domingo, 18 de março de 2018

A importância das produções estrangeiras no desenvolvimento da compreensão crítica do público


Desde sua criação em 2007, a Netflix vem se consolidando como o principal serviço de conteúdo on demand. Atualmente a plataforma conta com mais de 100 milhões de assinantes no mundo todo. Além de possuir um catálogo com mais de 14.192 títulos – incluindo séries, reality shows, documentários, filmes, etc. – a Netflix investe em conteúdos originais. As produções começaram a integrar a plataforma em 2011 e hoje é um dos seus principais atrativos no mercado.

Porém, apesar de estar presente em mais de 190 países a Netflix ainda está distante de um catálogo plural e diversificado (O GLOBO, 2017). Segundo Richer (2017), o serviço é majoritariamente composto por conteúdos estadunidenses e britânicos. Como pontua o autor,

Em outubro de 2015, nos catálogos da Netflix de oito países europeus, o número médio de filmes era de 1.151. Em todos os oito países considerados pela pesquisa, dos títulos no catálogo, 6% foram produtos audiovisuais nacionais, 21% produzidos em outros países da União Europeia e 69% eram originários dos EUA (2017, p.22).

De acordo com Richer (2017) um dos principais motivos do investimento massivo nas produções estadunidenses é o fato delas possuírem um grande potencial de exportação e, consequentemente, serem economicamente mais rentáveis para os serviços on demand.

Enquanto um título europeu é distribuído apenas no país de origem, um título dos EUA é explorado respectivamente em vários países europeus. Como resultado, a partir do ponto de vista econômico, vemos que um título dos EUA é potencialmente mais rentável do que um título europeu (RICHER, 2017, p.22)

Entretanto, o processo de pluralização dos conteúdos oferecidos pela Netflix vem acontecendo aos poucos. A plataforma tem investido em produções estrangeiras tanto na disponibilização, isto é, através de contratos comerciais com canais estrangeiros, quanto nas produções de séries originais.

Esta diversidade presente no catálogo permite que o telespectador tenha contato com conteúdos de diferentes partes do mundo. Seja por meio do idioma, da ambientação ou mesmo através dos desdobramentos narrativos, as tramas estrangeiras apresentam aspectos culturais do seu país de origem. As atrações também possibilitam que o público conheça, mesmo que indiretamente, os modos de produção e a estética - fotografia, enquadramentos, tomadas de câmera – distintas das presentes nas séries britânicas e/ou estadunidenses. Nesse contexto, a pluralidade do catálogo estimula os assinantes a ampliarem seu repertório cultural, se tornando mais críticos em relação aos conteúdos que assistem.

A seguir você confere algumas séries estrangeiras que integram o catálogo da Netflix. As tramas abrangem tanto produções originais da plataforma quanto atrações de canais de TV de países como Itália, Espanha, Alemanha e Brasil.


As Telefonistas (Las Chicas delCable) é a primeira série espanhola original da Netflix. A trama aborda o cotidiano de quatro jovens telefonistas em uma empresa que pretende mudar o modo como se faz a comunicação na Europa no ano de 1928. Ambientados em Madri, os episódios acompanham a vida de quatro protagonistas que precisam lidar com diversas questões como traição, amizades, inveja e o desejo de sucesso. Os arcos narrativos explorados em As Telefonistas também retratam aspectos históricos da Espanha como, por exemplo, a implementação de uma máquina que permitiria a ligação direta, sem a necessidade de intermediário de telefonistas.

Com um enredo um tanto inusitado, a série La Casa de Papel ,da emissora espanhola Antena 3, conquistou o gosto do público desde que entrou no streaming em novembro de 2017. A missão de realizar o maior roubo da história na Casa da Moeda da Espanha acompanha a história de oito bandidos habilidosos e seu mentor chamado de “Professor”. A trama eletrizante trabalha bem seus personagens e nos enche de expectativas a cada episódio.



Distribuída pela Netflix, a websérie alemã Dark se passa na cidade fictícia de Winden na Alemanha e tem como principal arco narrativo o desaparecimento de um garoto. No decorrer da trama o fato acaba trazendo à tona outros mistérios, envolvendo diversos personagens da história. A presença de usina nuclear, as florestas, o pequeno povoado e o clima frio são elementos que favorecem a ambientação da série já que contribuem para a imersão do telespectador no país em que a trama se passa.



Sucesso de visualizações, a brasileira 3% é a série de língua não-inglesa mais assistida nos Estados Unidos. A decisão de produzir a trama veio, em parte, da mobilização dos fãs da websérie homônima de três episódios lançada no YouTube em 2009. Situada em um universo apocalíptico, o mundo em 3% é dividido entre mar alto, onde há abundância de recursos, e o continente, onde há apenas miséria. A fim de ascender ao Mar Alto, todo cidadão necessita passar pelo Processo, que consiste em uma seleção de provas físicas, morais e psicológicas. Com um ritmo acelerado, a atração se tornou uma das mais maratonadas pelos assinantes da Netflix.




A italiana Suburra se passa na cidade litorânea de Ostia. O enredo consiste em uma disputa de terras da cidade e envolve um gângster que possui planos para transformar o local na nova Las Vegas. A série coloca máfias, políticos e famílias poderosas em conflito enquanto traz três personagens com buscas sobre o seu destino. Temas como a Igreja, o Estado e a Máfia de Roma são também estão presentes na narrativa.

A Netflix tem investido na pluralidade de suas produções também em outros formatos. Por exemplo, alguns documentários italianos originais do streaming como My Way, que conta a história do ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi e o Amanda Knox, que aborda os desdobramentos da morte da estudante britânica Meredith Kercher.



Novas produções estrangeiras estão previstas para estrear em 2018, como a série Baby, que é inspirada em um esquema de prostituição juvenil conhecido como "Baby Squillo". O escândalo envolveu políticos, empresários e o esposo da neta de Benito Mussolini. Outra série prevista para estrear no streaming é a brasileira O Mecanismo. Com a direção de José Padilha (Narcos, Tropa de Elite 1 & 2, Robocop) e da roteirista Elena Soarez (Filhos do Carnaval, Eu Tu Eles, Casa de Areia), a trama retrata como um pequeno grupo de obstinados investigadores desvenda um monstruoso esquema de corrupção no Brasil e o impacto dessa descoberta em todos os envolvidos e neles próprios.

Apesar de ser recente, o investimento da Netflix em produções estrangeiras é um passo importante no âmbito das narrativas ficcionais seriadas. Além de contribuir para a pluralidade de seu catálogo, ao oferecer ao assinante diferentes tipos de conteúdo, a plataforma também estimula a compreensão crítica de seus telespectadores. Assim o assinante tem a oportunidade de conhecer novos modos de produção, ampliando o seu repertório audiovisual.

Referências:

Número de assinantes da Netflix passa de 100 milhões e lucro sobe 60%. O GLOBO, Online, 2017. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/numero-de-assinantes-da-netflix-passa-de-100-milhoes-lucro-sobe-60-21602347#ixzz59p9ZES3Hstest>. Acesso em: 15 mar. 2018.

RICHER,G. A indústria audiovisual e os fatores estruturais da crise televisiva. In Revista Matrizes, v. 11, n. 1, p. 13-24, 2017. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/download/131622/127906> Acesso em: 18 mar. 2018.

Um comentário:
Escrever comentários
  1. As diferenças culturais nas séries não americanas trazem um conhecimento de mundo maior do quê imaginamos, naturalmente sabemos como os Estados Unidos são, como funciona, como são as pessoas e seus marcos turísticos, mas quase não conhecemos o resto do mundo.

    Essa adição de séries de outras localidades, apesar de serem diferentes na composição de uma forma que as vezes incomoda assistir um pouquinho, por não estarmos acostumados talvez ao idioma, a direção e a atuação, trazem realmente mais conteúdo do mundo. Para mim, essas diferenças das séries "comuns" é o que me dá a curiosidade e a vontade de assistir, pois fugir do mesmo e experimentar coisas diferentes sempre amplia a nossa percepção.

    Ajuda também a talvez despertar interesse em locais turísticos, cidades e idiomas novos que não fazíamos ideia como eram

    ResponderExcluir