sábado, 14 de outubro de 2017

A perfurabilidade de Star Trek: uma análise do talk show AfterTrek

Há mais de 50 anos, Star Trek faz parte da vida de muita gente. Entre séries, filmes e animações, são mais de 700 horas de conteúdo ficcional. A Jornada nas Estrelas começou em setembro de 1966, quando Kirk, Spock, McCoy e outros membros da tripulação embarcaram na USS Enteprise, com a missão de ir “onde nenhum homem jamais esteve”. 
 

De lá pra cá, foram dez filmes e seis séries, até 2005, quando a franquia entrou em um hiato televisivo, ao fim de Star Trek: Entreprise. Daí a Paramount, detentora dos direitos cinematográficos da marca, abordou o produtor e diretor J.J. Abrams e uma equipe de roteiristas para que criassem um projeto para as telonas. Surgiu, então, um universo paralelo dentro da cronologia de Star Trek, que permitiu à equipe criativa contar novas aventuras da equipe original, culminando no primeiro longa, Star Trek, em 2009. O universo de Abrams continuou efervescente, com o lançamento de Star Trek: Além da Escuridão (2013) e Star Trek: Sem Fronteiras (2016).
 

Este ano, após 12 anos fora da TV, Star Trek: Discovery estreou quebrando novas barreiras. A série, que sempre se mostrou muito representativa, trazendo pessoas de diferentes etnias e mulheres em papéis de destaque e importância, colocou, pela primeira vez, duas mulheres – uma asiática e uma negra – como Capitã e Primeira Oficial. Além disso, a trama explora novas plataformas de divulgação: enquanto nos EUA e Canadá a série é exibida pelo canal aberto CBS e pela plataforma de streaming da emissora, no restante do mundo a Netflix detêm os direitos de distribuição, disponibilizando cada episódio semanalmente, um dia após a transmissão original. 


Diante de tamanho universo ficcional, a franquia, a cada episódio ou filme, desperta nos fãs – os Trekkies – a busca por respostas a acontecimentos, enigmas, eastereggs, além da tentativa de projetar o que acontecerá no futuro da narrativa.

Mittell afirma que as tramas com a capacidade de suportar buscas profundas por parte do público possuem um alto nível de “perfurabilidade” (em inglês, drillability) (MITTELL, 2009). Segundo o autoros fãs dos universos ficcionais “perfuráveis” agem como “detetives” que procuram pistas escondidas na história afim de compreender a complexibilidade da narrativa e que os criadores dessas atrações tendem a incentivar o engajamento do telespectador, garantindo que a investigação possibilite um resultado satisfatório ao esforço dispensado (MITTELL, 2009). 
 
 
Os pontos ressaltados por Mittell (2009) podem ser observados no talk show AfterTrek, produzido pelo canal estadunidense CBS. O programa, que é transmitido ao vivo após as exibições dos episódios da série nos Estados Unidos, é inspirado em outros produtos de mesmo formato que acompanham a exibição de séries como The Walking Dead (TalkingDead) e a já concluída BreakingBad (TalkingBad) e tem como apresentador Matt Mira, Trekker e um dos criadores do podcast americano Nerdist.
 


AfterTrek recebe os atores e equipe criativa de Discovery em um estúdio repleto de referências ao universo de Star Trek: Estão lá insígnias, comunicadores, faisers, miniaturas de naves e livros; até mesmo o formato da mesa em que ficam o apresentador e convidados remete ao símbolo da Frota Estelar, agência de defesa, pesquisa, diplomacia e exploração da Federação dos Planetas Unidos.

O programa repercute os acontecimentos do episódio exibido anteriormente, comentando, entre outras coisas, cenas de ação, reviravoltas e atitudes tomadas pelos personagens. Os convidados também respondem comentários dos fãs, que são instigados a participar do programa por meio de postagens no Twitter utilizando a hashtag #AfterTrek e citando o perfil da série na rede social (@startrekcbs). As dúvidas, considerações e prospecções dos telespectadores interagentes são comentadas pelos convidados no estúdio. 
 
 
A participação do público é a alma de AfterTrek, além das inserções de perguntas e vídeos enviados pelo Twitter, os telespectadores podem responder à enquete por meio do site da atração. Sempre com perguntas e alternativas bem-humoradas, ela também é comentada pelos convidados.Como, por exemplo, na primeira edição, exibida em 24 de setembro de 2017, o público deveria decidir se gostariam de lutar ou jantar com os extraterrestres da raça Klingon, principais vilões de Discovery; isso porque, obviamente, os ETs são exímios lutares, mas sua alimentação consiste basicamente de uma espécie de minhoca chamada “gogh”.
 
 
Os fãs também podem demonstrar todo o seu amor por Star Trek enviando, pelo Twitter, fotos em locais representativos para a narrativa ou vestidos como as personagens da franquia. As melhores são selecionadas e exibidas no quadro “Trek Life”. 
 
 
De volta ao site, os fãs podem responder ao “Star Trek Trivia”, um quiz relacionado a um dos acontecimentos do episódio comentado. As perguntas são direcionadas aos fãs mais detetivescos da franquia, pois estabelecem ligações com outras séries e cientificidades do mundo real. A exemplo da trivia da primeira edição, temos a pergunta “Quem surgiu pela primeira vez com a ideia da Pinça Vulcana?” As alternativas trazem o cientista Isaac Asimov; o criador de Star Trek, Gene Roddenberry; além do intérprete de Spock, Leonard Nimoy, resposta correta da primeira pergunta. Após os 10 segundos dispensados para que os telespectadores interagentes respondam pelo site do programa, uma curiosidade que “justifica” a resposta certa aparece na tela, antes que as próximas perguntas cheguem.

A imbricação de perguntas em relação à série e outras que trazem dados científicos reais se dá, pois as tecnologias inventadas em Star Trek influenciaram, de uma forma ou de outra, a criação de coisas que utilizamos nos dias de hoje. Por mais que o tele-transporte ainda não seja uma realidade, os comunicadores utilizados pelas personagens foram inspiração para criação dos primeiros celulares; a tecnologia dos novíssimos assistentes domésticos, como o Google Home, é baseada na conversação entre as personagens e os computadores das naves. Não por acaso, a Alexa, da Amazon, responde à comandos Trekkies, como “alerta vermelho”. Essas relações também são mostradas no programa, no quadro “Thankyou, Star Trek”. 
 
 
Para quem está engatinhando pelo universo de Star Trek, o programa ainda possui um “Treinamendo de Cadetes”, que indica sempre três episódios significativos para que os novos fãs possam experimentar dos antigos produtos, sem precisar assistir a todos os episódios de todas as temporadas – o que demandaria muito tempo. AfterTrek ainda traz bastidores de gravação de cenas dos episódios, da caracterização das personagens e da montagem de cenários, além de relatos dos atores, matando a curiosidade dos fãs sobre como a série é feita. 
 

 
Das formas mais variadas, AfterTrek evidencia o alto nível de perfurabilidade do universo ficcional de Star Trek, seja revisitando pontos importantes de outros produtos ou conjecturando futuros para Discovery, possibilitando aos fãs uma nova oportunidade para discutir os segredos da narrativa.

Referências:

MITTELL, J. Forensic Fandom And The Drillable Text. Spreadable Media, Online, 2009. Disponível em: <http://spreadablemedia.org/essays/mittell/#.Wd-CmGhSzIU>. Acesso em: 12 out. 2017. 


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