesmo com um casal heterossexual, a relação entre shipper se produtores foi contraditória, como mostra Silbergleid (2003, p. 50): 

Por anos, o criador da série Chris Carter declarou que Mulder e Scully nunca se envolveriam romanticamente. Por anos, a série provocou shippers e outros fãs com quase-beijos, casamentos secretos e gestos íntimos.¹ (tradução nossa) 

Casais LGBTQ+ que não integram o cânone, mas que são populares entre os fãs, podem ser encontrados nos fandoms - abreviação da expressão “reino do fã” em inglês -de diversas séries. É o caso de SwanQueen (Emma Swan e a rainha maléfica Regina Mills, em Once Upon a Time), Destiel (Dean e Castiel, em Supernatural), Sterek (Stiles e Derek, em Teen Wolf) e Clexa (Clarke e Lexa, em The 100). Expandindo o escopo, casais assim também são encontrados em outras mídias. É o caso de Narusasu (Naruto e Sasuke, no clássico mangá e anime Naruto) e, mais recente, entre as heroínas Capitã Marvel e Valkyrie, no Universo Cinematográfico da Marvel. Na produção britânica, os protagonistas Sherlock Holmes e John Watson constituem o ship Johnlock. 


A série já foi concebida em meio a especulações sobre a sexualidade dos protagonistas. Concomitante à produção e estreia da primeira temporada da série, a BBC passava por um período em que a preocupação com a representatividade gay, lésbica e bissexual estava em alta. Em 2010, poucos meses depois de Sherlock ir ao ar pela primeira vez, a emissora divulgou os resultados de uma pesquisa que avaliava sua programação e traçava diretrizes para otimizar o retrato de personagens que fugiam da heterossexualidade. A situação escalou quando um dos criadores da série, Mark Gatiss, que é abertamente gay, afirmou em entrevista que uma das principais inspirações para a versão contemporânea do detetive foi o filme “A Vida Íntima de Sherlock Holmes”, de 1970. A produção é notável em vários aspectos, mas principalmente pelo seu diretor, Billy Wilder, ter afirmado em sua biografia que pretendia retratar explicitamente o personagem como um homossexual reprimido.² 

Esses dois fatores já foram combustível suficiente para acender uma longa jornada de altos e baixos entre os criadores da série, os shippers de Johnlock e os fãs que não concordam com o que ficou conhecido como The Johnlock Conspiracy (A Conspiração Johnlock). Esse embate incansável resultou em inúmeros - e extensos - esforços por parte dos fãs para, não apenas reafirmar a existência da relação entre os protagonistas, como também responder às intensas provocações que os roteiristas da série oferecem - muitas delas, como Mark Gatiss já afirmou, escritas pelo co-criador Steven Moffat. 


Basta observar A Study in Pink, o episódio de estreia. Ao longo de noventa minutos, o roteiro coloca a sexualidade do detetive em questão em inúmeros momentos, às vezes brincando com uma possível relação entre os protagonistas. A irreverente locatária Mrs. Hudson pergunta se há a necessidade de quartos separados, afirmando que há outros casais gays morando na vizinhança; o irmão mais velho do detetive, Mycroft, ironiza a rápida lealdade e confiança que John criou por Sherlock, perguntando se ele deve esperar um “anúncio feliz” até o fim de semana; há também o diálogo em que John pergunta a Sherlock se ele namora, um homem ou uma mulher, após o garçom acreditar que os protagonistas estavam em um encontro - tal indagação leva ao detetive achando necessário explicar que é “casado com o trabalho” e que não possui interesse romântico no amigo. Não parece absurdo afirmar que, assim como Silbergleid (2003) aponta em Arquivo X, Sherlock está imersa em uma relação ambivalente com os shippers. Ao pesquisar a dinâmica de shipping no fandom da produção da BBC, Matos (2013) avalia: 

“Durante o período em que observei a comunidade de fãs de Sherlock e mais especificamente a prática do shipping questões de gênero e problematizações acerca da homossexualidade poucas vezes estiveram presentes de forma direta. Já na narrativa da série este é um tema recorrente (em alguns momentos se mostra como certa obsessão dos roteiristas, tratado ao mesmo tempo como algo importante para o personagem e uma piada que nunca deixa de ter graça). ” 

Tal pensamento é corroborado pelo expoente canal no YouTube The JohnlockConspiracyExplained. Ao longo de mais de 40 publicações, a autora Rebekah explora diferentes aspectos da “conspiração”, indo desde o episódio piloto que não foi exibido (uma versão reduzida de A Study in Pink) até os pronunciamentos de integrantes do elenco sobre o casal. Em um dos vídeos mais assistidos do canal, intitulado IfIt'sNot Gay, ThenWhy?, a fã avalia a ambiguidade que permeia diversos momentos da série, analisando aspectos que vão desde a atuação e o roteiro até a edição. É interessante chamar atenção para a forma como ela introduz seu argumento: 

“Então, a verdade inevitável é que, se você quiser ler um romance gay em algo, você tem que se justificar interminavelmente. Essa é essencialmente a premissa de toda essa série de vídeo. O ónus da prova cai sobre nós. É exigido que expliquemos todos os detalhes da nossa leitura. Por mais triste que isso seja necessário para um romance gay - quando tudo o que um romance hétero precisa é basicamente que um homem e uma mulher troquem olhares - eu faço isso porque eu gosto de explicar e de ajudar pessoas a verem coisas que elas nunca consideraram antes."³ (tradução nossa) 

Em uma entrevista à revista galesa Buzz Magazine em 2010, quando questionado se estaria interessado em fazer uma série com a temática gay, o co-criador Mark Gatiss afirmou que achava mais interessante “flertar com o homoerotismo em Sherlock”. A afirmação vai de encontro com produtores de outras séries que assumiram a inserção de conteúdos sugestivos que envolviam casais populares. Em Xena: A Princesa Guerreira, a censura por parte da emissora foi um fator determinante para que Xena e Gabrielle nunca se tornassem um casal. Em Hannibal, o showrunner Bryan Fuller afirmou ter achado no homoerotismo a maneira mais conveniente de retratar uma intimidade entre personagens masculinos que excedia os aspectos físicos e sexuais. 


Para alguns autores como Henry Jenkins e Elizabeth Woledge, as leituras que envolvem casais LGBTQ+ não-canônicos não estão necessariamente interessadas em questões políticas de sexualidade e de gênero. Seu objetivo principal estaria na subversão das masculinidades a partir de valores que não são comumente associados às relações interpessoais entre homens ou até mesmo nas relações heterossexuais inseridas no modelo patriarcal. (MATOS, 2013, p. 147-148). No entanto, o uso proposital de conteúdos sugestivos em uma narrativa canonicamente heterossexual pode borrar um pouco os limites do cânone, estimulando leituras LGBTQ+ dos fãs. (WUNDERLICH, 2018, p. 41-42). Quando tais leituras, encorajadas pela própria série, são invalidadas ou vistas simplesmente como alternativas, entra-se na problemática calorosamente rebatida por Doty (1993): 

"Afinal, a queerness na representação e na leitura da cultura de massa que eu aponto neste livro é apenas 'conotativa', portanto negável e 'inconsistente', enquanto continuarmos a pensar dentro dos paradigmas heterocentristas convencionais, que sempre decidiram que expressões de queerness são leituras sub-textuais, sub-culturais, alternativas, ou tentativas patéticas e ilusórias de ver algo que não está lá - afinal, textos de cultura de massa são feitos para a pessoa "média" (hétero, branco, classe média, geralmente homem), não são?"4 (tradução nossa) 

A quarta temporada trouxe um novo pico no descontentamento dos fãs com os produtores. Muito antes de receber a pior nota da série até então em sites de avaliação como o RottenTomatoes, os materiais promocionais dos novos episódios traziam insinuações sobre a vida romântica do protagonista. A postagem do perfil BBC iPlayerno Twitter é emblemática: “Sherlock está de volta e ele está apaixonado. Mas por quem? E o que ele fez com seu melhor amigo? ”. Basta uma visita às respostas da publicação para observar o desagrado dos fãs. A temporada culminou em uma carta-aberta em forma de poema enviada pelo co-criador Mark Gatiss ao The Guardian, rebatendo a resenha feita por um crítico do próprio jornal. 


Podemos observar que, em sua constante obsessão de transformar a aura dúbia que envolve a relação dos personagens em piada, a própria série acha oportuno trazer constantemente o tema da sexualidade à tona. Voltamos à cena do encontro entre Irene Adler e John Watson. Em um galpão visivelmente vazio, o melhor amigo do detetive reafirma que não é gay para possíveis ouvintes secretos - quase como se o roteiro quisesse quebrar com a quarta parede, se comunicando diretamente com o espectador. No entanto, o simbolismo também reside na dominatrix, que desenvolveu um elo de fascínio e desejo mútuos por Sherlock durante o episódio - podendo ser inserida nessa analogia como assumindo o papel dos shippers. Ela se ergue impassível e, sem hesitar, ela explicita a situação irresoluta e indeterminada em que tanto ela quando John Watson estão inseridos: “Bem, eu sou [gay]. Olhe para nós ambos...” 

Nota: 

¹ No original: “For years, series creator Chris Carter declared that Mulder and Scully would never become romantically involved. For years, the series teased shippers and other fans with near-kisses, undercover marriages and intimate gestures.” (SILBERGLEID, 2003, p. 50) 

² Billy Wilder: “I should have been more daring. I have this theory. I wanted to have Holmes homosexual and not admitting it to anyone, including maybe even himself. The burden of keeping it secret was the reason he took dope.” (GERD, 2008, p. 147) 

³ No original: "So, the unavoidable truth is that if you want to read a gay romance into something, you have to justify it endlessly. That's essentially the entire premise of this video series. The burden of proof falls on us. It's demanded that we explain every last detail of our reading. And as sad as it is that that's necessary for a gay romance - when all a straight romance needs is basically for a man and a woman to look at each other - I do this because I like explaining and I like helping people see things they never considered before." 

4 No original: “After all, the queerness I point out in mass culture representation and reading in this book is only "connotative," and therefore deniable or "insubstantial" as long as we keep thinking within conventional heterocentrist paradigms, which always already have decided that expressions of queerness are sub-textual, sub-cultural,alternative readings, or pathetic and delusional attempts to see something that isn't there — after all, mass culture texts are made for the "average" (straight, white, middle-class, usually male) person, aren't they?” (DOTY, 1993) 

Referências 

DOTY, Alexander. Introduction: What Makes Queerness Most?. In: DOTY, Alexander. Making Things Perfectly Queer: Interpreting Mass Culture. 2. ed. Minneapólis: University of Minnesota Press, 1993. p. xi-xix. 

GEMÜND, Gerd. In the closet of Sir Arthur Conan Doyle: The Private Life of Sherlock Holmes (1970). In: A Foreign Affair: Billy Wilder's American Films. Brooklyn: Berghahn Books, 2008. 

MATOS, Patrícia. “I amSherLocked”: Afeto e questões de gênero no interior da comunidade de fãs da série Sherlock. Ciberlegenda, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, n. 28, p. 138-150, 2013. Disponível em: http://www.ciberlegenda.uff.br/index.php/revista/article/view/624/348. Acesso em: 8 jun. 2019. 

SILBERGLEID, Robin. "The Truth We Both Know": Readerly Desire and Heteronarrative in "The X-Files". Studies in Popular Culture, [S. l.], v. 25, n. 3, p. 49-62, 2003. 

WUNDERLICH, Letícia. O chame pelo nome: a percepção do público em relação ao queerbaitingem séries. 2018. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Publicidade e Propaganda) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2018. Disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/56576/LETICIA%20WUNDERLICH.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 9 jun. 2019. 


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