domingo, 1 de abril de 2018

Dez anos de Marvel Studios: a fórmula certa para a construção de um universo imersivo


Estamos na era dos filmes de heróis. As adaptações de quadrinhos levam cada vez mais pessoas às salas de cinema. Na lista dos filmes com as maiores bilheterias de todos os tempos, “Os Vingadores” (2012) ocupa a 5ª posição, com mais de US$ 1,5 bilhão de dólares arrecadados. Em março de 2018, vários outros longas metragens de heróis figuram entre as 20 primeiras posições dessa lista: “Vingadores: Era de Ultron” (2015), “Homem de Ferro 3” (2013), “Capitão América: Guerra Civíl” (2016) e o recente “Pantera Negra” (2018). Em comum entre eles, todos fazem parte do MCU – Marvel Cinematic Universe – que este mês completa dez anos. Mas para entender o sucesso do Marvel Studios, precisamos voltar no tempo e relembrar momentos não muito fáceis na história da “Casa das Ideias”.
 
 
Depois de fazer sucesso com Namor, o Tocha Humana Jim Hammond e Capitão América durante a Segunda Guerra Mundial, os heróis da Timely Comics sofreram uma grande queda nas vendas. Na década de 1950, a editora investiu em romances, histórias de faroeste e ficção científica. Stan Lee estava disposto a abandonar seu emprego como editor na empresa, quando o dono da editora, Martin Goodman, o deu a missão de, a exemplo da concorrente DC – que acabara de criar a Liga da Justiça -, criar um grupo de personagens que trabalhassem em conjunto. Foi então que Lee apresentou o Quarteto Fantástico, mais que um super-grupo, uma família que receberam seus poderes após estarem em contato com radiação cósmica durante uma missão espacial.

Depois, vieram outras criações, como o Homem-Aranha, o Incrível Hulk, Homem de Ferro, Viúva Negra, Demolidor, os X-Men... todos eles “serviram de fundações para uma edificação ficcional autorreferente chamada ‘Universo Marvel’, na qual todas as aventuras eram interligadas em altíssimo nível de complexidade”.


Após anos prósperos, a Marvel Comics passou por outro momento conturbado: na década de 1990, a empresa esteve à beira da falência, chegando a possuir débitos vencidos na casa dos 600 milhões de dólares. A decisão para sanar essas dívidas foi vender os direitos cinematográficos de seus personagens para outras empresas. Os X-Men, o Quarteto Fantástico e Demolidor foram para a 20th Century Fox; a compra do Homem-Aranha foi acertada pela Sony Pictures; o Hulk foi levado pela Universal. Mas esse momento de divisão também foi, de certa forma, importante para a expansão do Universo Marvel. Hanson (2004), em seu livro The End of Celluloid: film futures in the digital age, usou o termo screen bleed para descrever a expansão de universos ficcionais para além de suas mídias originais. O conceito de Hanson (2004) descreve perfeitamente o que aconteceu com a Marvel a seguir: a partir deste momento, não mais seria somente uma gigante dos quadrinhos, mas, aos poucos, conquistaria seu espaço nas telonas. 
 
 
O ano 2000 chega com a bem-sucedida adaptação dos X-Men às telonas. Dois anos depois, foi à vez do Homem-Aranha de Tobey Maguirese balançar entre os prédios de Nova York. Vários outros filmes foram feitos, até que, em 2008, foi a vez da própria Marvel ter um filme para chamar de seu.
 
 
Com os direitos de seu “alto escalão” espalhados por Hollywood, o jeito foi escolher entre seus personagens “B” quem iria dar o pontapé inicial ao Marvel Studios. Homem de Ferro foi o designado, trazendo Robert Downey Jr. no papel principal. Com distribuição da Paramount Pictures, o filme teve um orçamento de US$ 140 milhões e arrecadou quase cinco vezes mais de bilheteria. O plano era apresentar os personagens que, futuramente, formariam a equipe dos “Maiores Heróis da Terra”. Johnson (2012, p. 7) enfatiza a frase de Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, dita em 2009: “Estamos tentando algo que nunca foi feito antes, uma nova ideia dos mesmos personagens aparecendo em várias franquias”. E assim foi feito: além de Tony Stark, Thor, Hulk e Capitão América tiveram seus longas solo antes de se juntarem em 2012, em “Os Vingadores”, dirigido por Joss Whedon. A Marvel lançou um modelo único para a produção cinematográfica na era da convergência: uma empresa independente com experiência em uma indústria de mídia diferente criou uma sequência de filmes de grande sucesso (JOHNSON, 2012, p.1).
 
 
O filme foi, sem sombra de dúvidas, o maior sucesso do Marvel Studios até hoje. Como mencionado anteriormente, atingiu números nunca antes alcançados e ainda não superados no cinema de super-heróis. A principal razão para tal feito foi à capacidade da Marvel em criar um formato de narrativa capaz de agradar a todos os públicos: crianças, jovens e adultos; fãs, ou não, de quadrinhos. A esse modelo dá-se, comumente, o nome de “Fórmula Marvel”.

A começar por quase todos seus filmes de origem, podemos destacar uma característica em comum entre os seus heróis: a arrogância. Thor, Homem-Ferro e Doutor Estranho passam pela conhecida “Jornada do Herói”, de Joseph Campbell, onde o protagonista inicia sua saga em um mundo comum e, durante algum evento, é chamado à luta, pressionando o herói para seu amadurecimento durante a trama. Tony Stark deixa de ser um armamentista para tornar-se um combatente às armas; Thor, após ser banido de Asgard por seu pai Odin, precisa provar-se digno de empunhar o Mjönir novamente e Steven Strange, após sofrer um acidente e perder os movimentos das mãos, passa por um retiro espiritual em um mosteiro aprendendo controlar magia antes de tornar-se o Mago Supremo. Mesmo que essa característica não esteja presente em todos os seus personagens, cada um deles, à sua maneira, passa por essa mesma jornada, aprendendo, com seus erros e acertos, a amadurecer.



Outra característica que se destaca nesta “fórmula” é a pouca importância dada aos seus vilões. Eles possuem uma trajetória focada somente naquele filme, tendo sempre um fim mortal ou sendo presos e esquecidos. Isso fazdo protagonista o ponto principal da trama, ou seja, quem sempre irá superar seu antagonista, além da busca por enfatizar o conflito interior do personagem. Somente dois de seus vilões ainda são lembrados nos longas: Loki, o deus da trapaça, e Buck Barnes, o soldado invernal. Ambos já tiveram seus momentos de heróis, como Loki em “Thor: Ragnarok” (2017) e Soldado Invernal em “Capitão América: Guerra Civil” (2016).


Ainda, as piadas são elementos indispensáveis na construção narrativa dos filmes: seja nos considerados mais “leves”, como “Guardiões da Galáxia” (2014), “Guardiões da Galáxia Vol. 2” (2017) e “Homem-Aranha: De volta ao lar” (2017), ou em dramas muito mais densos e sérios, como em “Capitão América: Soldado Invernal” (2014), “Capitão América: Guerra Civil” (2016) e “Pantera Negra” (2018), o espectador poderá sempre contar com algum “alívio cômico”. Este termo é usado para definir alguma situação, cena ou personagem, cuja função principal é aliviar a tensão por meio do humor. E disso o universo compartilhado da Marvel está repleto, pois, além de auxiliar na construção da trama, esses momentos ajudam na concepção de características pessoais de inúmeros personagens.

Mas nem tudo são flores: em certos momentos essas simples “piadinhas” passam um pouco do limite e do bom-senso, sendo usadas em demasia e destoando da proposta dada ao desenvolvimento do herói. Um ótimo exemplo foi a chuva de críticas negativas dada a “Doutor Estranho” (2016), justamente por não conseguir fazer bom uso desses alívios, transformando, assim, o filme e o herói,em uma grande piada malfeita de 1h 55m.

Por último, podemos destacar o exercício de explicação utilizado no roteiro de todos os longas. Tal recurso é de extrema importância, pois permite o entendimento por parte de públicos iniciantes, seja quem começou a acompanhar os personagens no cinema, seja o espectador comum que apenas busca mais um filme de ação.

O estabelecimento deste universo compartilhado que engloba filmes e séries, com um enredo complexo e um formato “especial” de narrativa, foi uma aposta certeira da Marvel nos últimos dez anos. Isso foi possível concluir, pois, além de construir um sólido universo ficcional, a iniciativa abriu margem para que seus fãs pudessem especular os próximos passos do MCU a cada filme lançado. É muito comum acompanharmos discussões, seja pela web ou em círculos sociais, a respeito do desenvolvimento da trama até o lançamento do próximo filme, onde cada uma das hipóteses lançadas serão, ou não, refutadas. Este processo de criação de “mundos possíveis” é confirmado Scolari (2011, p. 131),

Basta terminar a emissão de um episódio de uma série televisiva, para poucos minutos depois, os fóruns e páginas web entrem em estado de agitação. Os espectadores discutem o texto que acabaram de ver, analisam suas possíveis continuações e debatem sobre os personagens e a trama do episódio. Ou seja, em muitos casos, a construção de mundos possíveis deixou de ser um processo individual para converter-se em um processo coletivo que se desenvolve nas redes sociais.

Com sua fórmula de sucesso, a Marvel atingiu novos públicos e renovou seu fandom nesses anos de Marvel Cinematic Universe. Com dezoitos filmes lançados, além de materiais em outras mídias, o Marvel Studios criou, inovou, testou, errou e conquistou um dos universos ficcionais mais ricos do cinema mundial.

Referências:

HANSON, M. The End of Celluloid: film futures in the digital age. Reino Unido: Rotovision, 2004.

HOWE, S. Marvel Comics: a história secreta.São Paulo: Leya, 2013.

JOHNSON, D. Cinematic Destiny: Marvel Studios and the Trade Stories of Industrial Convergence. In Cinema Journal, v. 52, n. 1, p. 1-24, 2012.

SCOLARI, C. A construção de mundos possíveis se tornou um processo coletivo. In MATRIZes. v. 4, n. 2, p. 127-136, 2011.


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