As mulheres na comédia: a representação feminina nas sitcoms

É normal que um espectador desenvolva laços com os personagens, porém isso não é suficiente. Mais do que isso, existe uma necessidade de identificação, de empatia Podendo ser considerada uma característica egocêntrica, há um desejo em se reconhecer no personagem, como se ele pudesse ser uma representação das suas próprias vidas. Nas sitcoms isso é ainda mais recorrente, já que são “pessoas comuns” em situações cotidianas, permitindo que o reconhecimento seja mais fácil. No entanto, para homens brancos e héteros isso pode ser simples, mas pra mulheres, negros, LGBTs, índios, latinos - ou qualquer outro grupo que sofre com a opressão - isso é um pouco mais complicado. As opções que geralmente sobram para esses grupos são: personagens estereotipados (o gay histérico, a mulher negra sexualizada, etc) ou tentar se reconhecer nos diferentes. 

O problema é que a primeira opção corrompe a luta desses grupos para mostrarem que são indivíduos únicos e complexos e não devem ser definidos apenas pela sua cor, gênero, nacionalidade, orientação sexual ou qualquer outro fator. E a segunda opção pode gerar um conflito interno no espectador, como o caso da heterossexualidade compulsória que muitas vezes faz com que uma mulher lésbica tente, mesmo que inconscientemente, reverter ou negar sua orientação sexual, já que aquilo apresentado a ela são mulheres que se casam com um homem e são felizes para sempre. Além disso, pode gerar baixa autoestima nas pessoas que não atendem ao padrão de beleza dos protagonistas bonitos, magros e brancos e um sentimento de inferioridade aos negros que são representados em funções de subordinação aos personagens brancos (faxineiros, motoristas, babás) ou como criminosos. 

Por isso a representatividade é tão importante, para que outras pessoas além de homens, brancos e héteros possam se identificar. Além disso, a inclusão de minorias retira-os da marginalização e humaniza-os, mostrando que eles também fazem parte da sociedade e devem ser respeitados. Porém, esse tipo de representação responsável, honesta e sem estereótipos é pouco comum, mesmo nos dias de hoje em que essas questões estão frequentemente em pauta. 

Comédia, Sitcom e TV 

Segundo a Wikipédia, comédia é “qualquer discurso ou trabalho com a intenção de ser engraçado ou divertido, provocando risadas, especialmente em teatro, televisão, cinema, stand-up ou qualquer outro meio de entretenimento” (tradução da autora). No entanto, pouco se vê em narrativas ficcionais seriadas uma comédia “pura”, a complexidade narrativa das séries contemporâneas faz com que as tramas sejam híbridas, misturam gêneros, mesmo que haja um predominante. Nas comédias, o mais comum é uma imbricação com o drama, que cria uma história para além das piadas e situações engraçadas. O contrário também acontece, quando se utiliza do humor para promover um alívio cômico em um arco dramático. 

Na década de 40, a televisão surge com o objetivo de promover a união da família, aproveitando da estrutura patriarcal, o aparelho é colocado como necessário para a vida de uma família moderna, sendo uma ferramenta conservadora para combater os avanços progressistas que começavam a aparecer (em 1949, a obra O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir estava sendo publicada, sendo esse um grande marco para o movimento feminista). No momento do lançamento da televisão comercial nos Estados Unidos, em 1941, não havia uma grande popularidade da mesma e a situação se tornou ainda pior quando cinco meses após esse lançamento, o país entrou para a Segunda Guerra Mundial. Porém, cinco anos depois, uma sequência de fatores fez com que a televisão conquistasse seu espaço. O pós-guerra foi primordial para essa conquista: os Aliados venceram, o território estadunidense encontrava-se intacto, o país faturou pela cooperação, se tornou um grande foco de investimento e os soldados norte-americanos voltaram para suas casas. Além do momento grandioso para os EUA, o Baby Boom (explosão demográfica que ocorreu devido ao alto número de nascimentos 9 meses após o fim da Segunda Guerra Mundial) foi primordial para a consolidação da TV. A formação de novas famílias e o deslocamento dos centros urbanos para o subúrbio exigia uma forma de entretenimento em conjunto, a partir desse momento, o aparelho se tornou cada vez mais popular (FRIEDRICH, 2018). 

As sitcoms conquistaram seu espaço na tela logo no início dessa popularização. Isso se deu pela adaptação de um programa de rádio My Favorite Husband (Rádio CBS, 1948-1951) que resultou na série I Love Lucy (CBS, 1951-1957), apesar de ter sido estreada 5 anos após a primeira sitcom ser lançada – Pinwright’s Progress (BBC, 1946-1947) – ela é considerada até hoje um dos maiores marcos da televisão e inspirou primeira sitcom brasileira, Alô, Doçura (TV Tupi, 1953-1964). Sitcom é a abreviação da expressão situation comedy, podendo ser traduzida como “comédia de situação”, são séries com personagens recorrentes que participam de um mesmo núcleo (geralmente família, grupo de amigos ou trabalho), na maioria das vezes este formato consiste em episódios semanais de 20 a 30 minutos, presença de plateia na gravação, trilha de risadas e aproximadamente três cenários fixos (IZEL, 2016). 


Mulheres e Sitcom 

As mulheres são estereotipadas, oprimidas e violentadas na sociedade patriarcal vigente e na ficção isso não é diferente. Segundo Friedrich (2018) esta problemática na forma que as mulheres podem ser observadas nas sitcom

Os diálogos rasos, a competição entre mulheres, a necessidade de chamar atenção do homem, a possessividade do companheiro, o relacionamento cheio de abusos. Se existisse uma checklist de situações habituais em séries com protagonistas mulheres, muitas marcariam todos os quesitos acima [...]. Na comédia ela ainda é pior, por uma simples razão: os abusos são levados como comédia. Rir da concorrente gorda? Ok. Rir do descontrole da mulher? Ok. Rir do homem agarrando a mulher a força? Ok. A liberdade cômica é muito questionável. Até onde a comédia é engraçada? Até quando a sitcom [...] não está naturalizando uma situação problemática? (FRIEDRICH, 2018, p. XVI) 

A San Diego State University possui um centro de pesquisa sobre a presença de mulheres nos filmes e na televisão (Center of Study of Women in Television and Film), os dados desses estudos mostram como a situação da representação da mulher é preocupante. Em 2017, 42% das séries eram protagonizadas por mulheres (e 38% em 2016); 68% dos programas televisivos tem a maior parte do elenco composta por homens; 58% das mulheres tem seu papel social como foco na narrativa (mãe, esposa, etc), enquanto 61% dos homens são identificados pela profissão; nos cargos profissionais da vida real, as médicas mulheres ocupam 32%, as advogadas 33%, as engenheiras 14% e no exército 16%, já na ficção esses números se reduzem para 10%, 11%, 5% e 3%. Esses dados correspondem apenas ao território norte-americano e a TV paga, porém, motivada por essa pesquisa, a autora Fernanda Friedrich fez um levantamento sobre as protagonistas das séries de TVs pagas no Brasil. Das séries analisadas, 29% possuíam mulheres como protagonistas, 44% possuíam homens e o restante apresentava protagonismo dividido. Além disso, das mulheres protagonistas, 17% tinham como tema central a profissão e 44% os relacionamentos, enquanto para homens esses números eram 50% e 4%, respectivamente. 


Esses números mostram que tanto na vida real quanto nas séries as mulheres ainda são colocadas em um patamar abaixo ao dos homens e que a igualdade entre os sexos está longe de ser alcançada. Existem tramas que contribuem para esse progresso da emancipação feminina, no entanto, na maioria das vezes as mulheres continuam sendo representadas de forma estereotipada ou subordinada ao homem. Algumas séries se destacaram por apresentarem personagens mais progressistas, mesmo com suas falhas, foram importantes para o contexto da época. O principal exemplo é The Mary Tyler Moore Show (CBS, 1970-1977), que apesar de utilizar a zona de conforto do feminismo liberal e de Mary continuar compreendo certos papéis sociais impostas a mulher, a série apresentava uma personagem que não se importava em estar solteira, gostava de sua independência e tinha sua carreira como foco. Apesar de parecer pouco para os dias atuais, esse tipo de representação onde as espectadoras podiam ver outras mulheres em papéis para além de esposa ou mãe, começava a construir no imaginário do público a mulher que não depende do homem. Essa nova representação vinha junto com a Segunda Onda do feminismo, que questionava as origens da opressão sofrida pelas mulheres. Ter esse questionamento e ver mulheres independentes em suas televisões, serviu como inspiração para muitas telespectadoras. 

Apesar da crítica ao uso do feminismo liberal para a construção de séries com mulheres independentes, essa era uma estratégia interessante para a época. Apesar de puramente comercial - uma trama com uma mulher completamente livre da sociedade patriarcal, empoderada, independente e autossuficiente teria dificuldade para fazer sucesso até nos dias hoje. Porém, esperava-se mais do que mulheres como esposas, essa estratégia contribuía para a inserção de questionamentos e posicionamentos sem que causar um choque social. Para o contexto, era importante ter uma série que equilibrasse o conservador e o progressista, pois levava pautas para mulheres conservadores que poderia refletir sobre seu papel social, enquanto uma série completamente revolucionária causaria repulsa a esse público em um cenário em que essas discussões ainda estão sendo construídas. Mesmo com esses pequenos avanços, séries como The Mary Tyler Moore Show abriram caminho para representações mais complexas, como no caso de Maude (CBS, 1972-1978), spin-off de All In The Family (CBS, 1971-1979), a primeira série em que uma personagem debateu sobre e optou por fazer um aborto. 

As problematizações feitas sobre a série Maude está presente em praticamente todas as tramas com mulheres independentes como protagonistas: elas são brancas, heterossexuais e de classe média. Enquanto mulheres brancas eram donas de casa submissas aos maridos, as mulheres negras eram serventes de famílias brancas. Mulheres brancas desejavam trabalhar e mulheres negras já trabalhavam há séculos em condições precárias e de subordinação; mulheres brancas queriam a liberdade sexual enquanto para as negras só existiam dois extremos, a assexualização, em que são colocadas como não atraentes e a hiperssexualização, em que são resumidas em seus corpos e sensualidade. Apesar de todas essas diferenças, algumas coisas eram comuns: ambas estavam resumidas aos seus afazeres domésticos, tinham suas vidas definidas por fatores externos e nenhuma possuía a posse do próprio corpo. 

Até os dias de hoje são poucas as séries que têm mulheres negras como protagonistas. Tramas com mulheres que fazem parte de minorias étnicas estão ganhando espaço somente agora. Desde o início do prêmio Golden Globes, apenas duas latinas conquistaram o prêmio de melhor atriz em séries de comédia, America Ferrera de Ugly Betty (ABC, 2006-2010) e Gina Rodrigues de Jane The Virgin (WB, 2014-) que disse em seu discurso de agradecimento: “Este prêmio significa muito mais do que eu mesma, representa uma cultura que quer ver a si mesmo como heróis”, mostrando o quanto a representatividade é importante para as minorias. 


Nas sitcoms de maior popularidade, mesmo que existe uma melhor representação da mulher, ainda existem muitas falhas. Em Friends (NBC, 1994-2004), por exemplo, apesar das protagonistas mulheres serem bem desenvolvidas e independentes, a estrutura machista é frequente na série. Muitas vezes os homens tratam mal as mulheres – principalmente o Joey -, Ross cria seus filhos de forma patriarcal, se incomodando com o filho brincar de boneca e de ter um homem como babá, a forma que o passado de Mônica é apresentado reforça a gordofobia e os padrões de beleza. Além disso, os personagens são frequentemente lesbofóbicos e na série a representatividade de negros e minorias étnicas são praticamente nulas. 


Seguindo a cronologia , em How I Met Your Mother (CBS, 2005-2014), uma das protagonistas Lily, que sempre será vinculada como a namorada/esposa de Marshall, é também a “mãe”, aquela que está sempre disposta a cuidar de todos e resolver os problemas de todo mundo, inclusive de Ted, que como homem branco tem o privilégio de agir como criança diversas vezes sem ser julgado e ter a Lily para consertar as situações, enquanto isso, a arte da personagem é muitas vezes menosprezada e deixada de lado. Robin é sua companheira e apesar de parecer que é uma personagem revolucionária e empoderada, durante a série ela abre mão de várias coisas para se encaixar no padrão dos homens da trama . Essa é também outra série com pouquíssima – quase nenhuma – representatividade para LGBTS, negros e minorias étnicas, além de todos personagens estarem imersos no padrão de beleza. 

Em seguida temos Modern Family (ABC, 2009-), uma trama que podia ser uma das principais quando se fala sobre representatividade, devido à variedade de elenco e multiplicidade de temáticas sociais que apresenta, é uma das mais problemáticas. Gloria é o estereótipo da latina sexualizada, escandalosa, fútil e vulgar. Além disso, as menções feitas sobre sua vida na Colômbia são baseadas também em arquétipos. Alex, a personagem que poderia ser um ícone feminista, mostrando sua inteligência e desejo por independência, ao longo da série passa a, cada vez mais, se importar com homens, relacionamento e feminilidade. Haley é a patricinha, burra e fútil. Claire é a mulher neurótica, dona de casa e tem que lidar com as infantilidades do marido - que assim como o Ted, tem esse privilégio, quando ela decide seguir sua vida profissional precisa se provar o tempo inteiro para outros homens e a dificuldade entre o equilibrar emprego e família está presente na maioria de seus arcos narrativos. 


Por último, a mais recente, One Day At a Time (Netflix, 2017-2019) tinha o mesmo potencial de Modern Family, a série se coloca como revolucionária, mas esconde apresenta vários pontos problemáticos. Apresente diversas discussões, mas não se aprofunda nelas, sendo sempre superficial. A trama se propõe a uma temática LGBT, latina e feminista, mas ao tratar dessas questões apresenta falhas graves. Lydia, a personagem conservadora da série, é a principal fonte de humor da trama, o problema é que esse humor é construído em cima de suas frases preconceituosas. Elena, lésbica e feminista, é constantemente menosprezada pela família que demonstra uma clara preferência pelo irmão, além disso, suas lutas são apresentadas de forma caricata, diminuindo seu valor. Já Penelope é o equilíbrio do conservador e progressista. 

Apesar de suas falhas, todas tem sua importância no papel da emancipação feminina. A reflexão que deve ser feita é porque mesmo nos dias de hoje com o avanço da luta feminista, ainda existe uma dificuldade em encontrar personagens mulheres complexas, bem construídas e que verdadeiramente se posicionem contra o patriarcado? A resposta para essa pergunta muitas vezes pode estar nos bastidores: apesar de terem personagens consideravelmente revolucionárias, as séries continuam sendo produzidas, dirigidas e escritas em sua maioria por homens brancos. Para uma representatividade honesta nas telas, é preciso ter por trás delas. Viola Davis falou sobre essa situação em seu discurso de agradecimento ao Emmy, ela foi, em 2015, a primeira mulher negra a ganhar um Emmy por série dramática: 

Na minha mente, vejo uma linha. E depois dessa linha, vejo campos verdes, flores adoráveis e lindas mulheres brancas com seus braços esticados na minha direção, depois dessa linha. Mas não consigo chegar lá. Não consigo passar dessa linha” Quem disse isso foi [a ex-escrava e abolicionista americana] Harriet Tubman, nos anos 1800. E deixem-me dizer algo a vocês: a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem. (DAVIS, 2015) 


Referências 

CASTELLANO, Mayka; MEIMARIDIS, Melina. Mulheres Difíceis: A anti-heroína na ficção seriada televisiva americana. Famecos, Porto Alegre, v. 25, n.1, 2018. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/27007>. Acesso em: 24 ago. 2019. 

FRIEDRICH, Fernanda. Uma Série de Mulheres Engraçadas: As protagonistas das sitcom em 70 anos de mudanças dentro e fora da tela. Rio de Janeiro: Gramma, 2018. 

SEABRA, Rodrigo. Renascença: A série de TV no século XXI. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. 

COMEDY. WIKIPEDIA. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Comedy>.24 ago. 2019. 

MITTELL, Jason. Complexidade narrativa na televisão americana contemporânea. Matrizes, v. 5, n.2, p. 29-52, 2012. Disponível em: <www.journals.usp.br/matrizes/article/viewFile/38326/41181>. 24 ago. 2019. 

VIEIRA, Marcel. Dramaturgia seriada contemporânea: aspectos da escrita para a tevê. Lumina, v.8, n.1, p. 1-14, 2014. Disponível em: <https://lumina.ufjf.emnuvens.com.br/lumina/article/view/355/307>. 24 ago. 2019. 

ESTADOS UNIDOS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. WIKIPEDIA. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_Unidos_na_Segunda_Guerra_Mundial>. 

A INVENÇÃO DA TELEVISÃO. HISTÓRIA DO MUNDO. Disponível em: <https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/a-invencao-da-televisao.htm>. 24 ago. 2019. 

ALÔ, DOÇURA!. WIKIPEDIA. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Al%C3%B4,_Do%C3%A7ura!>. 24 ago. 2019. 

I LOVE LUCY. WIKIPEDIA. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/I_Love_Lucy>. 24 ago. 2019. 

SITCOM, FORMATO CLÁSSICO DO HUMOR, PERDURA ATÉ OS DIAS DE HOJE NA TEVÊ. CORREIO BRAZILIENSE. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2016/10/25/interna_diversao_arte,554518/sitcom-formato-classico-do-humor-perdura-ate-os-dias-de-hoje-na-teve.shtml>. 24 ago. 2019. 


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