domingo, 8 de julho de 2018

Então por que você vira presidenta da república pra falar isso, linda?

Que tipo de texto tem um título como esse? Um texto que vai falar sobre memes, é claro! Usado por muitos, não entendido por poucos, os memes hoje são umas das formas de expressão mais famosas na internet. Quem nunca viu uma imagem da Gretchen rodando pelas redes sociais com alguma frase de impacto? Ou imagens da famosa vilã da novela A Usurpadora, Paola Bracho, nas tardes do SBT? Mas se engana quem pensa que os memes são só zoeira, tem muito estudo envolvido nisso!

Conforme explica Shifman (2014) o termo meme foi citado em 1976, pelo biólogo Richard Dawkins, em seu livro ‘O gene egoísta’, para representar um fragmento cultural, que se replica de cérebro em cérebro, como um gene pula de corpo em corpo. A ideia foi adaptada para a internet seguindo os princípios de Dawkins, para representar imagens e ideias humorísticas compartilhadas nas redes sociais (SHIFMAN, 2014). A partir daí, o conceito foi adotado no ambiente de conectividade como uma mensagem de fácil acesso e que se espalha rapidamente na mente e nas telas de cada pessoa.

Esses memes são replicadores de ideias e conceitos culturais que podem afetar o comportamento humano e sua forma de pensar e agir diante de determinadas situações, produzindo diferentes reflexões a respeito de vários assuntos (SHIFMAN, 2014). O memes podem ser retirados de quaisquer situações como, por exemplo, vídeos de pessoas “comuns” na internet, acontecimentos importantes do dia a dia e até cenas de novelas, como os famosos memes da personagem Nazaré Tedesco, da novela Senhora do Destino que ficou mundialmente conhecido. 


Do ponto de vista do filósofo Dan Dennett, os memes, como formas de ideias e pensamentos são importantes fatores para o desenvolvimento cultural de uma sociedade, já que com sua fácil reprodutibilidade, são fundamentais na expansão social e na difusão de conceitos que até hoje são utilizadas socialmente, como a invenção da roda. Waizbort (2003, p. 26-27) pontua que:

Como os genes, os memes poderiam ser compreendidos se prestarmos atenção: 1) ao processo hereditário pela qual as informações culturais se reproduzem em populações de cérebros humanos (horizontal e verticalmente), 2) ao processo que faz com que as informações culturais variem, e 3) ao processo de seleção de informações culturais, dado o número limitado de cérebros e uma virtual infinidade de idéias, fragmentos de idéias e complexos de idéias no pool de idéias.
Mas se engana quem acha que os memes são criados de forma aleatória e tem apenas o intuito de divertir o público. Apesar de serem produzidos a partir de acontecimentos cotidianos, os memes possuem uma espécie de “agenda”, com critérios que os fazer hitar (atingir sucesso) ou flopar (fracassarem). Segundo Recuero (2007) eles precisam passar por quatro pilares centrais para se manterem dentro do meio e continuarem existindo. Nesse contexto, eles são avaliados em critérios de (RECUERO, 2007):

● Fidelidade: Quando um meme apesar da replicação se mantém o mais próximo possível do seu original;

● Longevidade: Quanto mais tempo ele se mantém “vivo”, mais forte ele é e mais chance de ser replicado;

● Fecundidade: Sua habilidade de se espalhar rapidamente e em mais veículos possíveis;

● Alcance: Quantas pessoas ele consegue atingir, e quanto ele se espalha na rede.

Mas apesar de possuírem um viés humorístico, nem todos os memes são engraçados e para entreter, muitos deles carregam mensagens políticas, criticando a conjuntura política e as situações vivenciadas no momento em que são criados (RECUERO, 2007; TOTH; MENDES, 2016). Esses tipos de memes apresentam uma linguagem satírica, tanto na imagem, quanto em seu texto, para representar muitas vezes o descontentamento com a situação vivida.

Uma chance para a fama?

Os memes por serem criados de fatos cotidianos, personagens famosos ou pessoas anônimas e podem alavancar carreiras, mesmo que por um breve momento. Tiramos como exemplo a cantora brasileira Gretchen. Conhecida como a rainha do rebolado nos anos 1980, a musa da internet permaneceu por muito tempo em um hiato, em que sua fama foi diminuindo gradativamente nos anos 2000 até sua participação no reality show da Rede Record, A Fazenda, que alavancou sua carreira novamente por suas icônicas frases e reações ao longo do programa. Os internautas voltaram a engrandecer a artista, criando memes com fotos, vídeos e gifs que acabaram por levar ela a ter seu próprio reality show com a sua família no canal Multishow, aparecer no clipe da cantora norte-americana Katy Perry e ainda participar de seu show no país.




E é claro que o maior evento esportivo do mundo não iria ficar de fora da zoação dos brasileiros! A Copa do Mundo já rendeu para a internet e para o público, inúmeros memes, sejam dos jogadores, dos mascotes ou dos torcedores. Ninguém escapa da zoeira brasileira, que não poupa nem um dos seus jogadores principais, o menino Neymar. Suas quedas constantes em campo renderam inúmeras imagens do jogador, principalmente no Twitter, o lugar onde os memes mais fazem sucesso e depois são compartilhados em outras redes. O mascote da seleção brasileira, o canarinho pistola, também virou um meme, por sua cara sempre brava.





O jogador Cristiano Ronaldo também não foi poupado da zoação dos brasileiros, que pegaram fotos dele com seu filho e fizeram imagens de possíveis diálogos entre eles, inflando o ego do “galã” da Copa. Recentemente tivemos um novo personagem que virou febre nas redes sociais, o “misterioso da copa”, um homem misterioso, levemente medonho, que chamou a atenção dos brasileiros por estar vestindo a camisa da seleção e segurando a bandeira do país. O homem que já não é tão misterioso assim ficou famoso e bombou nas redes sociais desde a partida em que apareceu, entre Brasil e México.





Mas até onde vão os limites dos memes?


Bom, isso ainda não sabemos! Por serem conteúdos que se espalham com facilidade e pela facilidade de edição dessas imagens, fica difícil definir qual seria o limite. Essas imagens podem ser usadas em quaisquer situações, desde para contar algo engraçado, chamar a atenção do @ ou do público, como muitos veículos vêm fazendo recentemente, como ao perfil no Twitter da UFJF, ou até mesmo para momentos de tensão, como brigas. Quem nunca debochou de alguém usando algum meme de Tati Quebra Barraco, não é mesmo?!

Seja para o bem ou para o mal, os memes estão entre nós e parece que não vão desaparecer por um bom tempo! O que nos resta é ter bom senso e saber o momento exato de mandar um deles para alguém.




Referências:

RECUERO,R. Memes em weblogs: proposta de uma taxonomia. In Revista Famecos,v. 14, n.32, p.23-31, 2007. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3411>. Acesso em: 8 jul. 2018.

SHIFMAN, L. Memes in Digital Culture. Cambridge: The MIT Press, 2014.

TOTH, J.; MENDES, V. Monitorando memes em mídias sociais. In: Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: Metodologias, aplicações e inovações. SILVA, T.; STABILE, M.(Orgs.) Instituto Brasileiro de Análise de Dados - Ed. Uva Limão: São Paulo, 2016, p. 211-234.

WAIZBORT, R. . Dos Genes aos memes: a emergência do replicador cultural. In Episteme, n. 16, p. 23-44, 2003. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3411>. Acesso em: 8 jul. 2018.



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