domingo, 26 de novembro de 2017

Deep Media: uma análise do universo imersivo de Gotham

 
 
Não tem como negar que o desenvolvimento de conteúdos multiplataformas passou a ser algo essencial para as tramas contemporâneas. Afinal, cada vez mais as narrativas deslizam por distintos meios e linguagens. Além disso, é importante que se tenha uma ampliação em determinadas produções, visando maior imersão do público. Atualmente é comum ver universo ficcionais que são fragmentados e dão origem a novos produtos.

A série estadunidense Gotham, de Bruno Heller, por exemplo, explora o universo ficcional de Batman por um outro “ângulo” e possibilita um maior conhecimento até mesmo de personagens secundários – resultando em um aprofundamento.

Para desenvolver os personagens da trama, Heller se baseou na HQ Gotham Central. A primeira aparição de Batman se deu em 1939, na edição 27 da Revista Detective Comics. Hoje, 78 anos depois, ainda há produção para o universo ficcional do super-herói. O fato é que durante décadas a história do menino órfão foi se renovando, e com um fator importante: sem perder a identidade. Um dos motivos para o sucesso do Homem-Morcego está atrelado à narrativa transmídia. 



De acordo com Jenkins (2008), cada contato com à franquia deve ser independente, para que seja possível gostar da produção em uma plataforma sem necessariamente ter a visto em outra. O universo de Batman sempre foi eficaz quanto a isso. A aparição nos mais diversos meios, amplia a oportunidade de pessoas terem o seu primeiro contato de forma distintas uma das outras. As HQ, os filmes, as séries e os quase 30 jogos eletrônicos, apresentam cada vez mais um novo “olhar” para o público. Nesse sentido, o universo ficcional proporciona inúmeros pontos para serem abordados e explorados em outras produções e plataformas - seja através de personagens, detalhes, cronologia diferentes, etc.

Para que um universo ficcional sobreviva durante décadas, é necessário que haja alternativas e elementos que possam ser explorados dentro da narrativa. Como pontua Rose (2011), além de contar histórias em uma múltiplas plataformas é importante proporcionar e permitir o público investigar, participar e imergir na trama. Nesse contexto, juntamente com a transmídia, a deep media passa a ser essencial. O termo, cunhado pelo autor, se refere à capacidade das histórias de estimularem a imersão do público.

O universo extenso de Batman possibilita a existência de produções que apresentem diferentes angulações. Um caso recente e que trabalha muito bem com isso, é Gotham. Por meio da narrativa, a série “responde” a questões mais profundas desse mundo ficcional. Ou seja, além do âmbito tecnológico no entretenimento contemporâneo, o narrar continua sendo um elemento importante para a imersão do público.

Diferentemente da grande parte das produções, nas quais já trabalham em cima de Batman no combate ao crime e seus inimigos, Gotham é narrada na perspectiva do comissário Gordon. Pode-se questionar: mas e o Batman? Esse ainda se quer existe, o super-herói vai se desenvolvendo no decorrer da série – assim como seus inimigos. Que Bruce/Batman teve seus pais assassinados em sua frente quando ainda era uma criança, pode não ser novidade para aqueles que já leram/viram alguma história do “Homem-Morcego”. No entanto, como se deu a investigação da morte de seus pais? Como foi a vida de Bruce antes de se tornar o Batman? E o surgimento de seus inimigos? O “nascimento” deles também estaria atrelado a algum trauma? Todas essas questões nos levam para um outro lado desse universo ficcional, e é o que a série nos apresenta. Nela, Gordon aparece como um suposto “herói”, por ser um policial idealista e sempre disposto a encarar o “mau” de Gotham City. Portanto, como é colocado por Rose (2011), as alterações na indústria do entretenimento abrem esses caminhos: de imersão e expansão. Na série em questão, Heller aborda as máfias existentes na cidade e “humaniza” os vilões de Batman, desvendando suas trajetórias – o que promove um aprofundamento da narrativa original. Logo, possibilita que o público veja a evolução e o desenvolvimento da personalidade dos personagens.

Diante disso, é possível fazer com que o público reflita ainda mais sobre esse universo – o que induz também o consumo de outras produções relacionadas a esse mundo ficcional. No caso de Gotham – tendo como base também as histórias em quadrinhos -, pode-se pensar que, não foi apenas o surgimento do super-herói que foi advento de um trauma, mas o “nascimento” dos vilões também pode estar associado ao mesmo motivo.

Um universo extenso como o de Batman possibilita a criação de novas histórias. Dessa forma, no ambiente da convergência midiática muitas lacunas são preenchidas em novas produções e os personagens secundários podem se tornar protagonistas.

Referências:

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. Tradução de S. Alexandria. São Paulo: Aleph, 2008.

ROSE, Frank. The Art of Immersion: How the Digital Generation Is Remaking Hollywood, Madison Avenue, and the Way We Tell Stories. New York: W W Norton & Company, 2011. 


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